Gabriel e a esperança verde-amarela

Crônicas

Alberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras

O encerramento de mais um Campeonato Mundial de Futebol deixou ensinamentos que ultrapassam os limites das quatro linhas. Entre todos eles, talvez o maior seja a certeza de que a vitória não pertence apenas aos que reúnem talento individual ou jogadores consagrados.

Ela costuma sorrir para aqueles que unem técnica refinada, espírito coletivo, disciplina e uma determinação inabalável, demonstrada em cada dividida, em cada corrida e em cada minuto de uma partida. As grandes seleções mostraram que vencer exige muito mais do que habilidade: exige entrega absoluta. Que o diga “Vozinha”, goleiro de Cabo Verde.

Ter a oportunidade de acompanhar os jogos do onze brasileiro no próprio estádio, foi uma das experiências esportivas mais marcantes da minha vida. Por mais que a televisão transmita imagens impecáveis, nada se compara à emoção de sentir a vibração das arquibancadas, ouvir o canto das torcidas e acompanhar, a poucos metros de distância, alguns dos maiores jogadores do planeta exibindo toda a sua genialidade.

Outro espetáculo acontecia fora das quatro linhas. Torcedores vindos dos mais diversos países conviviam em perfeita harmonia. Bandeiras de diferentes nações coloriam as arquibancadas, idiomas se misturavam naturalmente e, apesar da rivalidade saudável entre os times, predominavam o respeito, a cordialidade e a alegria de celebrar o futebol, verdadeiro idioma universal capaz de aproximar povos de culturas tão distintas.

A organização dos estádios também impressionava. Desde o acesso às arenas até o retorno ao hotel após as partidas, tudo funcionava com eficiência, segurança e cordialidade. Era evidente o cuidado em proporcionar ao público uma experiência inesquecível, fazendo do Mundial uma grande festa do esporte.

Infelizmente, mais uma vez, o sonho canarinho terminou antes da decisão. A derrota para a Noruega trouxe a inevitável frustração de milhões de torcedores. Não acredito na inexistência de qualidade técnica aos nossos jogadores. Pelo contrário. Talento nunca foi problema para o Brasil.

Talvez tenha faltado justamente aquilo que tantas outras seleções demonstraram durante toda a competição: a disposição de disputar cada lance como se fosse o último, de colocar o interesse coletivo acima das individualidades e de compreender que nenhuma camisa, por mais gloriosa que seja, vence uma partida apenas por sua história.

Confesso que sofri intensamente. Vibrei a cada ataque, comemorei cada oportunidade criada, incentivei como se minha voz pudesse alcançar o gramado e compartilhei a tristeza do apito final. Ainda assim, ao deixar o local ao lado da família, permanecia a gratidão por ter vivido um momento tão especial, cercado pelas pessoas que mais amo.

Foi justamente nesse instante que aconteceu a cena mais bonita daquela noite. Uma equipe da “TV Connection” entrevistava torcedores, e resolveu abordar Gabriel, meu neto. Perguntaram-lhe qual mensagem gostaria de deixar aos brasileiros após a eliminação da Seleção. Sem hesitar, olhando firme para a câmera e com a serenidade que somente as crianças conseguem transmitir, respondeu:

— Não precisa ficar triste, porque o Brasil, daqui a quatro anos, vai ganhar a próxima Copa.

Aquelas poucas palavras disseram muito mais do que qualquer análise esportiva. Na simplicidade de uma criança de apenas sete anos, havia uma lição de confiança, de otimismo e de esperança. Enquanto muitos adultos se deixavam dominar pela decepção, Gabriel lembrava que o futebol, assim como a própria vida, sempre oferece uma nova oportunidade para recomeçar.

Saí dali convencido de que os campeões não são apenas aqueles que levantam taças. Campeões também são os que preservam a capacidade de acreditar, mesmo depois da derrota. E, como avô, prefiro guardar na memória não o placar estampado no telão, mas o brilho nos olhos do meu neto, ao renovar a esperança de um país inteiro.

Tenho a firme convicção de que ele está certo. Afinal, quem aprende a transformar derrotas em combustível para novos sonhos já começou, silenciosamente, a construir a próxima vitória, pois com fé, trabalho e união, tudo haverá de dar certo

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