CRIOPERSONAGEM

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Esse nosso existir, disse Prevento ao abrir os olhos pela primeira vez após meses, afetava a existência de maneira brutal.
Quão mecanismo de defesa, essa febre permaneceu nele por quase três anos. Ao acordar, Prevento saltou:
Eu n existia por mim; alguém existiu antes pra q eu pudesse existir dps. E q tipo de pessoa faria isso? Espécie de criopersonagem. Uma pessoa q existiu no princípio e a mim deu o nome de personagem. Q tipo de personagem eu seria no enredo q movimentava minha cidade Caseína? Qdo td tava sem forma, vazio. Eu seria personagem raso, por não exercer nem sentimento nem pensamento?
Sentou-se na cama pela primeira vez, após quase três anos em silêncio, tomado pela febre. Olhos vidrados, como se olhasse aqle vampiro q surpreendia os passageiros dos ônibus urbanos q, desavisados, se sentassem no banco ao lado do desconhecido. As trevas. Só as trevas. Elas cobriam o abismo na cama onde ficou Prevento por quase três anos. Ele acordou. Livre da febre?
Eu seria sob a tinta do criador de narrativas um mero personagem linear: mantinha iguais características do início ao fim?
As trevas cobriam o abismo na cabeça de Prevento ainda preso à cama. Ele ficou abalado, disse a voz da Genitora na cadeira de rodas, pela certeza de q um vento sem trégua ameaçava arrancá-lo da cama onde queria permanecer por igual tempo q havia nela ficado.
Prevento jurava ouvir a voz daqle narrador q td sabia e em td interferia. A voz... Era mesmo ela a testemunha dos acontecimentos nos personagens. Seria eu um personagem caracterizado por mudanças q surpreendiam a mim?
Esperava ouvir a voz de qm narrava. A voz de qm protagonizava tds aqles acontecimentos em Caseína. A voz disse: “Q existisse Caseína!” e Caseína logo passou a existir como cidade neogótica de prédios com paredes de vidro presas por estruturas de ferro fundido.
Ouvi vozes no plural, criadas pelo poder do criador de Caseína. Sussurrou ele ao lado delas com sua voz única narrando os acontecimentos de tds aqles personagens complexos representando a fraqueza humana e nenhuma força. N aceitarei nunca o personagem gente, q existia imitando a realidade humana; ou o personagem inanimado por ser mero objeto q se personificava.
Vinha de algum lugar do quarto de Prevento, na casa da Genitora, presa à cadeira de rodas, a voz q narrava os acontecimentos.
Personagem vegetal limitava-se ao q se referia à vida das plantas. Via-se Prevento n na cama, via-se em vaso de planta na janela da casa da Genitora. E ouvia a voz em fragmentos narrando pedaços do passado em Caseína.
No entanto, Caseína n existia. Era possível haver um personagem animal irracional, q humanizava o não-humano? Ouvia Prevento a voz narrando trechos do presente.
O mundo virtual desvirtuou o mundo do papel. No mundo do papel, disse Prevento, cada personagem em sua ficção particular. Q personagem eu sou, criador? Acaso sou um personagem mineral, uma coisa orgânica q ganhava vida graças a luz da criação? Ou um personagem híbrido, q se caracterizava como alegoria à realidade?
Me encontrava no meio das águas. Porém, as águas de Caseínas foram ocupadas pela lama, q se solidificou sufocando sua vida. Chão do quarto parecia seco. Vinham personagens protagonista e coprotagonista, destacavam-se na história além da porta desse quarto.
O discurso direto se misturou ao discurso indireto e foi derramado sobre o discurso indireto livre. Era aqla voz q td sabia e em td interferia, q narrava td o q via e até o q n via, o q n mostrava.
Q tipo de personagem era? Narrava com voz alheia. Ou um personagem antagonista, q energizava no enredo o antagonismo? Essa força substituindo a voz alheia pela minha. Ou eu era personagem secundário, q ocupava o enredo, mero auxiliar do protagonista? O criador, q narrava se distanciando do q narrava, narrava pq td cabia nele; ele usava uma terceira voz, agia de maneira neutra e onisciente.
Personagem fluido: imperceptível na história? O criador de Caseína vivia de narrar o q presenciava em Caseína; em suas ruas escuras e em suas fétidas servidões de passagem. Um personagem comum eu era, q facilmente aparecia nesse tipinho de história.
Qdo eu queria ser a voz q protagonizava os acontecimentos narrados em Caseína, eu n passava desse personagenzinho dual caracterizado por dúvidas e indefinições. Queria misturar discursos, como personagem mítico e lendário, e primitivo e contemporâneo.
Queria ocupar a pluralidade de vozes do criador de Caseína. Personagem ilustrativo representando a imagem da cidade q me pariu. Ou mero personagem ausente na história, representado apenas pela lembrança?
Misturo o discurso direto com o indireto por capricho da pena do criador. E ouço a voz do personagem enredo vivendo pela ação.
N havia monólogo interior com o personagem tempo, q existia movido pela crônica do folclore urbano, velhas lendas q ouriçam pelos, provocavam atritos involuntários dos dentes em td tipo de gente. Ou seria tão só personagem lugar por viver no espaço psicológico físico a um só tempo?
Esse criador de Caseína ficava centrado em único personagem? N era igual ao personagem estilo: presente pela representatividade do gênero, ou ao personagem narrador, q zelava pela narração, ou ao personagem herói, q se notabilizou pela ética. Nem ao personagem anti-herói, q agia avesso à ética.
Fui criado nessa cidade feito pássaro! disse Prevento deitado sugando o ar da noite. No som de chuva q lavava as escuras ruas de Caseína.
Prevento pulou da cama:
Éramos apenas personagens sob o capricho do criador dessas narrativas. Nunca mais dormirei na vida. Qdo sair dessa cama, direi a tds: “Vamos mobilizar afetos?” disse diante do reflexo na parede de vidro.
Ligou o barbeador.
Personagens, personagens. Éramos meros personagens nas mãos desse incógnito narrador, q nem sei se existia ou se era resultado de todo esse tempo jogado naqla cama molhada de suor e fedentina. N passava dos caprichos nas ações e nos enredos moldados em blocos de argila.
Zuummm...zuuummm...! fazia a máquina de barbear. Ele ficou parado na imagem do pássaro q se protegia da chuva, no último galho, na última árvore de Caseína. Vivendo encolhido na vida feito pássaro molhado, temendo notícias de fome, como na época em q as cidades viviam inchadas de carros e gente.
Nós éramos dessa argila? Li uma reportagem q dizia q viemos da vespa-oleira. Fui saber. Vi q éramos gerados por narrativas. N viemos da vespa-oleira, e sim das narrativas. Criopersonagem era a voz q td sabia e em td interferia; ele alterou nossa língua, mudou nosso caminho.
N queria nunca mais voltar à cidade. Preferia distanciar-se dela. Era isso, Sr. Criopersonagem? A materialidade de plátho moldou phersu. Só éramos seus personagens e nada mais. Era isso? esperou q uma resposta lhe surgisse diante do espelho. Éramos argila em suas mãos.
Viver em ruas e becos de Caseína n era fácil pra Ninguém. O desejo era spre díspar. E se esse narrador q nos criou n existisse? E se o se fosse apenas um mero se? Fomos levados a acreditar no crível, qdo nem o crível era crível. Eu mostrei isso a mim e vi a imagem díspar do criador da realidade em Caseína. Sou o criador dessas narrativas, ele disse, ou elas me faziam acreditar no q eu n deveria crer. Criopersonagem existia em Caseína ou só entre as linhas de qm queria acreditar?
Prevento, ao descobrir, concentrava as forças pra escapar.
Caluda, ao saber o q soube, acelerou sua revolta. Poderia ser feliz com Prevento se isso aprouvesse ao criador das narrativas. Ela dizia-se prisioneira das narrativas, ao sabor delas. Ao seu bel-prazer fazia o criador o q os criadores, quão birutas de aeroporto, costumavam fazer.
Aproximavam-se os passos de Prevento.
Caluda reconheceu a onomatopeia q os sapatos bico chato faziam. Seu coração só acelerava, acelerado a ponto de explodir:
Ele vai passar por mim e n terá a decência de falar um olá nem bom dia ou como vai.
Prevento parou diante de Caluda e cruzou os braços.
Caluda, com as mãos cheias de papéis em busca de assinaturas, abraçou a resma com força descomunal, q desconhecia possuí-la.
Os olhos dele se fixaram aos dela.
Ela esboçou um sorriso q se aproximava da capa de uma revista impressa em papel à moda daqlas publicadas no milênio q passou. 
Criogenia! ele disse.
Criogenia? ela repetiu por n o entender.
Somos criopersonagens, Calu.
Cri... cri... crio o q... Pré?
Prefiro qdo me chama de Vento.
Vento?
Vento.
Crio o q, Vento?
Criopersonagens, Calu. N existia vampiro. Nós tb n existíamos. Eram só narrativas.
Narrativas?!
Narrativas.
Talvez, Vento, n existimos na palavra e ainda assim morríamos no ponto à espera do busão q nos levasse à firma. 
Enqto Prevento falava, Caluda afastava-se dele como se visse o próprio vampiro. Se n fosse a parede às costas, as folhas, os papéis ao peito, a resma, ela continuaria se afastando. Mesmo impedida pela parede, Caluda pressionou o corpo contra ela até mudar de cor.
Levemente, Prevento tocou no ombro dela e tirou um fio de cabelo sobre a blusa.
Isso era o q?
Um fio, q lembrava Ariadne.
Ari o q?
Nada. N era nada. Éramos criopersonagens e n gente de vdd. Mesmo pq a vdd foi substituída pela mentira há mais ou menos o tempo do vampiro.
O narrador mostrava e n contava uma realidade instantânea, era como se n quisesse narrar. Prevento por quase três anos sem sair da cama, na residência da Genitora, dps q foi caluniado, denunciado, demitido da firma; e chegou à casa da Cônjuge com as contas atrasadas, sem garantia pra honrar os compromissos, foi expulso a pontapé.
E a Genitora presa à cadeira de rodas, disse Fedra, teve q cuidar dele?
Por quase três anos! repetiu Caluda.
Mas Prevento voltou à firma.
Só pq o chefe viajou fora do combinado, como se falava naqle milênio, ele pôde voltar.
Prevento n tava exagerando, Calu?
Fé, n sei como ele descobriu. Mas descobriu um narrador q manipulava a gente, como se n existisse existindo.
Ino e Medeia participavam do assunto, mas se preservavam com tds as aspas.
Se a gente n existisse, Calu, n existiria tb o vampiro nos bancos do busão!
Prevento contou-lhe:
Descobri por causa da retórica do cotidiano. Li os textos atemporais.
Calu observava-o.
Falando, continuou Prevento, sobre a condição humana em Caseína. Este lugar foi inventado.
N creio! disse Ino. Pq se fosse inventado, eu tb seria.
Os deuses, semideuses, heróis, semi-heróis surgiriam em Caseína como metáforas.
Fedra encheu o copo até derramar o café.
E n passávamos de invenções dessa narração, q narrava ações fictícias?
Sim. E com personagens, nesse tempo e espaço em Caseína, inventados pela voz q dominava tds nós. Os nós dos dedos e das cordas. E partindo de nós, a voz seguia narrando ações fictícias, com personagens fictícios.
E pra q existimos, narrador mostrava mais do q contava o q de qm narrava no enredo encadeando acontecimentos, acelerando os personagens.
Se fôssemos fictícios...!
N “fôssemos.” Éramos.
Se éramos...!
N “éramos.” Somos.
Se somos... N vai interromper?
Td o q existe, Fé, afeta o q existe.

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