Como eu poderia esquecer aquela fábrica? Como explicar os motivos escondidos que o inconsciente insiste em transbordar emoções de momentos vividos ao longo da existência?
Nos anos setenta morávamos na Rua Nossa Senhora de Lourdes em Santana do Ipanema. Nessa mesma rua morava também Seu Jaime Costa, cujo ambiente familiar eu frequentava e tinha afinidade com os meninos; Jaime Jr, Marcelo e Marconi. Com frequência, estávamos juntos em aventuras nos Sítios Quixabeira Amargosa e Remetedeira. Ainda sinto o cheiro de rapadura guardada no bornal. Nessa época, Seu Jaime e Seu Zé Costa, seu irmão, vulgo Zé Torreiro, tinham uma fábrica de móveis que ocupava praticamente o quarteirão inteiro ao final da Rua Nossa Senhora Fátima no sentido da praça do jumento.
Nos imensos salões tinham várias máquinas de serrar e moldar madeiras espalhadas por todos os lados. O barulho ensurdecedor era frequente pela ação de corte de madeira para produção de móveis. Não me lembro com detalhes quais os tipos de móveis eram produzidos. Recordo-me com clareza da fabricação de camas, somente. O que a gente queria mesmo era produzir nossos brinquedos. Íamos de um lado a outro recolhendo as sobras de madeira para fazer nossos carros. As rodas eram feitas com restos de sandálias havaianas e também de restos de madeira. A suspensão dianteira e trazeira a gente fazia com os refugos de fitas de aço de embalar e amarrar caixotes que eram comuns naquele tempo.
A fábrica era composta de galpões imensos em vários níveis. Grandes janelas deixavam a luz natural invadir o ambiente. O barulho das máquinas serrando madeira era frequente. O cheiro de madeira cortada e polida invadia o ar. Os martelos não paravam. O Alarido e burburinho de muita gente trabalhando nos deixavam azoados. Aos poucos, como num espetáculo de encantamento, tudo ganhava forma e cor pelas mãos dos marceneiros.
Ali tivemos a satisfação de construir muitos brinquedos de madeira, entre eles diversos modelos de caminhões e carros de passeio, incluindo carrinhos e patinetes de rolimãs que eram odiados pelos moradores porque estragavam as calçadas de cimento e faziam um barulho aborrecedor. Seu Costinha, como comissário de menores, vivia à espreita nos amedrontando, perseguindo e atormentando para tomar nossos carros.
De repente, sem que percebêssemos, crescemos. Não houve outro jeito. O avanço da modernidade trouxe brinquedos industrializados que mudaram os frágeis desejos dos meninos. Fazer, agora, era muito trabalho. A criatividade foi sufocada pela facilidade. Melhor comprar pronto no armarinho de Eluzia e Dona Socorro Marques, pois o cheiro dos armarinhos fascinavam os sentidos dos adolescentes.
E eis que os tempos mudaram. As máquinas foram silenciando e retiradas uma a uma. Árvores mortas foram recolhidas. As pessoas foram saindo. Artesãos e marceneiros silenciosos e cabisbaixos se retiraram, desceram a ladeira e não mais voltaram. Os salões solitários e vazios ficaram mal-assombrados. Ficamos sérios e os caminhos mudaram de itinerário. Agora não mais construímos carros, andamos neles. Contudo, espera: nos jazigos da memória ainda encontro a fábrica de sonhos que permanece intacta e meu pedaço menino de vez em quando aparece me fazendo surpresas.
Inverno de 2015
A FÁBRICA DE SONHOS
ContosJoão Neto Felix Mendes 29/06/2015 - 00h 18min
Carro do rolimã
Comentários