PEQUENO PASSEIO AO PAÍS DAS COINCIDÊNCIAS

Crônicas

José Peixoto Noya

No início da década de noventa do século passado, saímos — Mindinho, Paulo Dionísio e eu —, para um “passeiozinho” de 14 mil quilômetros em direção a diversos estados do nosso Brasil. Partimos de Santana do Ipanema (AL), atravessamos o Rio São Francisco em direção ao Estado de Sergipe. Em seguida entramos na Bahia, onde fomos dormir na fronteiriça e distante Barreiras.

No dia seguinte estávamos no Estado de Goiás; depois visitamos Brasília, Mato Grosso e, finalmente, chegamos a Rondônia. Em Porto Velho procuramos um hotel para o pernoite. Já alojados, fomos dar uma volta na “night”, que ninguém é de ferro. Queríamos um local que tivesse boa comida e, principalmente, bebidas, de preferência umas “friinhas”. Encontramos um restaurante com música ao vivo e tudo mais. Abancamo-nos. Logo apareceu um garçom solícito e fizemos nosso pedido.

Em um canto do salão, um cantor interpretava umas “cavernosas” e aproveitamos para fazer alguns pedidos de canções da época de “Peixotinho” e “Maneco”. O cantor ficou curioso e perguntou de onde éramos. Respondemos e ele nos cumprimentou e, no microfone, anunciou que éramos de Alagoas em visita àquela capital.

No outro dia partimos para Guajará Mirim, que fica às margens do Rio Mamoré, que dá acesso à Bolívia. No dia seguinte, alugamos um barco a motor e partimos em direção a aquele País. Chegamos ao outro lado, numa cidade com o mesmo nome: Guajará Mirim. Fomos conhecê-la em um carro alugado. Em menos de cinco minutos havíamos dado umas três voltas.

O motorista nos indicou um restaurante, pois já era hora do almoço. Chegamos lá, nos instalamos e, como primeira providência, pedimos uma cerveja boliviana, ruim que dava gosto; mas não ficou uma só garrafa cheia. Pegamos o cardápio e fomos procurar uma comida conhecida. Nada vimos. O leitor sabe que a língua espanhola é parecida com o nosso português, mas, em matéria de comida, mesmo no Brasil, um prato recebe nomes diferentes em diversas regiões, calcule em espanhol!

Eureca! Achamos uma solução brilhante: vamos pedir o prato mais caro! Dito e feito: fizemos o pedido daquela comida mais cara e ficamos esperando para ver o que seria, sem pararmos de ingerir a cervejinha ruim de lá.

Logo veio o solicitado. O garçom chegou com uma daquelas mini churrasqueiras aquecidas com álcool, só que lá era movida a carvão, com direito a fumaça e tudo mais. Olhamos para a vítima e achamos parecido com alguma coisa lá do nordeste. Estudamos tudo bem direitinho e grande foi nossa surpresa. Adivinhem! Era bofe, tripa de boi e rejeito, tudo assado.

Olhamos uns para os outros, levantamos os ombros e fizemos nossa alimentação. Ao término eu disse: “é dose pra elefante! Viajar 6 mil quilômetros para comer o que não falta em nossa terra...” Fazer o que? Pagamos e voltamos de barco para o Brasil.

De volta, partimos para Porto Velho para deixar o Múcio, irmão de Mindinho, que lá reside. Depois partimos em direção ao Mato Grosso. Dormimos em uma cidade de nome Cáceres. Pernoitamos, pela manhã tomamos um café, comum — é bom que se diga — e seguimos viagem.

No meio do mato — e como tem mato — Mindinho pediu para parar o carro pois estava sentindo algum desarranjo intestinal e, queria procurar uma “moita” ali mesmo. Olhei para frente e avistei um posto de combustível e, vizinho, um restaurante. Disse pra ele: segurar um pouco e fomos para o restaurante.

Em lá chegando ele partiu em direção ao sanitário e, nós, ao bar. É bom lembrar que naquela época não era proibido beber e depois dirigir. Aproximamo-nos da "mina” e nos dirigimos ao balcão onde fomos recebidos pela proprietária, uma senhora que estava grávida. Pedimos o óbvio, prontamente atendidos. Mindinho chegou e entrou na farra.

Depois de algum tempo a proprietária olhou pra gente e perguntou:

— Os senhores são nordestinos?

Respondemos que sim.

— De onde?

— De Alagoas.

Ela abriu a boca e fez Huummm, e calou-se. Achamos estranho, mas, em terra desconhecida não é bom dizer nada. Nos calamos e continuamos a nossa “luta”.

Chegada a hora de partir pedimos a conta e pagamos. Resolvi perguntar por que ela fez aquele gesto. Ela respondeu:

— Sou casada com um alagoano e, ele me deixou grávida de 9 meses e este menino de 4 anos, dizendo que ia para o garimpo no Acre.

Arrisquei outra pergunta:

— De onde é seu esposo?

— De Santana do Ipanema, mora na Camoxinga dos Teodósios.

Não deu para dizer mais nada. Apenas “nós somos de lá”.

Calada ela estava, calada ficou. Fomos embora, não sem comentarmos: “Viajamos 9 mil quilômetros para encontrar uma senhora vítima de um santanense!” e seguimos na nossa viagem de retorno.

É bom salientar que Paulo Dionísio dirigiu o veículo nos 14 mil quilômetros de viagem. Ofereci-me uma vez para pilotar, e ele disse:

— Deixe dar sono!

Então estiquei-me no banco traseiro, coloquei os óculos no piso do veículo e fui dormir. Em determinado momento ele me chamou e eu, ainda meio sonolento, me sentei. A primeira providência, sem querer, é lógico, foi pisar nos óculos. Pronto! Ele teria que dirigir até o final, pois já estávamos na última etapa da viagem. Conseguimos chegar. Antes, contudo, comentamos muito sobre tantas coincidências.

Ah, ia me esquecendo! Chegamos certa a vez numa cidadezinha, não me recordo o nome, lá em Rondônia. Todas as vezes que eu chegava a um lugar ía aos correios colocar um cartão para casa. Ali, quando saimos daquela repartição, encontramos um cidadão arrodeando o veículo. Perguntei:

— Quer comprar?

Ele, meio que espantado, disse:

— Desculpe-me! Sou um engenheiro que trabalha aqui, mas sou de Maceió!

Conversamos um pouco e depois nos despedimos.

Em uma cidade de nome Presidente Médice, em Rondônia, chegamos a uma praça. Era quase 18 horas, mas ainda claro. Paramos para tentar falar com alguém e solicitar o endereço de um hotel.

Enquanto esperávamos, um grupo de mocinhas passou a olhar para nosso automóvel com ares de curiosidade, pois a placa era de Alagoas. Dissemos: “estamos abafando vamos descer!”. Quando fizemos isto, ouvimos um comentário bem alto:”Gente, é um bando de “véios”. Pense numa frustação!...

Bem esta foi a epopéia que vivemos neste “pequeno” passeio...

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