O HOMEM QUE SENTIA DOR DE DENTE

Crônicas

Remi Bastos

Igrejinha das Tocaias, citada por Remi Bastos nessa crônica. Imagem feita pelo Barão da Ribeira do Panema (José Peixoto Noya) em 17.06.2015.

Se existe uma coisa que incomoda muito as pessoas, é a dor de dente. Eu, por exemplo, tenho poucas lembranças deste mal que afeta a polpa dentária. No entanto, há indivíduos que raramente sofrem de pulpite, em contrapartida com aqueles que sempre estão reclamando da dor de dente. O meu pai era uma pessoa que sofria desse desconforto físico, que no linguajar do sertanejo, soa como “dente cariado”. Vez por outra, quando mastigava algo sólido sobre o dente inimigo ou bebia quente ou gelado, inesperadamente, o sinal da dor era assinalado pela expressão: “Eita dor da gota serena! Vou arrancar este peste com alicate”. E somente aliviava depois que uma de minhas irmãs aplicava o famoso “guaiacol”. Eu conheci um caboclo santanense que residiu por muitos anos no Povoado “Tocáias”, em que os dentes frontais eram reduzidos a metade pela cárie, e apenas, conforme dizia, equilibrava os alimentos em dois caquinhos situados nos queixais, inferior e superior. Quando a mastigação do alimento sofria algum desvio da rota, a dor era tão forte que o caboclo se mandava de mato à dentro bochechando água morna, com uma das mãos apoiando o queixo e invocando em pensamento o “valei-me meu Padrinho Ciço”. Essas ocorrências eram tão frequentes que o destemido caboclo, em 1948, portanto, 67 anos atrás, fez uma promessa, para se ver livre da dores de dente, construindo uma igrejinha na estrada que limita Santana a este povoado. Quem passa por ali observa a igrejinha guardando a estrada, sempre mantida na sua originalidade, e de fato vai ouvir a história do Homem que sentia dor de dente.

Aracaju(SE), 17.06.2015.

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