Se existe uma coisa que incomoda muito as pessoas, é a dor de dente. Eu, por exemplo, tenho poucas lembranças deste mal que afeta a polpa dentária. No entanto, há indivíduos que raramente sofrem de pulpite, em contrapartida com aqueles que sempre estão reclamando da dor de dente. O meu pai era uma pessoa que sofria desse desconforto físico, que no linguajar do sertanejo, soa como “dente cariado”. Vez por outra, quando mastigava algo sólido sobre o dente inimigo ou bebia quente ou gelado, inesperadamente, o sinal da dor era assinalado pela expressão: “Eita dor da gota serena! Vou arrancar este peste com alicate”. E somente aliviava depois que uma de minhas irmãs aplicava o famoso “guaiacol”. Eu conheci um caboclo santanense que residiu por muitos anos no Povoado “Tocáias”, em que os dentes frontais eram reduzidos a metade pela cárie, e apenas, conforme dizia, equilibrava os alimentos em dois caquinhos situados nos queixais, inferior e superior. Quando a mastigação do alimento sofria algum desvio da rota, a dor era tão forte que o caboclo se mandava de mato à dentro bochechando água morna, com uma das mãos apoiando o queixo e invocando em pensamento o “valei-me meu Padrinho Ciço”. Essas ocorrências eram tão frequentes que o destemido caboclo, em 1948, portanto, 67 anos atrás, fez uma promessa, para se ver livre da dores de dente, construindo uma igrejinha na estrada que limita Santana a este povoado. Quem passa por ali observa a igrejinha guardando a estrada, sempre mantida na sua originalidade, e de fato vai ouvir a história do Homem que sentia dor de dente.
Aracaju(SE), 17.06.2015.
O HOMEM QUE SENTIA DOR DE DENTE
CrônicasRemi Bastos 21/06/2015 - 11h 05min
Igrejinha das Tocaias, citada por Remi Bastos nessa crônica. Imagem feita pelo Barão da Ribeira do Panema (José Peixoto Noya) em 17.06.2015.
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