Em Maceió, morávamos numa pensão situada na esquina da Rua Moreira Lima com a Rua João Pessoa (antiga Rua do Sol). Nosso quarto era bem espaçoso, tanto que no mesmo ambiente vivámos eu, meu irmão Nestor, Mareval Limeira, Luiz Cirilo e Zequinha da “Caiçara”; ainda sobrava uma cama que permanecia por muito tempo desocupada, pois só era utilizada quando chegava algum hóspede novo.
A pensão era de uma miserabilidade tremenda. Os banheiros sujos, não tinha desarranjo intestinal que desse vontade de ali permanecer por muito tempo; quando isso ocorria era um tal de faltar ar nos pulmões, pois tínhamos de tapar o nariz até o final do “sacrifício”. Tomar banho somente se podia calçado com as antigas sandálias “Havaianas”, pois era de um lodo que dava gosto, chegando a deslizar... A boia, Ave Maria! Era “um Deus nos acuda” de tão ruim. O pior (ou melhor?!) é que era pouca. O proprietário – Seu José - , que Mareval apelidou de “Vassalo” porque o sujeito tinha um mau humor “de fazer gosto”. Ainda por cima, era canguinha. Para que se tenha uma ideia da arquitetura, o prédio tinha dois andares. Entre o 1º e o último, havia uma escada de madeira (aliás, todo o piso era de madeira). Quando cheguei para me hospedar pela primeira vez me deparei com um verso Fescenino que revelava o meu futuro. Era assim:
“Adeus pensão da fome,
nunca mais eu venho em tu,
criei ferrugem nos dentes,
e teia de aranha no cú”,
é ou não é uma verdadeira obra de arte meu caro leitor(a)?...Certo dia chegou um hóspede novo: era um caboclo moreno, cabelos colados na base da brilhantina, conversador. Tinha um motivo, como depois viemos a saber: ele era camelô. Vendia nas feiras ou de porta em porta. Trouxe uma mala bastante grande, feita de couro e pesada pra burro.
“Piaui” – é assim que o chamávamos, pois o mesmo era oriundo da capital piauiense -, era bom sujeito. Todos os dias ele apanhava um saco e colocava sua muamba par ir à batalha. Voltava no final da tarde com o saco vazio. Foi assim por quase 30 dias. Foi quando chegou a hora do acerto de contas. Então, o caboclo sumiu mas deixou a mala de couro. O “Vassalo” ia lá, puxava a mala, tentava suspender, nada conseguia. Era muito pesada.
Após uma semana, o proprietário perdeu a paciência e resolveu colocar os pratos a limpo. Apanhou um alicate, forçou a fechadura e conseguiu seu intento. Mas uma surpresa desagradável o aguardava: “Piauí-”, aproveitando que o assoalho era de madeira, pregou, com quatro pregos, grandes, a mala vazia ao piso, e se mandou.
Seu José até hoje espera o Piauí retornar para apanhar a sua mala e seus quatro pregos!...
até a minha saída daquele estabelecimento, sem ter a mínima vontade, o Piauí não havia retornado...
PENSÃO DO VASSALO
CrônicasPor José Peixoto Noya 01/12/2014 - 01h 00min
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