"A DOR DA GENTE NÃO SAI NO JORNAL"

Crônicas

Por Goretti Brandão

O que pode estar encoberto em um crime passional?

Pois é... Aí está a pura verdade. Vivemos o tempo da espetacularização dos fatos e da notícia. Um homem pratica um crime passional e o acontecimento se transforma num celeiro propício para especulações, opiniões e piadas de mau gosto ou senão, o próprio comentário da população que, pega de surpresa, está estarrecida com o caso. A mídia se apropria do fato e o desdobra, (dependendo das pessoas envolvidas), o máximo que pode. O drama alheio imediatamente mercadorizado é exposto à venda. A notícia vende a dor humana na superficialidade e na horizontalidade dos fatos. A verticalidade, desempenhando simbolicamente, uma reta como uma sonda exploradora do ato cometido, não interessa a ninguém.

Com isso é criada uma idéia de realidade única e inquestionável: aquela na qual o indivíduo, com sua atitude eticamente desumana, revela-se incapaz de aceitar que perdeu o seu objeto de posse, prazer e amor. Quem sabe? A questão é que crimes dessa natureza trazem à tona, sempre, um posicionamento unilateralizado, onde a pessoa é apresentada como alguém que sofre da incapacidade de abrir mão daquilo que achava que possuía. É um egoísta. Fica de lado, por exemplo, a questão cultural, machista, que cria e alimenta atitudes dessa natureza, quando se trata dessas situações. Isso não se coloca como um aspecto da realidade. Fica de fora, ainda, dependendo do fato, é claro, o significado do ser traído, enquanto dor e experiência pessoal.

Longe de mim fazer apologia ao crime passional ou qualquer crime, de qualquer natureza, mas questiono o porquê dos conceitos que rotulam os indivíduos sempre da mesma forma, como se fôssemos máquinas, com defeitos previsíveis e antecipedamente nomeáveis. Alguém faz um comentário sobre uma notícia dessas, dizendo que essa indumentária, a simbólica ponta, dói. Diz de gozação, mas consegue de alguma maneira, envergar a linha horizontal do acontecimento e sugerir um mergulho na origem da dor. Está para além das verdades morais que norteiam as pessoas e suas atitudes no mundo contemporâneo, os motivos que levam alguém a cometer atos dessa natureza.

O que origina essa dor? A cultura machista? O amor-próprio esfacelado? A rejeição por parte do outro? A incapacidade ou deficiência de encontrar um sentido de viver sem a pessoa do outro? A dependência? O orgulho?

Todo dia lê-se nos jornais, assiste-se pela televisão, notícias de crimes passionais. Esse fato é antigo, encontra-se na literatura grega, nos mitos, na história coletiva da humanidade. Mas a mídia consegue espetacularizar, pintar com cores ainda mais sangrentas, mover a opinião pública, dizer que as pessoas estão horrorizadas com o drama existente e com as vítimas. A coisa não sai daí; da dramatização do fato. E a dor? A dor de quem quer que esteja envolvido nisso? Os motivos subjetivos, psicológicos, inconscientes, que levaram ao desfecho do ato?
É como bem diz Chico Buarque: “ a dor da gente não sai no jornal”

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