Uma questão de cor?
Percorri os jornais on-line essa manhã. Quis ver o que eles dizem sobre o dia de hoje. Entenda-se, o Dia da Consciência Negra. Dizem a mesma coisa de sempre, com algumas quase sempre insignificantes informações, dado a complexidade do assunto. Há poucos dias assisti uma entrevista que a jornalista Goretti Lima (TV Assembléia) fez com a Arísia Barros (representante do movimento negro na Coordenação Organizadora Estadual e Projeto Raízes de Áfricas da Ong Maria Mariá de Alagoas)., sobre questões que me remetem a inúmeras cogitações. É que tenho a certeza de que o índio, o branco e o negro estão em mim.
O meu bisavô era negro, trabalhador, dono de uma próspera casa de comércio em Pão de Açúcar. Conseguiu comprar um título de coronel: Coronel José Serafim dos Santos. Só atendia seus clientes no balcão, se assim fosse chamado. Devia entender que para se ter respeito no mundo estabelecido dos brancos, ele, negro, precisava de um título. Abro um velho álbum de família, e lá está ele, impávido, de pé, dentro de um paletó, emoldurando a cadeira onde a sua filha mais velha, minha tia-avó, Laura Borges, negra, está sentada, também altiva, com o seu vestido à moda da elite branca da época.
Percebo a condição do negro nesse país e no mundo, sua luta para manter a sua identidade, sua trajetória histórica enquanto povo. Prefiro usar a palavra povo, muito mais do que raça, por entender que dentro desse contexto, a palavra carrega o peso da discriminação do humano, a partir do preconceito de cor. Gente é gente, embora na prática, a cor negra seja a condição primeva, a que de imediato se estabelece, creio, para a sua exclusão à pessoa.
Não me aventuro em aprofundar questões, porque correria o risco de me perder nelas. Mas sei que as características genéticas do negro são constantemente perseguidas e o que é pior, negadas. Trago esse exemplo da minha observação à vida cotidiana e o reforço da própria fala de Arísia, quando coloca em cheque o conceito do que é cabelo ruim e cabelo bom. Quem determina que o cabelo bom e bonito é o cabelo liso? Isso prova que a dominação de um povo sobre outro é determinante para esse sentido, entre outros, de que quem dá as regras, dita os conceitos e estabelece os valores (religiosos, culturais...) são os que estão no comando. Nenhuma novidade!
Intrigante é que minha mãe, neta de um homem negro e de uma mestiça, nasceu branca. De nariz afilado e tudo. E aí? Quem somos nós? Se partirmos do pressuposto do conceito de raça, do preconceito, da discriminação, posso me atrever a perguntar: Quem somos nós, afinal? A que raça pertencemos? Não será pretensão demais definirmo-nos como isso ou aquilo? Portanto: Salve os orixás, os afoxés, o candomblé, o acarajé, o bobó de camarão, a moça preta do Curuzu. Salve os atabaques, a capoeira. Salve a identidade negra e os que lutam para preservá-la.
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