NO TEMPO DOS COMBOIOS – CAUSOS DE SEU ZECA

Crônicas

Luiz Antonio de Farias - Capiá

Por conta da situação geográfica, Santana do Ipanema foi, desde os primórdios, a cidade mais importante do sertão alagoano, nada obstante ter tido reduzida, ao longo de sua história, sua extensão territorial em cerca de 85%, com o desmembramento dos municípios de Carneiros/86 km2, Dois Riachos/142 km2, parte de Major Izidoro, Maravilha/346 km2, Olho D”água das Flores/155 km2, Olivença/204 km2, Ouro Branco/159 km2, Poço das Trincheiras/443 km2 e Senador Rui Palmeira/240 km2, ficando, em conseqüência, com uma área de apenas 310 km2 . Mesmo assim ela continua, até os dias de hoje, se destacando como centro supridor de toda região sertaneja.
Na época em que não existiam rodovias, os gêneros de primeira necessidade que não eram produzidos no município, tais como sal, açúcar, charque, bacalhau, tecidos, produtos manufaturados, etc., vinham de Penedo para Pão de Açúcar através de embarcação, pelo Rio São Francisco, e de lá prá cá por meio de dezenas de carros de boi. Era uma travessia extenuante e, ao mesmo tempo, divertida, segundo os carreiros de então. O comboio varava o sertão, chovesse ou fizesse sol, ao som dolente do atrito dos cocãos com o eixo do carro. Era uma verdadeira aventura.
Como é normal acontecer em qualquer comitiva, os participantes tendem a agir de formas diversas, compreensível até pela heterogeneidade de personalidades. No trajeto dos 50 quilômetros que separam as cidades de Santana do Ipanema e Pão de Açúcar, a jornada diária era iniciada pelas 04:00 horas da manhã, depois de um breve repasto. Por volta do meio dia, havia a primeira parada para o almoço do pessoal, como também para alimentação dos animais. No começo da noite paravam novamente, para o descanso merecido. Existia um componente no grupo que, invariavelmente, na hora do rancho, se afastava e ficava gongorando, com o ar de “quem não queria nada e querendo”. Normalmente ele não costumava carregar a bóia. Contudo, sempre havia uma alma boa para lhe oferecer um pouco de comida. A princípio ele rejeitava, mas acabava aceitando. O pessoal se aborrecia, por ser ele um dos mais potentados da turma.
Em determinada ocasião, o pessoal resolveu “pregar uma peça” no sovina. Pela manhã foi feito prá ele um café bem ralo e com muito açúcar. O “unha de fome” tomou todo conteúdo da caneca, depois olhou de soslaio e “detonou”:
- “café prá mim só fraco e doce!” Na refeição seguinte, foi preparado um café bem forte, parecendo um “cabaú”, e sem um grão de açúcar. O avaro companheiro, depois de sorver todo líquido, deu uma olhada geral e disparou: - “esse cafezinho d’agora tá na marquinha que eu gosto. Depois dessa “tirada” do astuto parceiro, o grupo se deu por vencido. Numa dessas viagens o carreiro astucioso conseguiu um frete para Águas Belas. Aproximava-se a noite quando ele chegou defronte de uma fazenda e procurou saber se poderia pernoitar debaixo de um frondoso trapiazeiro existente no pátio. O proprietário, após um breve interrogatório, acomodou o forasteiro em sua própria casa, ofereceu-lhe um reforçado café e ainda recomendou um dos moradores a cortar palma para os animais. Depois dessa calorosa acolhida, qualquer carreto para Águas Belas o desditoso fazia questão de pegar, já contando com a hospitalidade do bondoso fazendeiro. Em todas as oportunidades, o “vivaldino” se prontificava em receber o anfitrião em sua casa, quando ele se deslocasse pras bandas de Santana. Num domingo o cidadão selou o cavalo e se dirigiu à fazenda do pseudo-amigo, com a finalidade de pagar a visita. Em lá chegando, por volta do meio-dia, foi recebido da seguinte forma:
- Tudo bem, amigo, para onde vai nessa “pisada”?
- Vim até aqui visitá-lo, respondeu. - Que bom! Se você tivesse chegado um pouco mais cedo, tinha almoçado com a gente, retrucou. Mas não se preocupe que tem um melzinho de abelha com farinha. Antes de terminar a frase a esposa do covarde anfitrião gritou da cozinha:
- marido, se ele estiver suado, mel com farinha é veneno puro.
O visitante deu meia volta e daí por diante o muquirana perdeu a “boquinha” para sempre.


Recife – setembro/2009

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