QUASE PERFEITO

Contos

Plácido Nunes, Isabel Santos e Ronaldo Moura

Tarde comum, monótona e quase sem graça. Internet. Bate-papo. Nasce Letícia, órfã de pai e mãe. Arquiteta, bem sucedida, 30 anos. Iria morrer em breve. Teria um dia para ser amada. Poucas horas. Jamais seria heroína. Talvez, tivesse que perder o sapatinho de cristal antes da meia noite.
- Oi!
- Oi!
- Quantos anos você tem?
- 30 anos. E vc?
- 24!
- Tecla de onde?
- Leblon. E vc?
- Copacabana.
- Faz o q da vida?
- Sou vendedor de livros.
- Q bom! Vou escrever a sua estória!
Ambos riem.
- Queria ver vc! Pode C?
Letícia envia uma foto de uma amiga mais velha por adoção.
Pausa. Silêncio. As teclas param de agitar-se.
- Ñ gostou?
- Gostei.
- Acho q ñ. Demorou muito pra responder! Vou mandar + 1.
Letícia envia outra foto, mas a de uma amiga muito bela. As coisas tomam rumo.
- Queria ver vc de verdade!
- + essa sou eu! Sou sincera!
- Huuuum!
- Não gosto de hum... Soa irônico!
- Desculpe, minha linda!
A conversa se prolonga até que não há mais como ir adiante. As virtualidades exigem o real. Letícia se suicida. Rodrigo tenta se conformar com a justificativa inerte de que nada é para sempre. O amor é o veneno das expectativas. A lan-house encerra o expediente. A vida segue... Desconexa.
Isadora e André riem. Fizeram alguém feliz por um momento. Todos nós sonhamos com a pessoa ideal. Rodrigo, agora viúvo, compreende o valor da inquietude do coração. Vez ou outra, ele visita os seus amigos. Escreveram o destino sem teclas, mouse ou tela.

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