UM CERTO CAPITÃO GUEDES

Histórias Engraçadas

Luiz Antônio de Farias, Capiá

Santana sempre foi pródiga na formação de excelentes jogadores de futebol. Infelizmente eles nunca passaram de “promessas” porque em épocas passadas não havia o intercâmbio futebolístico que se observa nos dias atuais (campeonatos nacionais, Copa do Brasil, interiorização do futebol nos estados, etc.) nem, tampouco, a divulgação televisiva que existe atualmente. As atrações ficavam nos grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, cujas notícias chegavam até nós através do rádio.
Posso citar, arriscando cometer muitas injustiças, diversos atletas que nos dias atuais certamente estariam brilhando no cenário nacional e, por não dizer, internacional. Dentre eles Denancy pode ser considerado o maior, sem dúvida. Mas também podemos incluir na lista meu irmão Jota, que na época áurea do glorioso Ipanema Atlético Clube foi considerado o garoto-revelação, segundo o correspondente esportivo da Gazeta de Alagoas, Eraldo Bulhões. Em seguida veio a nova safra formada na valorosa Associação Atlética Ipiranga. Os irmãos Cirilo (Manoel, Erasmo e Tião), Zé Carneiro, Audálio, Toninho Biongo, Toninho (irmão de Lata D’água), Bibi, Zé Roberto, etc. Este rabiscador também fez parte dessa geração, mas nunca passou de um “boleiro” de limitados recursos.
Na época da chegada definitiva de nossa família em Santana, nos idos de março de 1957, a Circunscrição de Recrutamento, para o alistamento militar, era chefiada pelo Tenente Guedes (hoje reformado no posto de capitão). De cor negra, ele costumava se dirigir às pessoas de forma educada, utilizando um português escorreito e incomum. Casado com D. Aparecida Malta, tiveram vários filhos. Todos bons de bola. Gladstone, o mais velho, jogou no Coritiba Futebol Clube. Zé Roberto brilhou no Clube de Regatas Brasil e só não foi mais além por conta da sua morte prematura em um acidente automobilístico.
Antes do avanço tecnológico da informação, para encurtar a distância entre os grandes centros e as cidades interioranas existiu a figura do viajante que se tratava de um representante comercial itinerante, que servia de ponte entre os fabricantes dos produtos e os revendedores. Lembro-me de que havia um desses “nômades” chamado Rangel, que após sua reforma como oficial do exercito, decidiu ingressar na carreira de viajante, Vez por outra ele aparecia em Santana pra vender “seu peixe”. Por conta de ser uma pessoa muito comunicativa, fez amizade com várias pessoas de destaque de nossa terra, principalmente com meu inesquecível amigo Darras Noya. Eram assíduos fregueses do bar de João Salgado e Dona Fia, como também do bar do Tênis Clube Santanense, explorado por Miguel da Barriguda.
Determinado dia estava Rangel e Darras tomando “umas e outras” no Tênis quando de repente chega ao local o Tenente Guedes. Aproximou-se da mesa, cumprimentou os presentes com sua costumeira fidalguia, quando o Rangel, sabendo de quem se tratava, convidou-o para tomar um drinque. O oficial, por sua vez, rejeitou o convite com a seguinte frase:
- agradeço a cortesia, mas não posso aceitá-la porque sou abstêmio.
O viajante rebateu, imediatamente:
- pode até ser verdade, mas pinto que come merda a gente conhece pelo bico.
O Tenente demonstrando um semblante de afrontado, franziu a testa e antes que
ele tomasse qualquer atitude Darras o interrompeu, da seguinte forma:
- calma, Tenente, Rangel é um amigo nosso e oficial do exército como você.
Daí em diante os dois tornaram-se grandes amigos.

Recife-PE - Março/2007

História publicada em 02/04/2007

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