O GALO QUE VIROU FRANGO

Histórias Engraçadas

Luiz Antônio de Farias, Capiá

Conheço Chico Medeiros desde a nossa mais tenra idade, quando estudamos o curso primário no legendário Grupo Escolar Padre Francisco Correia, o grande casarão que foi palco dos primeiros passos do aprendizado de grandes e ilustres filhos de Santana.
Por conta de seu espírito aventureiro, ele navegou em muitas paragens e não seguiu os passos dos demais filhos de “seu” Manoel Medeiros, conceituados fazendeiros de nossa região. Foi integrante da briosa Polícia Militar de
Alagoas e prestou serviço no Banco do Brasil de Santana no posto de vigilante da Transforte Norte. Nas horas vagas consertava relógios e “fazia rolo” com objetos de pouca monta, para garantir o sustento da família. Na época de
soldado foi designado para destacar em uma área de Maceió, caracterizada como um antro de violência, denominada como a favela da Bigorna da Levada. Determinada ocasião ele estava em serviço, quando a proprietária de uma birosca correu em sua direção e, bastante aflita, fez a seguinte abordagem:
- “seu” praça me socorra, pelo amor de Deus, que tem um marginal quebrando tudo na minha barraca. O militar se dirigiu ao local, aproximou-se do exaltado freguês e lhe deu voz de prisão. O meliante, por sua vez, acenou que um soldado daquela qualidade era pouco para levá-lo preso. O Chico percebendo a “barra pesada”, deu meia volta, simulando que ía buscar reforço, “quebrou no beco” e até hoje a infeliz proprietária está aguardando seu retorno.
Outra face do nosso focalizado era sua obstinação por briga de galo. Tornou-se um assíduo freqüentador da rinha de Sebastião Amaral, meu inesquecível amigo e colega de labuta na loja de “seu” Marinheiro.
Em suas andanças por este mundaréu o Chico adquiriu, lá prás bandas de Saloá, em Pernambuco, um robusto galináceo que, segundo comentava, era o “cão do segundo livro”. Num determinado domingo ele "deu garra" do valentão e se dirigiu à rinha para desafiar o galo de Luiz Parrau, que era conhecido como um tremendo matador. Momento de expectativa. Apostas rolando, e as preferências recaindo sobre o animal pernambucano. Iniciada a luta, o desafiante apanhou tanto que quando já não estava mais aguentando amunhecou, literalmente. O vencedor, percebendo a covardia do oponente, pulou sobre o seu dorso e enrabou o inditoso “terranço” *.
Não deu outra. O Chico invadiu a rinha, puxou no pescoço do dito cujo e, logo em seguida, mandou o Nego Filemon ”atirá-lo” na panela e o pobre desnaturado teve um final trágico; virou tira-gosto. Por conta das galhofas a que foi
submetido, nosso protagonista passou um bom tempo sem “cruzar o batente” de
Sebastião Amaral.


* terranço – galo covarde, no jargão da rinha. Não encontrei registro no dicionário.


Recife, abril/2007

História publicada em 23/04/2007

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