Nos anos 80 trabalhamos juntos do Banco do Brasil de Poço das Trincheiras; Eu, Raimundo Aquino, filho de D. Sita, Bartolomeu, filho de Sr. Pedro Barbeiro e Tonho Kupim, irmão de Sobrinho do ferrageiro. Passei sete anos por lá. Naquela época, os agricultores atravessavam mais uma época de dificuldades. O governo editou medida para amenizar a agonia dos ruralistas endividados: renegociação de todos os débitos, a chamada consolidação de dívidas. Entre tantos devedores, muita gente morava em lugar de difícil acesso, na serra do Poço. O vaqueiro Tito Aboiador era um deles! Não lembro mais seu nome verdadeiro. Porém de uma coisa é certa: Nem Raimundo Aquino, que era fiscal, em seu fusquinha envenenado, arriscava-se sair em busca do boiadeiro nas plagas da serra do Poço. Por lá só se chegava a cavalo ou a pé. Mandamos recado para o devedor de todo jeito, via rádio e corpo a corpo.
Eis que certo dia chegou um cidadão meio galego, chapéu de couro, com quase 02 metros de altura foi logo se dirigindo ao supervisor Tonho Kupim: - Meu nome é Tito Aboiador. Recebi um recado para se apresentar aqui no banco para falar com o senhor sobre umas dívidas que tenho por cá. Pronto, estou às suas ordens. Tonho Kupim, apreciador da cultura popular e sempre espirituoso, perguntou baixinho: - O amigo é mesmo aboiador?- Ele respondeu: Sou, sim senhor! Tonho interveio: - Dar para fazer um versinho agora? O Tito respondeu: - Dá! Como é seu nome, indagou! Ele falou: Antônio Alves Sobrinho. Porém, Tonho Kupim, pensou que ele fosse fazer um verso e cantar bem baixinho. Menino! O vaqueiro concentrou-se como se estivesse conduzindo sua boiada dispersa. Aspirou. Encheu o peito de melancolia! Esticou as cordas vocais e disparou aquele som plangente e monótono com toda força e volume de bom cantador. O som fora tão forte que reverberou nos quatro cantos do salão e invadiu a rua através das frestas das portas e janelas:
“Eu sou Tito aboiador,
Cabra Macho do sertão
Mandaram me chamar
E eu tô aqui não fujo não!”
Tonho Kupim, enrubesceu e ficou sem saber como agir. Tentou interrompê-lo, pedindo para que cantasse baixinho e aí foi que ele aumentou o volume: Começei, tenho que terminar! Não se pára um aboiador desse jeito! A rima não pode ficar no meio do caminho, nem de pé quebrado...
“Com prazer me apresento
Pra fazer a prorrogação
Ao nobre supervisor
Antônio Alves Sobrinho”
Nós, meros espectadores do evento, ficamos estupefatos, sem ação. O gerente Edson, mineiro, chato por natureza, ficou irado com a cena e todos nós rimos durante um bom tempo daquele episódio...
Arapiraca-Fevereiro/2007
Histórias publicada em 05/03/2007
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