Era uma pessoa que, não obstante o revés que a vida lhe proporcionou, sempre nos cumprimentava com aquele ar angelical, com aquele sorriso doce e com uma impressionante paciência. Era guardiã da Igreja de São Sebastião, que ficava ao lado de sua morada na Praça Coronel Manoel Rodrigues da Rocha. Além disso, pertencia à Congregação Mariana e era, também, zeladora da Matriz de nossa Excelsa Padroeira Senhora Santana. Não sei como lhe sobrava tempo para cumprir a dura missão que pesava sob seus ombros. Estou me referindo a Dona Hermínia Rocha, figura ilustre, oriunda de uma das mais aristocráticas famílias de nossa querida Santana.
Lapsos da sua história já foi “cantada em prosas e versos” pelo excepcional escritor santanense, Oscar Silva, em seu livro Fruta de Palma (Praga de Cigano e As Pinhas do Coronel), como também por outros escritores da estirpe de Djalma Carvalho e Remi Bastos. Foi casada com um sargento de polícia, de nome Antides, com quem teve quatro filhos. Deles apenas Labibe gozava de boa saúde mental.
Conta-se que esta casou logo cedo e foi morar no Rio de Janeiro. Os outros três, Agissé, Poni e Bebé, sofriam das faculdades mentais. Os dois primeiros eram feios e tinham todas as características de “doidos varridos”: rosto comprido, orelhas de abano, olhar aguçado, assustador. Eu, na inocência da minha infância, ficava verdadeiramente apavorado quando encontrava algum deles.
A terceira, a Bebé, era caseira, mas quando saía às ruas promovia verdadeiras estripulias, por conta das provocações pelos maloqueiros de então. Ao contrário dos irmãos, ela tinha uma fisionomia que, apesar de maltratada pelo tempo, demonstrava ter sido muito bonita na época da sua infância/adolescência.
Não posso afirmar se verdadeira, mas contava-se que em determinada ocasião Agisse saiu prá rua “peladinho da silva”, como nasceu. Poni saiu em sua busca e quando o encontrou deu-lhe a seguinte reprimenda:
- Você é doido, saindo nu pela rua? Imediatamente Poni tirou a roupa e vestiu no irmão.
Poni tinha como hábito segurar a aselha do caixão de qualquer defunto que passasse em frente de sua casa. Essa demonstração de solidariedade tinha como
limite a entrada da Ponte do Padre. Cumprida a tarefa ele retornava a sua
residência. Certo dia faleceu um indivíduo que costumava importuná-lo. Quando o esquife passou, apesar de ele saber de quem se tratava, não se deu por rogado.
Cumpriu o ritual. Acontece que Expedito Sobreira, que estava acompanhando o féretro, combinou com os demais condutores para ninguém render o solidário carregador. O cortejo ultrapassou a referida ponte e ninguém apareceu para substituí-lo. Ele começou a olhar impaciente para um lado para o outro e ninguém se candidatava à rendição. Quando já estava se aproximando da ladeira do Grupo Escolar Ormindo Barros, nas imediações da casa de tio Né Ricardo, Poni já num tom de desespero, disparou em alta voz:
- Segure esse “fio” da peste se não eu “papoco” ele no chão.
Recife-PE Fevereiro/2007
História publicada em 05/03/2007
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