Meu cunhado Cláudio Vieira, também conhecido por Cláudio Poeta, é um exímio contador de “causos”, mas se notabiliza realmente como declamador de poesias sertanejas, fruto de sua invejável memória. Sempre que nos encontramos ele me aborda com uma poesia ou uma estória, “na ponta da agulha”.
Em algumas oportunidades ele me contou histórias de um certo Cabôco Ferreira, um matuto sertanejo, valente e respeitado, oriundo de São José do Egito.. Pelo desenrolar das narrativas por ele contadas, sobre o focalizado, julguei que deveria ser mais uma das suas invencionices literárias. Todavia lendo o livro Cariri & Pajeú, do escritor Joselito Nunes, descobri não só a existência da folclórica figura, como também de várias peripécias por ele “aprontadas”. Não sei a razão pela qual o escritor não contemplou em sua obra a seguinte história que, na minha forma de ver, é mais picaresca de todas.
Desde a sua infância que o Cabôco Ferreira já demonstrava suas proezas de menino “levado”. Em determinada ocasião ele desferiu uma tremenda surra em um garoto de sua contemporaneidade, por um motivo banal. O tempo passou e ele ficou uma longa temporada afastado de sua terra natal, somente retornando depois de adulto. Certo dia ele entrou em uma barbearia de sua cidade para tirar a barba. Quando o barbeiro iniciou a escanhoagem com sua afiada navalha sueca, de marca Soligen, observou que o novel cliente se tratava de uma pessoa conhecida, daí começou a “puxar “ assunto:
- Você está se parecendo com o Cabôco Ferreira.
- Sou ele mesmo, por que?
- Não sei se você está se lembrando de mim. Mas quando a gente era criança
você me deu uma surra da “gota”.
- “To” lembrado. E você tire essa barba direito se não dou-lhe outra de novo.
Recife – janeiro/2007
História publicada em 15/01/2007
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