Nas estradas do grande sertão a figura do jagunço já faz parte da paisagem da ficção roseana. Riobaldo distuingue-se dos outros jagunços por viver conflitos pessoais em sua trajetória. Ama ao mesmo tempo Diadorim, uma figura andrógina que é ao mesmo tempo homem-mulher e que tem o poder de envolvê-lo emocionalmente; Otacília, dona de uma beleza pura que o enleva, e Nhorinhá, prostituta sensual. Esses três amores acompanham Riobaldo, um completando o outro. Com Otacília, deseja casar; com Nhorinhá, deseja dormir; com Diadorim, deseja sempre ficar junto e viver a vida inteira ao seu lado. E como o próprio Riobaldo afirma: “Ah!, a flor do amor tem muitos nomes [...] Confusa é a vida da gente; como esse rio meu Urucuia vai se levar no mar”.
Riobaldo tanto deseja o amor de Diadorim como tenta repelir porque esse se apresenta como homem, vestido como homem e se chama Reinaldo; só que um dia esse confessa ao jagunço e pede segredo sobre seu verdadeiro nome: Diadorim. No entanto, certeza de sua feminilidade, Riobaldo só teve com sua morte, e, sofrendo, constata que não podia mais chamar Diadorim: “E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: -“Meu amor!...”.
Grande sertão: veredas envolve diversos aspectos que compõem toda uma idéia erótica da vida. As três formas de amar do jagunço Riobaldo possuem um mesmo impulso erótico que é primitivo e caótico em Diadirim, sensual em Nhorinhá e espiritual em Otacília. Para Dante “o homem reúne todos os amores”. Assim são os tipos criados por Guimarães Rosa, reúnem entre si os elementos que fazem o amor se completar. O que falta a uma personagem a outra possui. Riobaldo alimenta esses três amores. O de Diadorim, embora relute contra, por achar ser um homem; o de Nhorinhá prostituta e Otacília mocinha casadoura.
Diadorim forma junto com Otacília e Nhorinhá, a tríade feminina do romance, mas além de instituir-se como uma síntese das duas outras, reúne em sua própria condição os princípios feminino e masculino da tradição literária. Ela é, como seu próprio nome sugere, Deus e diabo, homem e mulher, e constitui pela sua contradição a imagem do questionamento presente em toda obra Roseana.
Matéria publicada em 20/08/2006
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