Em recente visita a Cuiabá, capital de Mato Grosso, participando dos festejos dos cento e cinco anos da Academia Matogrossense de Letras, fui conhecer o belo Parque das Águas. Caminhava sem pressa, atento ao que a natureza oferecia. Encantei-me com as capivaras, com pássaros de diferentes cores e cantos e até com jacarés que, silenciosos, pareciam indiferentes ao movimento ao redor.
Entretanto, entre tantas manifestações de vida, foi um simples tronco cortado transversalmente que me fez parar. Aproximei-me. Da medula escorria a seiva. Ao redor, o dele até a casca, o cerne, onde surgiam os anéis que os anos foram formando, um após outro, registrando o passar do tempo e as diferentes condições enfrentadas ao longo de sua existência.
Pensei, então, na família. Também ela se constrói a partir de um centro comum, onde permanecem valores, ensinamentos e lembranças daqueles que chegaram primeiro. Com o passar dos anos, novas gerações se incorporam à história, ampliando-a sem apagar o que existiu antes.
Chegam os filhos. Depois, os netos. Mais tarde, outros virão. Cada geração acrescenta experiências, alegrias, dificuldades e conquistas, formando uma história que pertence a todos.
Alguns períodos são tranquilos e felizes. Outros trazem doenças, perdas, distâncias e despedidas. Mas são justamente as experiências compartilhadas que fortalecem os vínculos e ensinam a importância de permanecer unido diante das adversidades.
Talvez esteja aí o segredo das famílias fortes: não a ausência de dificuldades, mas a capacidade de enfrentá-las juntas. O tempo modifica as pessoas. Os filhos crescem, os netos chegam, os mais velhos partem. Alguns permanecem próximos; outros seguem caminhos distantes. Ainda assim, há sentimentos que resistem às mudanças e à distância.
Continuei caminhando pelo Parque das Águas. As capivaras continavam tranquilas, os pássaros seguiam seus voos e os jacarés repousavam à margem. Mas levei comigo a imagem daquele tronco. Percebi que seus anéis não contavam apenas os anos. Contavam tudo o que fora necessário vencer para chegar até ali.
E talvez seja assim também conosco. O tempo acrescenta anos, traz novos rostos à mesa e, inevitavelmente, leva alguns que gostaríamos de conservar para sempre. Mas o amor vivido em família possui uma estranha maneira de desafiar as ausências: transforma convivência em lembrança e lembrança em presença.
Um dia, nós também seremos apenas memória nas histórias contadas pelos que vierem depois. Que possam, então, olhar para trás e reconhecer em nós um dos anéis que ajudaram a fortalecer sua história. Porque a maior herança de uma família não está naquilo que deixa. Está no amor que consegue fazer permanecer.
OS ANEIS QUE NOS UNEM
CrônicasAlberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras 28/09/2026 - 01h 20min
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