CRÔNICA

Crônicas

Marcello Ricardo Almeida

Aprendendo uma língua nova, a Crônica atravessava o dia sepultada na rede. Não via as traças colonizando as arestas e o teto, ocupando, palmo a palmo, fresta por fresta, lentas, pacientes, sem alardes.
"Essa é a rua dos atores esquecidos, mencionada no primeiro lide de uma reportagem por cujo interesse a Crônica declinou. No entanto, ela voltou à matéria, onde estava escrito: 'Brilharam vivos, apagaram-se na extrema pobreza, juntamente com a ossada de outros, muitos dos quais foram enterrados em covas comunitárias'."
O Lide disse à Crônica:
– Sua vida não comporta a pressa. Me observe, Crônica. Eu tenho valor no gênero textual jornalístico. Sou, afinal, o primeiro, e resumo, veja, a principal informação.
Mas a Crônica não quis saber. Entretanto, o Lide recorreu ao testemunho do Quê, que enxergava os acontecimentos; recorreu à voz de Quem, que sabia quem participou; pediu ajuda ao Quando, que viu o que ocorreu; e socorreu-se do Onde, que mostrou o lugar do fato; foi ajudado pelo Como, por este saber como tudo aconteceu; o Porquê, por fim, ainda colaborou por ter revelado a causa.
Crônica, depois que rareou, jogou-se na rede de fio 100% algodão. Entre as mãos, as folhas de jornal com textos breves dos folhetinistas que pintavam o cotidiano. Na primeira, uma irascível mãe atacava a filha no horário escolar por causa das notas baixas; e, na página seguinte, outra mãe atacava uma singela professora filha do professor Lear.
Essa narrativa domingueira, sob o olhar da Crônica, discutia dilemas humanos. Na Poesia Pré-Silábica, a palavra deixava de ser apenas uma unidade linguística tradicional para assumir a forma do desenho. Assim, letras e vocábulos tornavam-se sinais visuais, estruturados para expressar a essência poética pura na rua dos atores esquecidos. Com a quebra total da barreira da escrita comum, o texto tradicional cedia lugar à imagem, utilizando formas e símbolos de maneira puramente visual.
Crônica mudou a folha.
Impedida por seu coração de repetir as belas palavras ditas pelas irmãs — apenas para agradecer ao velho Lear —, Cordélia demonstrava, honesta, seu amor. Cordélia debruçada na janela do último apê. Crônica leu que ela e seu pai, o Lear, que brincava Carnaval com uma máscara na cara para cumprimentar os amigos e outra nas costas para cumprimentar os hipócritas, espiavam lá de cima uma pena voando, como se aquela penugem de sabiá-laranjeira possuísse vida.
Na crônica desse domingo frio e nublado, caminhavam na calçada dessa rua Tamsomente, e Tãosómènte, e Tão-só, e Tão-somente e Tão só. De maneira acalorada, eles discutiam.
– E se voltássemos muito no tempo? questionou um deles.
Adiante, sentaram-se à mesa do barzinho. Na calçada, a voz deles inundava a rua. Chegaram outros e mais outros. Crônica passou a página.

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