Existem pessoas que passam por nossas vidas deixando marcas que o tempo não apaga. Considero-me privilegiado por ter convivido, ainda menino, com duas bisavós e um bisavô.
Hoje, porém, carrego certo arrependimento por não lhes ter dedicado mais tempo, carinho e atenção.
Eram pessoas doces, de cabelos brancos como os que agora também possuo, que gostavam de conversar, contar histórias e ouvir minhas pequenas aventuras da escola, dos amigos e do cotidiano. Entre essas lembranças, uma permanece especialmente viva.
Certa vez, meu “biso” levou-me ao pomar da Fazenda Angicos, em Caicó. Parou diante de um pé de romã, colheu uma fruta e a abriu diante dos meus olhos. Mostrou-me as inúmeras sementes, acomodadas lado a lado, apertadas umas contra as outras, cada uma preservando sua cor, seu sabor e sua doçura.
Disse-me, então, que as pessoas deveriam aprender com a romã: viver próximas, dividir espaços, respeitar diferenças e, ainda assim, conservar aquilo que cada uma possui de próprio.
Somente muitos anos depois compreendi que aquela pequena fruta carregava uma simbologia muito mais antiga. Entre os judeus, a romã atravessa séculos como representação da abundância, da sabedoria e das boas ações.
Está presente nas Escrituras, ornamentou vestes sacerdotais, o Templo de Salomão e permanece ligada às celebrações do Ano-Novo judaico. Suas numerosas sementes tornaram-se símbolo da multiplicação das virtudes.
Meu bisavô talvez conhecesse essa história. Talvez não. Pouco importa. Naquele pomar sertanejo, com a sabedoria simples daqueles que aprenderam muito mais com a vida do que com os livros, ele me transmitiu uma lição que povos antigos já enxergavam naquele fruto.
Hoje, quando meus próprios cabelos embranqueceram, percebo que algumas das maiores lições não chegaram pelas salas de aula nem pelos livros que li ao longo da vida. Vieram de uma romã aberta pelas mãos envelhecidas de meu bisavô.
E talvez seja essa um dos mais bonitos aprendizados, que ele me deixou: conviver não significa ser igual.
Significa crescer lado a lado, preservando nossa essência e respeitando a essência daqueles que dividem conosco a mesma casca chamada vida.
O MUNDO DENTRO DE UMA ROMÃ
CrônicasAlberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras 23/08/2026 - 23h 22min
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