As letras subiam às paredes à caça das palavras. As aulas perdiam direito a ter utopias ao escalar a indisciplina na crônica sobre a indisciplina crônica, disse a Semântica, com o que não concordava a Sintaxe, e seu grupo de sinais de pontuação.
E as sílabas? Elas perdiam-se no vaivém das palavras. Fazia-se, na praça pública, o uso sem trégua das palavras. Quem exerce as ensinências também vivencia as aprendências. Na pedagogia do bem-estar, as ensinências e as aprendências não ocorrem em tempos separados.
As palavras, feito pássaros, voavam, subiam ao teto, desciam, cantavam aos gritos, e na aula chamavam tanta atenção; elas perdiam-se aos borbotões naquele barulho de trovoada. O processo das ensinências é lento e gradual com a substituição do abstracionismo pela vivência prática dos saberes. Já o foco das aprendências ilumina a gramática da indisciplina.
As palavras burilavam imensos textos; os gêneros textuais em assembleia discutiam o fim da palavra. Sintaxe e Semântica, que eram as primeiras na sala, comentaram:
As palavras feito folhas, as palavras feito árvores, uma floresta de palavras reflorestava a sala. Unidas em orações estavam as palavras em períodos simples e compostos. Então quer dizer que o foco das aprendências ilumina a gramática da indisciplina?
Nada impedia que as vogais e as consoantes se encontrassem de forma casual entre as palavras. Não percebeu a inversão do olhar pedagógico tradicional sobre o comportamento na aula?
O sonho das palavras não era o silêncio, mas o desejo de ser palavra. O olhar pedagógico tradicional sobre o comportamento na aula?
A palavra criava vida. Não apenas vida, mas desejo de fala. Cada letra tinha tanto o que falar na sala. Quase ninguém se importava com a voz da palavra. Sim, porque aprendências em vez de ensino deslocam a gramática da indisciplina.
As palavras olhavam-se e contavam histórias sinceras. Inúteis? Inadequadas no momento da aula. Ouvia-se antes que isso descentraliza a voz de quem se propõe a ensinar.
O mais estranho eram as memórias das palavras. Nada cabia mais nas lembranças do aperto daquela sala. Estendeu-se a conversa entre elas na ausência das classes de palavras. A escola dividia-se em dez classes. Multifacetado chegou à reunião perguntado se se atrasara.
Nem começou ainda?
Nem começou ainda.
Seguiu a conversa entre a Sintaxe e a Semântica:
Os versos pulavam das palavras. Eles, sabia-se que tentam a nossa casa e acendem o abrigo da noite escura. Focar as aprendências significa priorizar como o aluno constrói o conhecimento e como ele se sente nesse processo.
E qual é o papel do comportamento desinteressado?
A indisciplina é uma linguagem que se manifesta através do desinteresse.
Outra vez os versos; eles com a esperança tecida em cada palavra, em cada sílaba, em cada som pra quem sonha e jamais cansa.
Multifacetado acrescentou que mudar o foco pra forma como se aprende é a gramática da indisciplina. Ela traz luz sobre o que ocorre nas ações dos corpos e reação às palavras pela imposição do silenciamento.
Mas a sala foi ficando pequena com a chegada das classes. O ruído falava em cobrança de regras e conhecimento dos conteúdos. Cada classe com seu estribilho.
Chegou o Substantivo no séquito de nomes de seres, objetos, lugares. Com ele vieram logo as ideias e os sentimentos.
Mais tarde o Artigo, que definia ou indefinia, ladeado pelo número e pelo gênero.
O Adjetivo, como se sabe, bastante loquaz. Foi um carnaval, uma apoteose, a chegada dele à reunião no texto da crônica sobre a indisciplina crônica.
O Numeral, que indicava a oposição de um ser em uma sequência ou a quantidade exata, sorria; mas ninguém lhe retribuiu a simpatia, porque a considerava falseada pelas repetições.
O Verbo veio com o Advérbio. Aquele tão expansivo em suas ações, suas mudanças, e os fenômenos da natureza apontados pelo janelão da sala, além dos estados. E o outro sempre unido àquele pelo óbvio motivo – e todos sabiam – de sua capacidade em modificar o Verbo; não só o verbo, mas também o loquaz Adjetivo e até mesmo outro Advérbio.
A Preposição chegou à sala apertando a mão de todos. Era assim que ela conectava termos e reconhecia a dependência entre eles.
A Conjunção chegou se queixando de cansaço. Não fazia outra coisa a não ser procurar a coesão entre os presentes, porém não era fácil na contemporaneidade.
A Interjeição veio quase no fim. Trouxe com ela todas as emoções possíveis e impossíveis, criadas e por serem criadas.
CRÔNICA SOBRE A INDISCIPLINA CRÔNICA
CrônicasMarcello Ricardo Almeida 23/08/2026 - 23h 15min
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