DESCE! DESCE! DESCE!

Crônicas

Cláudio Campos

Uma propaganda de televisão, muito famosa há alguns anos, exaltava a capacidade da indústria brasileira de produzir aparelhos de TV utilizando mão de obra nacional, comparando-a à de nossos irmãos da terra do sol nascente. Ao final, depois de apresentar os responsáveis pela linha de produção, a propaganda arrematava:

— Os nossos japoneses são melhores que os outros.

Lembrei-me disso depois de ler algo sobre Chico Xavier. A associação foi inevitável. Vieram-me à cabeça Chico Nunes, Chico Vigilante, Chico Caruso, Chico César, Chico Mendes, Chico Buarque e tantos outros “Chicos”. Mas, como dizia a antiga propaganda da Semp Toshiba, podemos afirmar que “o nosso Chico”, em importância para nós, era melhor do que os outros.
Refiro-me a Chico Soares.

E digo isso sem medo de exagero, pois nosso personagem tornou-se patrimônio santanense, dono de uma trajetória de sucesso que atravessou décadas e consagrou esse talentoso filho da terra.

Profissional muito à frente de seu tempo, Chico construiu uma figura que reunia voz eloquente, rapidez de raciocínio, facilidade de comunicação e ideias próprias. Brilhava nos eventos importantes da cidade e ajudou a transformar o carnaval santanense, durante muitos anos, no melhor do interior de Alagoas, sempre valorizando os artistas locais — legado que transferiu para seu irmão Sérgio Campos.

Apaixonado por Santana, emocionava-se sempre que o assunto era sua terra. E juntava sua voz à do crooner quando a música tocada era “Santana dos meus amores”.

No bar de seu tio Zé Soares, mostrava-se exímio jogador de sinuca e amigo de todos. Dono de língua ferina, jamais fugia de um debate ou renunciava às próprias convicções. Ao mesmo tempo, era bom pai, bom filho e sempre afável com quem estivesse à sua volta.

Dessa amabilidade desfrutei ainda moleque, quando procurava estar por perto, ouvindo histórias e causos.

Torcedor fanático do Flamengo e do Ipanema, tornava-se implacável nas vitórias de seus times sobre os adversários. Gostava de provocar. E sabia fazê-lo como poucos.

Ouvinte assíduo da Rádio Globo do Rio de Janeiro, eu sempre imaginava que qualquer emissora estaria à espera do surgimento de um novo talento para contratar. No caso de Chico, porém, pensava diferente: só precisava surgir uma rádio em Santana; o locutor já existia.

Seu talento também aparecia nas manhãs de domingo, nos saudosos programas de auditório realizados no antigo Cine Alvorada e abrilhantados pelos conjuntos “Os Naturais” e “Os Tremendões”. Ali, a juventude santanense se reunia para assistir aos shows de calouros — Agnaldo, Pangaré, Neguinho de Dona Flora, entre tantos outros —, sorteios e apresentações de artistas da terra. Quem não se lembra de Adeilson dublando a música “A gargalhada”, composta e cantada por Nelson Gondim?

Havia também figuras folclóricas inesquecíveis, como aquela família da Rua São Vicente, que todos os anos ganhava o prêmio do Dia das Mães pela maior quantidade de filhos. Dona Maria Benedita, a Dita, chegou a ter 32 filhos, sendo que hoje ainda tem 19 vivos. No ano seguinte, não adiantava as adversárias tentarem ultrapassá-la, pois ela, ano a ano, cobria a aposta.

A plateia, formada inclusive pelos alunos do Estadual e do Ginásio, tampouco era complacente. Não perdoava os calouros de desempenho duvidoso.

Lembro-me de uma ocasião em que, depois de Chico Soares chamar ao palco o saudoso Cícero Lopreu, e a turma de estudantes, em coro, começou a gritar:

— Desce! Desce! Desce!

Educadíssimo, Chico tentou acalmar os ânimos:

— Minha gente…

Mas a plateia insistia:

— Desce! Desce!…

No dia seguinte, encontrando a turma em frente ao bar de Val, Chico desabafou:

— Porra, vocês são fogo!

Como posso continuar promovendo programas de auditório se ninguém mais quer ser calouro? Ninguém gosta de ser esculhambado desse jeito.

Um dos autores dos apupos respondeu:

— Chico, vocês têm que entender que nós temos esse direito. Se os caras não sabem cantar, podemos mandar descer.

Chico ouviu com paciência e respondeu, com a inteligência rápida que lhe era própria:

— Sim, eu entendo que vocês têm o direito de pedir para os caras descerem. O problema não é esse. O problema é que vocês têm que deixar eles subirem primeiro!

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