CASEÍNA

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Era uma vez uma cidade. Ela abrigava um vampiro. Ele permaneceu nela ao sentir os sabores, os odores, as texturas, as cores ocres de Caseína. A pressa devorou, rabiscou Caluda na mesinha do café com a ponta da faca de cozinha, a gramática do afeto.
Nem prólogo nem epílogo.
Caseína teve a capacidade de tirar vidas. N vida física, mas vida íntima; embora essa vida tb fosse aquela vida.
E a vida, q era vida, perdeu a aura da vida.
Qdo se falava ter havido pessoas q escreviam livros, isto se tornavam um espanto, uma tormenta a existência de um humano com essa capacidade breve e esquisita. N se sabia, tampouco se acreditava na presença das palavras q transformam vidas.
Caseína conseguiu apagar da memória o q ela armazenava por gerações. As gerações passadas foram esquecidas, a presente boiava n’água feito sabugo e a futura era uma incógnita perdida.
No céu n havia disco voador nem máquinas “inteligentes” q transportavam vidas. Em Caseína o ar pesava; quase n se conseguia respirar; parecia fácil tocá-lo, senti-lo.
O alimento era caro em Caseína, mas isso se tornou comum em qqr parte. Foi pela escassez? N. Pela incapacidade em transformar grãos em árvores. A natureza em Caseína desaprendeu a cultivar a terra, a comer e beber o q a terra dava; e ela n mais dava o q costumava dar.
Parecia natural a própria vida em Caseína, mesmo q parecesse falar o q n se sabia o q se faltava. Era uma lembrança q se apagava e acendia-se, mas n iluminava mais nada; uma luz parca, uma quase não-luz q tremulava ameaçando se apagar.
Qdo houve aquele dia em q o registro em um disco mostrou ter havido na Terra pirâmides e, antes delas, homens morando em cavernas – seres q lutavam contra os tigres-dentes-de-sabre –, Caseína fez desacreditar nessas histórias q se ouviam naqle disco. Desacreditasse, insistia a cidade; e as pessoas sequer duvidavam, pois, a crença era cega à cidade. O Instituto da Dúvida n foi apagado, foi fortalecido, em seguida substituído pelo Instituto da Dívida.
E se tornaram piadas a existência dos sábios pq era impossível alguém sê-lo, exceto máquinas q por si ensinavam e se reinventavam, corrigiam e se antecipavam – e faziam o q faziam por estarem 24h ligadas. Mas como quase n se falava, a fala n era mais falada à maneira como antes se falava; ela perdeu o sentido de fala e em seu lugar veio o longo silêncio, a indiferença, o isolamento voluntário. Os filósofos eram contos infantis q, antigamente, embalavam crianças antes de dormirem com enredos q apavoravam.
E as conquistas humanas foram amontoados de invencionices q os pais, qdo eles haviam, usavam como controle emocional no ambiente p evitarem as maldades corriqueiras e as maldades eventuais – um mal q erradicasse a ordem e logo estabelecesse o caos. As grandes navegações jamais existiram, exceto em cabeças vazias e desempregadas q se reuniam pelas ruas de Caseína, pelas calçadas sujas e esburacadas, coisas nas quais tocarem e fazê-las se sentirem vivas como antes a vida era celebrada.
N acreditasse mais nessas vidas críveis e holográficas. Meras imagens tridimensionais eram apenas feixes de luz, qdo a luz era barata, q flutuavam feito asas. Antes se tinha uma fotografia em tela plana sem largura, profundidade e altura, e o holograma lhe ofereceu essa mágica possibilidade quão um truq feito às crianças durante o aniversário. Vida nenhuma era mais celebrada.
Povos foram assemelhados em qqr época. Mas foi assim q Caseína aboliu as praças, aboliu igualmente os dias da semana, reduzindo-os primeiro, aboliu os meses, aboliu o tempo como aboliu as casas. A firma aboliu a salinha do café onde Caluda encontrava-se com as colegas de trab.
Prevento foi encontrado enforcado após semanas. Isso tornou-se comum: encontrar tempos dps alguém pendurado. Ninguém nunca soube de fato se foi o caso fortuito ou por força maior. As colegas Fedra, Medeia e Ino acaso ficaram sabendo. Caluda nunca soube do falecimento dele. E como surgiu em Caseína, Prevento desapareceu. Ninguém sabia onde ele foi sepultado, se foi sepultado.
Nome?
Caluda.
Onde trab?
Eu... eu... Zxof fopkqw nopij oijwqn i8n Amn nisna... Eu... eu... Oxdjkqe...
Caseína avançou a expressar-se em uma língua pouco conhecida. Becos escuros, ruas de rara iluminação. Lixo nas calçadas. Superlotaram e sucatearam o transporte público. O povo ia ao trab a pé. Se o trab fosse longe: dormisse no trab. Mas... a cidade n me permitia q se dormisse no trab. N? N. Então...! Ficasse na rua, ocupasse uma das filas dos desempregados.
Caluda no ponto, ainda no início de td isso:
Foi spre um estorvo esse modelo! disse e se surpreendeu sem saber de onde ela tirou as palavras “estorvo e modelo.”
Desconhecia Caluda q sabia tanto ao avaliar as palavras.
Eqto espero o busão...
Caluda lembrou-se q estorvo era o q se reconhecia como entrave na firma, era obstáculo na salinha do café, era empecilho nos corredores apertados ao se esbarrar com Prevento e correr-lhe o frio da manhã pela espinha. Era embaraço, mas n de “estorvo” e sim de Prevento q n se decidia se ficava ou se saía, dançava Prevento, dançava Caluda; um diante do outro, uma dança sem música, só riso e o frio da manhã na espinha, como se dizia na salinha do café. Óbice? E como ela sabia tanto, se n sabia q sabia tanto! Uma atrapalhação, um incômodo esse busão, uma dificuldade de sem-fins nesse caminho sem fim dentro de um sem-fim de boletos atrasados...
E modelo? ela procurou saber se sabia. Veio-lhe o significado de padrão. Mas de onde veio? Levou o indicador à boca. Exemplo? Melhor: representação.
Voltou Caluda às palavras:
Foi spre um estorvo esse modelo.
N tinha o q fazer; era esperar por ele ou esperá-lo. E n havia outro meio de se deslocar, exceto a pé? A pé n conseguia; os pés n me permitiam. Inchados. Racharam. Doloridos. Pernas cansadas. Dias cansados. Sono atrasado. A fome. O salário... atrasado.
Caluda ao dizer e repetir tantas vezes: “foi spre um estorvo esse modelo” – pregada no ponto sob chuva, vento, calor, só, entre uma multidão. Ninguém p falar um breve olá. Divisou diante dela o verbo “ser” em “foi”, assim o reconheceu pretérito perfeito do indicativo na terceira pessoa do singular. Avistou tão bem o advérbio de tempo em “spre” e o artigo indefinido, masculino singular, em “um.” Chegou ao “estorvo” e assim o reconheceu como substantivo comum, masculino singular. Viu em “esse” um pronome demonstrativo e outro masculino singular.
Qta singularidade! falou alto. Olhou Caluda os lados procurando censura, mas ninguém percebeu, pois a indiferença reinava. Ninguém percebia ninguém àquela altura por parecerem tds invisibilizados em Caseína. As pessoas existiam como se não existissem.
Qdo... foi... q isso começou? disse, mas se arrependeu; preferiu distrair-se com essa sua brincadeira p matar o tempo com as palavras.
E voltou à frase:
Foi spre um estorvo esse modelo.
Distinguiu o sujeito determinado simples em “esse modelo.” Riu. Rindo de q? Desse modelo. O substantivo “modelo” em sua cara como o núcleo do sujeito. Notou ser esse o adjunto adnominal e o predicado nominal “foi spre um estorvo.”
O lotação brecou, envolto naqla nuvem de poeira e mau cheiro. Começou o empurra-empurra, os acotovelamentos.
Te falei q ias... engravidar. E se isso acontecesse... N, n sei o q, n sei o q, n, n, n sei o q. N me ouviu. Ouviu? A barriga pelas costas, né, Nené! Vai fazer o q? Saísse, se tivesse juízo, ou ficasse.
Ficasse?
...
Posso?
N.
N?
Deu no q deu.
Sair?
Saísse.
Na saída de Caseína, o Gpo Cá capturava e encaminhava diretamente ao Sr. Tivo. Era um conflito, uma luta contra o mofo. O Sr. Tivo fazia o q o Sr. Tivo foi programado.
Te falei.
E se isso acontecesse...
Aconteceu.
N sei o q, n sei o q, n sei o q, n sei o q.
N me ouviu. Ouviu? N me ouvia nunca.
Fazer o q!
N encontrou meu celular? Perdi no über.
Pagasse?
Paguei.
Com q?
Com Pix.
...
O celular falava comigo – sabia?
N, n sabia. Falava o q?
Antro...po...morfi...ca...mente... pô!
...
Putz! naqles tempos passados, disse Medeia na salinha do café. Ó gente! A gente ouvia no ponto uma vó falar sobre o vô, uma mãe falar sobre a casa, um pai sobre o almoço, um aluno sobre a prova. Uma vó n era, pq o tempo n lhe deu filhos, a mãe engolida pelo vácuo, o pai ignorava ser pai, o aluno n existia pq escola havia fechado as portas, ué! As creches foram as primeiras...
A máquina, a máquina! gemeu Ino.
Q houve, Ino?
Essas traquinas, campeãs de traquinices.
Como coçava!
Enganava com os truques do Sr. Engodo.
N sabia?
Traía com as artimanhas engendradas pelas rainhas das megeras. Era dela a cilada mais comum, o ardil mais cobiçado por o pai da hipocrisia. Mentia com habilidades raras, raríssimas – cuja gradação n mais surpreendia.
Medeia, q vivia acelerada, suspirou.
Fedra abriu a bolsa sobre a mesa, os delgados dedos de unhas roídas até o sabugo abriram o zíper. O braço foi enterrado na bolsa com delicadeza. Veio de lá uma caturra. Seus dedos desnudam a banana. O braço apoiado sobre a mesa do café. A boca de Fedra ganhou abertura arredondada e a cabeça foi ao encontro do fruto. Os olhos n se desgrudaram da fruta q ia reduzindo o tamanho ao ir à boca.
A memória histórica foi a primeira vítima em Caseína. Não foi necessário proibir ou queimar livros; simplesmente, eles foram esquecidos. Ninguém mais lia os clássicos. Ninguém sequer se lembrava dos clássicos. Eles eram como se nunca tivessem sido escritos e publicados.
Comentou Caluda, na salinha do café, q havia lido 50.000 livros.
O assunto veio do nada e ficou boiando sem q ninguém entendesse o motivo daqle disparate. "Q ela tava falando, gente?" alguém disse em segredo.
Era como se falasse um despropósito. Era uma falta de assunto. "Q tinha a ver com as calças!"
N q Caseína fosse uma floresta. Mas uma floresta era uma durante o dia e outra à noite. Os habitantes viviam p sobreviver, custasse o q custasse. Se um vivente acaso entrasse em uma rua errada, em um beco q encerrasse o caminho, jamais sairia.
A vida em Caseína se tornou um risco; era uma corda retesada entre dois prédios altos sobre a ql tds se obrigavam a correr. As farmácias mantinham os medicamentos p dormirem nas prateleiras de cima e nas prateleiras inferiores os p acordarem.
N era difícil n cair no sono durante o trab. Caluda deixou a salinha do café apressada e com sono.
Chegou à Caseína a fragilidade psicológica; trouxe com ela a dissolução da realidade através do fluxo de consciência. Foi assim q a cidade ganhou a sede alucinatória.
Caseína era úmida, escura, sem ventilação. Alimentava-se de ruas, becos ébanos. Veio a nuvem daqles buracos malcheirosos. Era uma nuvem de esporos e micotoxinas q usava os canais respiratórios; se impedida, ela ocupava os olhos e penetrava nos poros.
Destacava-se a nuvem pela fragmentação temporal, misturava-se com o uso de metalinguagem q levava à morte da narrativa pela comunicação por meio da incomunicabilidade. Nuvens monumentais tocavam o solo e aprisionavam a cidade num abraço claustrofóbico e de visibilidade nula.
Caseína era um mosaico, e enxergava por fragmentos. A cidade possuía olhos com milhares de omatídeos; cada um dos omatídeos via o q um outro omatídeo n via. E o município tinha meios de reunir os fragmentos p formar um quebra-cabeça q só ele entendia. Se a cidade percebesse qqr ponto de luz, ela procurava a escuridão.
Foi em vão as palavras do Censor do Pântano ao Indiciado Leitor:
Bumbo! Bumbo!
A cidade sepultada em nuvens.
Escapar de Caseína era livrar-se do cativeiro. O Sr. Tivo impedia q qqr de seus moradores escapasse. Ele avisou a tds q atravessar os limites de Caseína era suicídio:
Testemunhei afogamentos na fumaça da semântica.
Na salinha do café:
Aumentaram as interações humanas?
N soube.
N? Foi como disseram.
Como!
Devoradas pela sede do vampiro.
Foi?
O passageiro incógnito...?
Discordo.
Como “discordo”, Medeia?
Pela indiferença.
Como “pela indiferença”, Ino?
Pela rotina.
A convivência perdia o sentido, a nuvem q vinha dos becos escuros, das servidões, da umidade e do silêncio, dominava os sentimentos, os laços afetivos eram quebrados de forma abrupta. Pairava um horror do tipo semiperceptível q envolvia Caseína; ele iniciava-se pelos esgotos rasgados nas ruas: caminhos de ratos.
Um horror fundamentado na desconstrução da linguagem, no colapso semântico, nas distorções espaço-temporais, na fragilidade da coerência lógica, na atmosfera de isolamento, na indiferença. Onde as relações amorosas n se completavam, regidas pelo isolamento e pelo colapso total da comunicação.
As pessoas perderam a capacidade de formular palavras completas, gerando apenas áudios fragmentados que impediam entendimento mútuo.
Anomalias distorceram a realidade! insistiu Medeia mexendo outra xícara antes de sorver o último gole, q lembrava o vampiro nos ônibus de Caseína. 
Nunca foi novidade a solidão do universo q, de tanto viver só, reproduziu a si mesma.
Vivíamos, colegas, sozinhas. Vivíamos presas nesse vazio. Se ao menos pudéssemos, disse Ino com a concordância de Medeia, q lhe ofereceu mais café, escapar, pular a cerca, chegar ao Sem-Fim!
A nuvem encobriu Sem-Fim.
Antes, colegas, podíamos ver Sem-Fim desse andar, desse janelão...
Foi essa pressa q devorou, disse Caluda, como se lhe cortasse o raio das lembranças, e atropelou a gramática do afeto em Caseína – dito isso, ela seguiu riscando a mesa com a ponta da faca de cozinha.
Naqla tarde, Caluda ouviu um assovio q a fazia lembrar-se de Prevento:
“O rio é vida. Ou vida: vento? Vento. Feito árvore, que é vida sendo vento.
“Alimentos?
“Viaja a árvore em frutos, alimentos.
“Se desbota?
“O rio viaja em sua viagem. E a árvore em folhas se desbota.
“E volta?
“Q a vida passa, e volta.
“Qm sabe...
“E a vida cabe a quem sabe.
“Vivo?
“O homo sapiens descobre-se vivo.
“Vento?
“Nas cascas das árvores: vento.
“Lentos?
“E os fungos vivem lentos.
“Vento?
“O rio é vida. Ou a vida: vento? Vento. Feito árvore, q é vida sendo vento.
“Pampãram. Pampam. Pampãram... Começou.”
O destino esperava as pessoas no ponto.

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