Naquela sexta-feira muito escura, as caieiras das olarias queimavam tijolos na margem direita do Ipanema. A artesã Júlia Rainha desceu pela trilha da margem até à Pedra do Sapo levando as panelas de barro para à queima, eu sua própria caieira. A noite sem lua não tinha romantismo, mas o fogo muito ativo dos fornos noturnos, chamuscava uma melancolia inexplicável nas trevas do rio. Os perigos vagantes do escuro esbarravam na proteção do irmão Gustavo que fazia questão da sua presença nas queimadas da artífice. Ipanema, silencioso e aceso, fazia a diferença na Economia ribeirinha e no saudosismo que pairava nas caieiras. As línguas de fogo da margem quieta forjavam a tão bela Rainha que ainda aguardava o seu rei.
O texto acima se refere à protagonista do romance recém-lançado, AREIA GROSA. Uma página corriqueira do Panema santanense do século XX. É o alvorecer de um idílio que precisa do tempero da noite, das brumas da madrugada e das multicores vivificantes de novos arrebóis. crítico laborioso e apaixonado me fez voltar a abrir as páginas do romance do Ipanema, com novo olhar. O olhar de uma paixão profunda e fictícia que impregnou o meu mundo real e se recusa a se esvair. E quando o amor é moldado na quimera e no real, forma uma liga de natureza invisível de reações misteriosas. Ler AREIA GROSSA é nascer de novo, é viver a adolescência duas vezes, é perder o fôlego num mergulho grande se for santanense.
Mas o certo é que estamos no Dia dos Pais. Recebemos convite para estamos em um sítio rural no próximo dia 16, um domingo de pesquisas e palestras com descendente direto do fundador da nossa cidade, em 1787. É pulando do AREIA GROSA e caindo no areia fina em esmiunçar a história. Porém, mesmo sem história já é muito reconfortante deixar o confinamento urbano e rever cheio de júbilo a zona rural, pela força agradável do sítio São Bartolomeu. Ali tem muitos segredos guardados e não compartilhados com as páginas históricas. Vamos tentar oxigenar essas botijas e trazer a candeeiro se o tempo da colheita estiver correto.
A RAINHA
CrônicasClerisvado B. Chagas 10/08/2026 - 23h 10min
AREIA GROSSA NAS MÃOS DO POVO (MALTA).
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