Há livros que permanecem nas estantes. Outros caminham conosco, porque suas lições escapam das páginas e, silenciosamente, misturam-se à vida. É o que acontece com A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Escrita há séculos, a obra talvez fale menos de combates do que da sabedoria necessária para enfrentar as dificuldades, conhecer o terreno, escolher o momento certo de agir e, sobretudo, vencer sem destruir.
Penso nisso quando me lembro de Damião e Ana, moradores da Fazenda MuSilva, no Baixo São Francisco, onde o dia nem bem clareou e eles já estão de pé, pois ali quem espera o sol nascer para começar a trabalhar já perdeu uma parte da manhã.
Eles nunca estudaram estratégias militares nem conhecem os campos de batalha da China antiga. Talvez jamais tenham lido Sun Tzu. Mas, se o velho mestre oriental pudesse caminhar pela MuSilva, certamente reconheceria naquele casal muito de seus ensinamentos.
Ali, entre coqueirais, animais e o vento que sopra das dunas do Peba e bandas do São Francisco, Damião e Ana encontraram uma forma simples de felicidade. Não aquela felicidade perfeita, fabricada para as redes sociais, sem poeira, cansaço ou preocupação. A deles foi construída devagar, no enfrentamento diário das pequenas batalhas. Porque uma fazenda também conhece suas guerras.
Há o verão que castiga a terra, a chuva que demora ou chega em excesso, a cerca que quebra, o animal que adoece, a ferramenta que falha justamente quando mais se precisa dela. Existem ainda o peso dos anos e as preocupações que nenhuma porteira consegue impedir de entrar.
Damião aprendeu a enfrentar tudo isso como um estrategista. Se algo quebra, procura consertar. Se a natureza muda seus planos, adapta-se a ela. Conhece cada pedaço da MuSilva, percebe os sinais do tempo e sabe que há momentos de avançar e outros de esperar. Sun Tzu chamaria isso de conhecer o terreno.
Ana domina território ainda mais delicado: o coração humano. Sua estratégia é cuidar. Da casa, das plantas, dos animais, de Damião e das pequenas coisas que, aparentemente insignificantes, acabam sustentando uma vida inteira. Sabe quando uma palavra precisa ser dita e, principalmente, quando o silêncio vale mais.
Enquanto Damião enfrenta os problemas, Ana impede que eles se tornem maiores do que realmente são. E assim os dois seguem vencendo batalhas sem derrotar ninguém.
Talvez porque tenham compreendido, mesmo sem nunca terem lido o velho mestre chinês, que os maiores adversários da vida raramente estão do outro lado de uma trincheira. São o medo, a impaciência, o desânimo, a desesperança e, principalmente, a vontade de desistir.
Contra esses inimigos, Damião e Ana possuem armas poderosas: trabalho, paciência, companheirismo, simplicidade e esperança. Não esperam que tudo esteja perfeito para serem felizes. A felicidade está no café tomado cedo, na chuva boa depois da estiagem, no almoço simples, no animal que reconhece quem dele cuida, na conversa ao entardecer.
Ao longe, o São Francisco também parece confirmar aquela sabedoria. Em sua longa viagem até o mar, o rio encontra pedras, curvas e barrancos. Nem por isso retorna. Contorna o que pode, enfrenta o que precisa e continua. Damião e Ana fazem o mesmo.
Por isso, quando releio A Arte da Guerra, penso que existem livros que não precisam ser conhecidos para que seus ensinamentos sejam praticados. Sun Tzu escreveu sobre estratégia há mais de dois mil anos. Damião e Ana a praticam todos os dias, sem livros, soldados ou exércitos.
Na Fazenda MuSilva, quando Damião abre a porteira e Ana abre as janelas da casa, ambos parecem repetir uma antiga lição: a vida sempre terá suas batalhas. A verdadeira sabedoria está em vencê-las sem permitir que nos roubem a felicidade.
A ARTE DA GUERRA
CrônicasAlberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras 17/08/2026 - 17h 28min
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