A ARTE DA GUERRA

Crônicas

Alberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras

Há livros que permanecem nas estantes. Outros caminham conosco, porque suas lições escapam das páginas e, silenciosamente, misturam-se à vida. É o que acontece com A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Escrita há séculos, a obra talvez fale menos de combates do que da sabedoria necessária para enfrentar as dificuldades, conhecer o terreno, escolher o momento certo de agir e, sobretudo, vencer sem destruir.

Penso nisso quando me lembro de Damião e Ana, moradores da Fazenda MuSilva, no Baixo São Francisco, onde o dia nem bem clareou e eles já estão de pé, pois ali quem espera o sol nascer para começar a trabalhar já perdeu uma parte da manhã.

Eles nunca estudaram estratégias militares nem conhecem os campos de batalha da China antiga. Talvez jamais tenham lido Sun Tzu. Mas, se o velho mestre oriental pudesse caminhar pela MuSilva, certamente reconheceria naquele casal muito de seus ensinamentos.

Ali, entre coqueirais, animais e o vento que sopra das dunas do Peba e bandas do São Francisco, Damião e Ana encontraram uma forma simples de felicidade. Não aquela felicidade perfeita, fabricada para as redes sociais, sem poeira, cansaço ou preocupação. A deles foi construída devagar, no enfrentamento diário das pequenas batalhas. Porque uma fazenda também conhece suas guerras.

Há o verão que castiga a terra, a chuva que demora ou chega em excesso, a cerca que quebra, o animal que adoece, a ferramenta que falha justamente quando mais se precisa dela. Existem ainda o peso dos anos e as preocupações que nenhuma porteira consegue impedir de entrar.

Damião aprendeu a enfrentar tudo isso como um estrategista. Se algo quebra, procura consertar. Se a natureza muda seus planos, adapta-se a ela. Conhece cada pedaço da MuSilva, percebe os sinais do tempo e sabe que há momentos de avançar e outros de esperar. Sun Tzu chamaria isso de conhecer o terreno.

Ana domina território ainda mais delicado: o coração humano. Sua estratégia é cuidar. Da casa, das plantas, dos animais, de Damião e das pequenas coisas que, aparentemente insignificantes, acabam sustentando uma vida inteira. Sabe quando uma palavra precisa ser dita e, principalmente, quando o silêncio vale mais.

Enquanto Damião enfrenta os problemas, Ana impede que eles se tornem maiores do que realmente são. E assim os dois seguem vencendo batalhas sem derrotar ninguém.

Talvez porque tenham compreendido, mesmo sem nunca terem lido o velho mestre chinês, que os maiores adversários da vida raramente estão do outro lado de uma trincheira. São o medo, a impaciência, o desânimo, a desesperança e, principalmente, a vontade de desistir.

Contra esses inimigos, Damião e Ana possuem armas poderosas: trabalho, paciência, companheirismo, simplicidade e esperança. Não esperam que tudo esteja perfeito para serem felizes. A felicidade está no café tomado cedo, na chuva boa depois da estiagem, no almoço simples, no animal que reconhece quem dele cuida, na conversa ao entardecer.

Ao longe, o São Francisco também parece confirmar aquela sabedoria. Em sua longa viagem até o mar, o rio encontra pedras, curvas e barrancos. Nem por isso retorna. Contorna o que pode, enfrenta o que precisa e continua. Damião e Ana fazem o mesmo.

Por isso, quando releio A Arte da Guerra, penso que existem livros que não precisam ser conhecidos para que seus ensinamentos sejam praticados. Sun Tzu escreveu sobre estratégia há mais de dois mil anos. Damião e Ana a praticam todos os dias, sem livros, soldados ou exércitos.

Na Fazenda MuSilva, quando Damião abre a porteira e Ana abre as janelas da casa, ambos parecem repetir uma antiga lição: a vida sempre terá suas batalhas. A verdadeira sabedoria está em vencê-las sem permitir que nos roubem a felicidade.

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