OS...

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Caluda, qdo recebia o salário, contava e recontava cédulas e moedas nas coxas, no colchão. Já Prevento, qdo recebia o salário, mergulhava noite adentro, cercado por garrafas de cerveja, caipirinha, fatias de queijo meia-cura, azeitonas. Caluda olhava muitas vezes o dinheiro, moedas amontoadas no travesseiro sem fronha. E as garrafas de cerveja espalhadas pelo chão.
Cada dia de pagto, longínquo, outra galáxia distante a anos-luz do quarto, da cama, do colchão, do travesseiro. Os dias arrastavam-se, e as semanas eram lentas. Caía o temporal de contas atrasadas. Caluda em pânico. Na penumbra, ela assistia o fim do mundo mês a mês.
Era uma chuva de torneiras abertas q se derramavam sobre Caseína, feito sangria desatada sob o olhar indiferente do vampiro. E os usuários em coletivos enfrentavam ruas, trafegavam por elas, percorriam km indo e voltando.
Os trios elétricos nas praças:
Vivemos tateando a palavra e ela some no escuro, igual a um vampiro.
A palavra simplesmente n vem qdo mais a gente precisa dela.
N vem, pq o medo a faz fugir do jeito q se foge do vampiro.
A palavra q a gente quer dizer e n diz... N diz pq ela sabota a fala da gente.
Igualzinho ao vampiro.
Diga q a moralidade estabelecida ainda n descambou pra amoralidade.
Os... – corpus de muitos tentáculos – e a sua luta nas redes pra combater o vampiro q chegava, sentava-se num banco, sugava, a vítima descia do ônibus zonza, mordida, e vendo td em pb; e ele se esgueirava nos ônibus urbanos, como se nunca tivesse existido. As vozes nas ruas:
Cê entra no busão, meio travadão, cara.
O vampiro pode tá em qqr banco, cara.
Vai saber, cara!
Tipo assim, cara...! Cara, eu procuro a palavra e n encontro, cara.
Tô bolado! Isso acontece comigo tb, cara.
O muro invisível tá ficando visível d+, cara.
Na época, surgiu o movimento nas redes q combatia ataques de vampiros. A iniciativa foi motivada por municípios abaixo de 50.000 habitantes. Os grupos nas redes autorreferenciados de Os...
Bora quebrar os caninos deles, cara!
A gente n sabe se eles são um. Tá ligado, cara?
Esses grupos alimentavam a rolagem contínua de conteúdos de ataques ao vampiro em banco de lotações urbanas, q se esgueirava a plena luz do sol e tb à noite, como se nunca tivesse existido. O conteúdo dos grupos, q combatiam nos streamings vampiros, era, peremptoriamente, negado pela Mídia Primeva. Advérbio indicava, no alto da classe q ocupava a palavra, ser inverdade dita de maneira descarada pelos Grupos Os...
Ataque de vampiro, no entanto, permanecia na inquestionável função poética movida pelo impulso dos passageiros. A gente se protegia antes de pisar o primeiro degrau ao entrar no busão, disse Caluda. A ficcionalidade ficasse por conta da Mídia Primeva.
Ela seguia acompanhando, nas redes, a turma autorreferenciada Os...
Todos q faziam parte da Mídia Primeva, disse, garantiam aos assinantes q vampiro n passava de criação de cabeças iluminadas por mundos imaginários.
E, na salinha do café, ninguém falava de vampiro. Era tema de demissão por justa causa.
Porém, só personagens inventados, narrativas construídas conseguiam a façanha de despertar o medo na população q dependia de ônibus. Mas Caseína parecia infestada por vampiros.
Os murmúrios sobre o vampiro na salinha do café:
A condição humana tá em perigo? quis saber Fedra.
Falasse... Psiiiiiiiiiiiiiiiu...! murmurou. Baixinho! ralhou Medeia.
E a Semiótica? disse, sem tirar a luz azul debaixo dos olhos.
N veio trabalhar hj! rolando o dedo.
N?! Tem mto o q explicar. Apresentou atestado? disse com um muxoxo.
Alguma enfermidade laboral...! comentou. E o CID?
Tb faltou.
Os noticiários, sabe, da Mídia Primeva, sabe, permitiam múltiplas, sabe, né, leituras, símbolos, né, interpretações...
Os conteúdos nos Os... consumidos em tempo real.
Não passava de mera fantasia, delírios de caça-níqueis, denunciavam as mídias primevas. Essa gente vive do fluxo contínuo de atualizações na tela inicial das plataformas. Os servidores ajudaram a semear as opiniões q devoravam os fatos, mastigava-os e cuspia o bagaço.
Um dos apresentadores, na rede de mídia primeva, apresentava a notícia q chegava do repórter Circunlóquio, q acompanhava os trios elétricos.
Todos nós viemos do milênio passado.
Todos nós viemos do milênio passado?
Todos nós viemos do milênio passado...
Todos nós viemos do milênio passado!
Todos nós viemos do milênio passado, viemos do milênio passado, todos, todos nós viemos do milênio passado.
O Sr. Monólogo negava o ataque do vampiro no ônibus da Praça Central. O repórter Circunlóquio confirmava o q disse o Sr. Monólogo.
Pode falar o q houve? apontando o celular no rosto da passageira, disse o repórter Circunlóquio, nas primeiras horas da manhã, ao mandar a imagem ao vivo ao Sr. Monólogo.
O repórter Circunlóquio resumiu assim a entrevista:
Sem uma coisa n existia outra coisa, pq a coisa só era coisa qdo essa coisa permitia à outra coisa ser coisa; nesse negócio, o negócio era só negócio da coisa q só pode ser uma coisa nesse negócio.
Agradeceu o Sr. Monólogo ao repórter Circunlóquio. Despediu-se:
Se aparecerem mais novidades na Praça Central, Circunlóquio, tá à vontade pra comunicar à redação. E seguiu com as informações matinais:
Ao ser perguntado pela Lembrança, Figurão viralizou qdo disse adeus à Lembrança; ela tá armazenada em algum lugar por preço barato. N precisamos mais da Memória; tem alguém q guarda ela pra gente.
Figurão disse, por fim. Abro aspas:
– Era o q eu tinha a dizer.
– Mais perguntas, senhor, mas...
Foi o q Figurão disse, por fim. Fecho aspas.
Talvez Prevento n fala mais comigo p q eu n tenho mais palavras? Talvez. Perdidos, a gente fica olhando sem palavras. Chega sem nenhuma palavra e sai sem palavra nenhuma.
A ordem era quebrar os murmurinhos na Firma VucoVuco. Patacoada, o gerente daqle andar, ouviu Tálamo e Prevento.
Tálamo, amigo de escola de Prevento, disse, na salinha do café:
Souberam?
De q?
Do desaparecimento de Sináptica!
Caluda olhou em direção a Tálamo e baixou a cabeça. Prevento piscou e ela n lhe retribuiu sequer com um riso de canto de boca. Correu uma água nela, nele um arrepio. Patacoada aproximou-se dos murmurinhos, q cessaram.
Caluda era pequena quão um botão, qdo seu avô lhe cobria de mimos. Ela desenhava dinossauros q deixava o avô impressionado.
O espaço dela era coberto de lápis de cor, papel pardo.
Como Caluda desenhava! Cada risco era o relevo do São Francisco desde a Serra da Canastra à Praia do Peba.
O avô de Caluda, ainda jovem, por causa das desavenças com vizinhos, fugiu de Xaxanã. Foi-se, armado de foice, refugiar-se na casa da mãe biológica em Caseína, q n o via desde os cueiros. Durante a primeira trovoada, madrugada ainda, travou-se uma conversa, q se despencou em exasperação e terminou com a neta e o avô expulsos da casa. Abraçou-lhes as ruas escuras, esburacadas e fedorentas da cidade com paredes de vidro e estrutura de ferro fundido. 
Caluda exasperou-se ao n se lembrar mais, mas se a palavra exasperar fosse substantivo ou advérbio, verbo ou pronome. E se fosse escrevê-la, como a escreveria, como escreveria a segunda sílaba, p. ex., com /z/ ou com /x/; mas com /x/ n podia ser... E aqla polissílaba estragou o seu dia. O ódio lhe derreteu o pavio em chama. Com os braços em formato de travesseiro sobre a mesa de trabalho, tombou a cabeça. Os olhos marejaram em Caluda.
Fedra sentou-se:
Posso me sentar aqui, Calu?
Fique à vontade, Fé.
Achei q tivesse ocupado! disse mergulhando o pão doce no copão de pingado às avessas. Meteu a boca, a fita de café escorreu pelos cantos dos lábios lhe roubando o batom carmim.
Com piercing no nariz, lábios e orelhas... No ponto de ônibus, desde cedo, a vendedora de bijuterias estendia o braço com a maquininha e recebia o Pix. E as cartilagens se enchiam de joias.
Voz de chuva cem vezes sobre telhados das casas periféricas. Uma chuva tardia e fraca. Miúda. Os pingos pareciam notas musicais desencontradas e sem pauta nem clave de sol.
Soube, esses dias, de imagens holográficas guardadas pelo vô.
Sem parar, rolava o dedo. A sedutora luz azul n abandonava o olhar de Caluda – presa à telinha, refém da pressa.
Vô surgiu das águas da lavadeira Filodoxia. N sabia. Ele nunca me falou.
Queria ter conhecido a lavadeira Dona Filodoxia, q carregava sua vida cantando loas nas margens vãs do rio. Só. No vazio da hipermodernidade. Seu ganha-pão era o som d’água.
Só queria prevenir! disseram as folhas à beira do rio.
A culpa dói no controle das pragas? perguntaram as raízes.
N fiz pq quis, fiz pra repelir! justificou a terra, q se deslocou aos pulos, a pedido das fortes chuvas.
Primeiro, a agricultura reclamou; tempos depois, foi a vez da população; e, por fim, a indústria. O q fazer com as águas? disseram os peixes sobreviventes sem obterem respostas. O rio foi privatizado em plena crise hídrica. Meses após, o esgoto substituiu o q se chamava, em Caseína, de água potável.
Dona Filodoxia mãe-d’água. E Dona Filodoxia foi o chuá naqlas pedras do rio, q o esgoto matou. Nas margens, o pesticida engrossou as águas, solidificou, depois as tornou pastosa. N cantasse loas, Dona Filodoxia, nas margens vãs do rio. O rio morreu, Dona Filodoxia.
Em sua erudição de bela lavadeira, Dona Filodoxia, coberta pelo perfume das flores, das figuras de palavra, q adorava repeti-las nas longas e frias orelhas do vô. Ela derramava nele, como cachoeira, palavras associadas ao significado, pq semânticas.
Dona Filodoxia e o vô, deitados na cama, na grama, no sofá invadido por pensamento cheio de contraste e combinação. Em construção, Filodoxia descia a mão sobre o corpo, como mostravam imagens holográficas perdidas no quarto e escalando as paredes, alterando a estrutura gramatical dos corpos. As figuras de som abafavam o dia, mostradas em repetitivas e banais imagens holográficas guardadas pelo vô.
Como era bela a juventude da lavadeira Dona Filodoxia! repetia Caluda a cada imagem, q se movia e movia as paredes no quarto, movia a cama, girava o tempo, parava a chuva, interrompia o intenso frio no coração de Caluda. Como era bela!
As imagens escassas de palavras nos livros, repelindo os leitores. Caluda navegava nas derradeiras palavras dos livros; optava tão só por imagens coloridas, q preenchiam o silêncio permanente em seu quarto úmido e miúdo, em sua rua escura e esburacada.
Em sua erudição de lavadeira, Dona Filodoxia, lavava roupas de ganho, engomava, passava na hipermodernidade. Eterno vazio.
Dona Filodoxia com essa sua fala de tom barroco, e com esse seu velho hábito lusitano, quarando sob um léxico gongórico. Dona Filodoxia tomada por td a água do rio – já n corre, o rio parou de viver. Tornar a água do mar potável ficou mais barato.
Caluda sorriu como há muito n sorria:
Ela vai lavando roupas de ganho, como mostra as imagens holográficas. Atraída à sensibilidade aparente, a lavadeira Dona Filodoxia ama enlouquecida. Ignorando, pois, propositalmente as próprias opiniões, todos os fatos ignorados pq td nela era irrefletido.
Uma penumbra no quarto, o suficiente durante aqla noite de chuva.
Td parece opor-se ao q lhe traz. E td isso só amor q nela sobra.
Dona Filodoxia alheia à verdade, à ciência, à escola.
Passavam os barqueiros em seus olhos calmos. Passavam pescadores. Dona Filodoxia viu passar o ectoplasma de canoeiros admirando seu labor de lavadeira presa aos fardos de roupas alheias.
O rio da época do vô seguia a solitária jornada. E mostravam as imagens holográficas na estrutura narrativa das águas.
Caluda ainda n sabia, mas ela era prisioneira perpétua dos pensamentos.
Em Caseína, todos passaram a ser vítimas, n só do vampiro q se ocultava nos bancos dos ônibus urbanos, mas da afasia volitiva.
Eu queria dizer... Me ajuda. Aqla palavra. Eu a vejo e n expresso! disse Fedra à Medeia, na salinha do café.
N será o pó do ócio?
N! atalhou. Parece, mas n, essa n. Diga outra.
A cidade parecia ter perdido o poder da fala.
N havia impedimento aparente qto à linguagem, havia qto à fala. Como se tds tivessem perdido a capacidade do uso das expressões. Buscava-se a palavra e n se conseguia encontrá-la, mesmo qdo ela se encontrava diante dos olhos. E Fedra sabia exatamente o q dizer à Medeia sobre Prevento e Tálamo, pq ouviu eles comentando sobre a colega Caluda.
Enqto Caluda amontoava as notas do salário, cantarolava “Alabama Song (Whisky Bar).”
São babacas! ela disse. N sei p q histórias de vampiro são amplificadas.
Rolou uma moeda dourada, entre tds aqlas moedinhas gastas. Ela tentou pegá-la, e a viu sumir debaixo da cama. Foi qdo lhe veio aqla imagem de Crível, q andava há mto circulando nas redes.
Com a enfermidade do Sr. Fato e a popularidade da Sra. Opinião, Crível perdeu a crença de q o vampiro, feito carrapato, n só lhe esperava em banco de ônibus, mas debaixo da cama. Caluda viu a sombra da Verossimilhança escalar as três paredes de seu quarto.

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