Com o peso da cidade, mal conseguia respirar. O sol quase n aparecia. A ameaça de um vampiro sentado ao seu lado era constante.
Na firma, disse Fedra, uma colega de trabalho, desconheço alguém dar o sangue nesse empreguinho de quinta mais do q Calu.
Caluda suava e reclamava entre dicionários, jornais velhos, enciclopédias, mapeamento e respectivos códigos. Além das unidades temáticas e dos objetos de conhecimento.
O uso do acento grave ainda indicava a crase? Em Caseína, à pressa era somente uma locução adverbial de modo.
O conflito de Caluda era com a pronúncia de uma letra específica entre vogais. Nexo com som de /ks/, já inexorável com som de /z/. Seguia digitando. Sexo. Axila. Fluxo. O fonema zumbia ou era o vento? O prefixo e o sufixo n se toleram desde àquela época de escola. O vento fazia parte de Caseína; ela foi gerada por ele.
Caluda exorava à toa. Os dedos no teclado. A cadeira n ajudava. N tirava os olhinhos da luz azul. Como lhe doía as costas, disse à colega Fedra; naqla posição o dia inteiro.
A firma era inexorável. Chovia súplicas; nas sarjetas, corriam os rogos.
Ao lado de Caluda, Fedra de braços cruzados. Há anos esperava ganhar, disse à colega Ino, o q Calu ganhava.
Medeia pigarreou. O riso dela n lhe chegava ao azul dos olhos:
E receber tão pouco por esse serviço chinfrim! comentou diante da mesa de trabalho de Caluda. E apertou o mouse até quebrá-lo.
No dia em q Caluda deixou o serviço de limpeza e iniciou no departamento de digitação, Fedra, que nem pedra, murmurou “parabéns” e, no dia seguinte, a primeira sala q entrou e desconfigurou a máquina foi na nova sala de Caluda.
Como tá o pet?
E o seu?
E o meu?
N vivo sem o meu.
Como é fofinho!
Prevento entrou na sala de Caluda e outras dezenas de funcionárias. Os olhos dela nunca mais pararam de olhar à altura dele, e ele olhar o pão de açúcar dela.
Caluda sempre com o aluguel atrasado. E favores ao síndico pra manter o condomínio.
O mês era uma demora mais longa se comparado a um semestre. Juntava as sobras e elas nunca alcançavam o valor da secadora; o mofo destruía as poucas peças de roupa dentro da caixa de plástico.
As grandes vitrines, Caluda nem se arriscava a olhar. E optava em comprar agulha e linha em lugar de roupa nova. Ela desmanchava à noite o que produzia durante o dia.
Q é aqlo? perguntou Medeia. A palavra tá bem aqui e n consigo dizê-la.
Aqlo o q? disse Ino na salinha do café.
O dia era uma mancha espessa de tinta branca ql uma folha de papel.
Q troço é aqle, gente? quis saber Fedra.
N sabe q coisa é aqla, Calu? insistiu Medeia. A palavra vem aqui, aqui... e n sai.
Q negócio é aqle, pessoal? aproximou-se Ino do janelão.
O setor da firma, no trabalho de Caluda, segue por um longo corredor de paredes estreitas e sem luminosidade com a identificação de arquivo-morto.
Prevento, no andar superior, manipulava narrativas. Nove andares abaixo, atrás da mesa de vidro, cópia das dezenas cercadas por tapumes de polietileno, Caluda manuseava os dicionários e as enciclopédias em desuso.
Caluda passou a mão no rosto.
O movimento muscular involuntário tinha início em torno dos olhos.
A palavra perdia-se entre as paredes de vidro na cidade presa à estrutura de ferro fundido. Caluda, outra vez, arrastada pelo sono, atrasada; os passos, disse, nunca compensam à pressa.
Adiante, a vírgula separa o adjunto adverbial de causa.
Com a ausência de palavras, as pálpebras tremiam.
Esse era o primeiro sintoma de alogia severa; o próximo seria a expressão fixa à tela azul naqle filete portátil q se comunicava com o mundo. A ausência de palavras seria inevitável; na firma, Caluda acompanhava isso diariamente.
Pele em torno da boca de Caluda, provocada por cacoetes, era repuxada; mesmo assim, a simetria de seu rosto n ficava assimétrica. Semicerrava os olhos ao aproximar-se do portão principal onde encontraria o totem.
Ela mordeu os lábios e os feriu. Esfregou a mão nas linhas q se formaram em torno da boca. As câmeras a acompanhavam. As suas sobrancelhas subiam e desciam, enquanto escalava os últimos degraus após deixar o elevador.
No trajeto, Calu ouvia comentários:
O mundo chegou à Época da Infantilidade.
Me perdi.
A semana comeu a si mesma; ela foi reduzida a três dias. Só o sábado foi preservado. Nela ficou o sábado, o dia futuro e o dia passado.
Ao final de uma semana vinha a outra?
N sei onde tô.
Ah!
Tô cansado.
É muita coisa.
Tô com sono.
Aquecimento das águas do Oceano Pacífico. O mundo era um vastíssimo oceano pacífico?
Caluda se perguntava, no elevador, como a mulher dos olhos verdes vivia com o homem magro. Ela ia pra cama com ele, abraçavam-se ou dormiam de ponta cabeça? Corriam formigas no rosto de Caluda.
E esse grupo barulhento inda consegue trabalho? disse baixinho Caluda dentro daqle odor de ferrugem entre as escadas de acesso à sala onde revisava enciclopédias e dicionários.
Grécia. Mitologia. Caluda contou os caracteres sem espaço, com espaço. Correram os olhos sobre as linhas. Digitou:
Mitologia grega. Ciúme. Ambição. Intrigas.
Ela olhou. Viu na tela os olhos do avô.
O q faziam na tela os olhos do vô? Uma das mulheres dele lavava roupa suja na rua, no rio devorado pelo esgoto.
Os dedos voltaram à digitação:
Mitologia grega sobre ambição e ciúme. Montanhas de intrigas. E famílias destruídas por mentiras. Gerúndio mentindo, particípio passado mentido, mentir no infinitivo, irregular e intransitivo. Eu minto. Tu mentes. Nós mentimos. Q eu minta, q tu mintas. E se eu mentisse, e se tu mentisses? E por mentir eu. Por mentirdes vós. O mito. A madrasta. O conto. A fada.
Caluda foi à garrafa d’água, q ficava no chão. E comentou alguma coisa ininteligível sobre o avô. Voltou a digitar:
Vieram à mitologia grega figuras. Os rostos esculpidos a facão, não à faca. Adoráveis madrastas. Medeia de Corinto. Olhos profundos, lagos, mandrágoras. N houve clemência aos filhos? E vós n mentíeis? Tu mentiste, ele mentiu. Tu mentiras, ele mentira. Eu mentirei. E tu? Mentirás. Eu mentiria. Tu n mentirias? Corresse ao Rei Egeu de Atenas. Teseu, Teseu! a herança berrou, criou cabeça e braços. Na taça transbordava o veneno. Adorável, adorável madrasta.
Mais água correu garganta abaixo. Caluda respirou forte.
Ágeis dedos regressaram ao teclado:
Atamante, Atamante! gritou Ino. “Qto ódio por Hele e por Frixo” escreveu o Sr. Mito. Maldade acenou de longe: “Olá, Ino!” Partiu Ino sobre os enteados, e só se ouviu o ranger de dentes, e se presenciou as tormentosas lágrimas. A fome trouxe Ino, q feriu de morte a terra punindo à agricultura. Adorável madrasta, qta mentira, qta devassa! reagiu Atamante. N haverá mais sacrifícios à juventude.
Mais água.
Fedra, cônjuge de Teseu, e tb consorte do enteado Hipólito. Quis a pedra ser palavra primitiva, mãe de palavras derivadas, avó de palavras compostas. Se nós mentíssemos. Qdo eu mentir. Mente tu. O q faz a paixão! disse Hipólito, o Casto. O amor matou Hipólito. Q vergonha, Afrodite! O amor matou Hipólito. A vida dele foi ceifada, madrasta Fedra.
Caluda levou a mão à outra garrafinha portátil. Havia esvaziado a garrafa e a garrafona.
No coração do Olimpo reinava Hera. Naqla era, Hera e só Hera escaneava o Mundo da Termosfera e da Exosfera. Navegava à caça dos filhos do consorte Zeus. Indignada com o companheiro e em busca de vingança, o olhar da furiosa Hera se fixou no bebê Hércules. Espalhou víboras dentro do berço. Hera sequer era madrasta! reclamou Zeus da desgraça, e derramou holograma; os feixes de luz alimentaram Hércules com descomunal força. Hera n sossegava à caça dos filhos de Zeus.
Conferiu o celular 1961 vezes entre a pesquisa e a digitação dos textos.
Caluda saiu por alguns instantes do local de trabalho. Ganhou o corredor infinito e sem luz. Foi à janela, mas viu o dia coberto por extensa camada de tinta branca. Voltava ao trabalho em sua sala e via outras funcionárias iguais a ela trabalhando. Sentou-se diante da máquina:
E aqla figura q n sabia viver sem bolo de morango com bastante chantili? disse ao digitar. Q fazia o magro à mulher dos olhos verdes: tratava-lhe bem ou a deixava plantada no ponto? Digitou mais alguns caracteres. Ouvi coisas sobre eles, no solstício da semana passada, pq essa firma n sabia fechar a boca. Como aqla figurona se lambuzava de chantili... Santo emprego de digitadora! respirou fundo. Diante dos olhos de Caluda desfilavam hordas de valentes tecladores de diferentes gêneros e se dirigiam ao centro da tribuna virtual, redefiniram o destino, suportavam pesadas ameaças e virulentos ataques. A figurinha, q se saciava de chantili, ria à vontade e se lambuzava pelo rosto, pelos dedos, pela mão, pelos braços, pela mesa, pelos papéis. Ninguém vai apaziguar esse ressentimento na boca soterrada por chantili?
Muitos pés se aproximavam da porta principal da firma.
N posso me atrasar! disse Caluda, mas ninguém deu importância à sua preocupação.
O totem escaneia os funcionários dia a dia – na entrada e na saída. Era uma calma de cemitério. Nem o Cemitério Ortográfico parecia ser tão calmo. N se ouvia mais falar dos primos Luciferina e Luciferato. O q houve com eles? Será q foram tragados pelo silêncio do cemitério?
N posso. Vivi na casa com o vô, uma gatinha e os socorros dos vizinhos. Um lugar de poucas paredes, nenhum reboco, toda forrada de carrapatos; eles foram deixados por inquilinos anteriores. Vô n conseguia, ele disse, tirar a gente dali. O vô só mudou dps q começou a aparecer na rua cabeças cortadas.
Mais pés atrás dos pés de Caluda. Eles tinham uma pressa desconhecida na celeridade q se costumava presenciar em Caseína.
Havia sempre um vampiro à espreita.
“Atração à tragédia equivalia ao sabor do alimento. Só a fome sabia ql era o valor do prato” – estes dizeres permanentes nos corredores da firma, cujos pés acelerados sequer os lia por chegavam quase sempre com atrasos pelas longas distâncias em Caseína, e tb pela precariedade dos meios de locomoção.
N, n posso me atrasar.
O totem reconheceu os olhos, o rosto triangular, a cicatriz na sobrancelha dir., a boca, o cabelo castanho e ondulado, os dedos finos e longos, a tatuagem no pescoço, o nariz, a simetria q harmonizava o q Prevento chamava de pão de açúcar – qdo Caluda preferia pão de queijo.
Na salinha do café, Caluda começou o bate-papo entre as colegas. Estas lhe mostraram as recentes e sutis tatuagens. Caluda perguntou-lhes:
Acabou o bolo de chantili?
As formigas devoraram o açúcar.
E o docinho acabou?
Ontem, se acabou o q era doce.
Nem percebi.
Até q durou bastante, né.
Eu n sabia.
Mentira.
Café sem graça.
Ah!
Esse cara é estranho, né.
Já deu o horário.
Já acabooou?
Caluda saiu.
Q foi aqlo? uma colega sussurrou.
Calu tá grávida? outra esboçou um riso trocista.
Jááá...? debochou a terceira, q espremia a máquina de café e rogava por mais algumas gotas de cafeína.
Quase ninguém via mais TV. O rádio resistia; talvez por causa de música! disse uma q trouxe mais cápsulas de café.
Q tipo de música?
Um tipo q n se diferenciava de microplásticos nos oceanos.
Se tiver mais alguma novidade, disse um jornalista a outro na TV presa à parede na salinha do café. O repórter havia, com o cinegrafista, noticiado uma vala na rua, um buraco noutra e um gato na árvore.
A reportagem ignorou a floresta em chamas. Partículas microscópicas de resíduos plásticos navegavam nos oceanos.
A TV continuou ligada. Muda. Mostrava torrencial chuva ao lado da seca com carcaças do gado, cujos ossos refletiam o sol; sequer urubus encontravam forças pra alimentar-se da próxima vítima. Na barra horizontal do rodapé na tela corriam frases com severas acusações ao El Niño.
A turma de Caluda reunida. Na salinha do café, os grupinhos se reuniam. Os grupelhos assistiam de longe. Os risinhos entre os cochichos:
Ali, a turma dos gagás. Lá, os delirantes.
Acolá, os senis.
A parte sã circundava a cafeteira.
Caluda regressou à mesinha de trabalho, aos dicionários e enciclopédias, cujas páginas, quase todas grudadas umas às outras, eram folheadas com luvas apropriadas, iam direto à digitação daqles dedos finos, longos e rápidos. Após o cafezinho, ela voltava a alimentar o app.
Um grupelho aqui, ali outro. Ouvia-se de um:
A grande pirâmide de Gizé é minha.
Ouvia-se de outro:
Até amanhã, o Monte Everest vai ser meu.
Engravidava-se a salinha do café expresso. A gradação dessa linguagem entre grupelhos subia o Monte Chimborazo. Só se escutava até a oitava palavra; e três segundos depois, perdia-se qualquer interesse nas grandes conquistas.
Critério de falseabilidade calçava a ciência. N apenas em Caseína, outros lugares também chegavam à mesma conclusão.
Caluda trabalhava na sala de metadados. Na sala anexa se trabalhava com documentos de texto. Ela preferia lá do q aqui.
Em ambos os lados do corredor havia salas. O verbo impessoal ocupava uma sala; na outra, a junção da preposição /a/ com o artigo feminino /a/; adiante, a sala do setor de pesquisa; à frente, o q era chamado de ininteligível.
Uma colega só sabia sobreviver se se mimetizasse na outra.
Eu já te falei q a gente só sabia q dormiu dps q acordava?
N falou. É vdd?
Precisava te falar q a gente só sabia q viveu dps q morresse.
Na salinha do café, dificuldades comercializavam facilidades. A sensação era de que o cérebro nunca desligava; avançando o Chimborazo, noites e noites insones gerando um cansaço profundo.
Ontem, foi uma tragédia.
Outro dia, fizeram disso uma comédia.
Hj, se acabou o que era doce.
Vozes alteravam-se entre os q compartilharam o mundo das palavras. A gradação elevou o tom. Súbitos gestos destruíram o q estava em volta e, por fim, a fúria pôs todos em pé de guerra.
A intolerância asseverou-se com cara de mau, além do bem e do mal; ela reagia contra o ritmo lento. A única q lia livros na empresa era Caluda, q assistia a filmes longos com certa paciência ou às aulas dos tutores apresentando um novo app.
Caluda lia em cada folha a altura de Prevento; nos textos, as palavras dele e nos tipos informativos/expositivos dos dicionários e das enciclopédias. Porém, a enxurrada lhe sugava cada vez mais; o texto escrito sabotava cada iniciativa e a fazia navegar nas linhas – começar, parar, recomeçar, paralisar, executar, ir e vir – e em seus contextos.
Porém, todo e qqr /porém/ de Caluda surgia feito servidão de uso – uma conjunção adversativa – precedida de vírgula, pq ela introduzia à sala de trabalho a ideia de oposição, às vezes de contraste, q dava no mesmo, mermo, memo ou meme. Adorava, pois, mimetizar o inimimetizável. A vírgula de Caluda, na visão de Prevento, ocupava o espaço anterior à palavra.
Q isso, Prevento! pasmou Caluda.
Ora, ora... disse por dizer, como se dissesse conectivos desses q ligam a primeira oração à outra oração no rosário das orações.
Timidamente, Caluda anuiu. Olhou o chão. Seguira em frente. Deixou o corredor, atravessou a porta da sala.
A Firma VucoVuco não parava de produzir. Apareceram braços, coxas e pescoços com tatuagens de vampiros. Mas a reação – com o q se convencionou nomenar Os... – foi imediata. Ainda muito se ouviria de falar sobre Os...
O dedo de Caluda corria na linha fina dos velhos jornais impressos. A mão passava sobre a diagramação. Voltava à sequência de caracteres. E tropeçava em outro trecho de texto. Era o seu horizonte.
Como Jocoso ganhava dinheiro!
Formavam-se nuvens, às vezes lapsos de esquecimento e perda de foco. Os olhos de Caluda pulavam a próxima linha, pro próximo pensamento, antes de fixar a linha de seu horizonte.
Busólogos passaram a estudar esse fenômeno atribuído a vampiros.
O bruxismo visitava os raros sonos de Caluda e das outras funcionárias – era o q se ouviam na salinha do café. Tensão. Dor de cabeça. Olhos carregados de ressentimentos, a boca demonstrava amargor, e os rostos pareciam retorcer-se feito plásticos na fogueira das vaidades.
No andar em q Prevento trabalhava, ele foi interrompido por seu superior:
Venha cá, Prevento. Imediatamente. I-m-e-d-i-a-t-a-m-e-n-t-e!
Contraíram-se os músculos da mandíbula.
Q foi, sr.?
O q se faz com a mentira?
N sei, sr.
Lave-a!
Só?
Enxague-a.
Tem como?
Use-a outra vez. Haverá spre lugar à mentira.
Sério?
Ela é tão atrativa.
Atrativa? Ouço falar.
E sedutora. Ela foi levada ao derradeiro andar.
Suj supra-adaptável.
Suj supra-adaptável?
Suj supraconectado.
Aaah...!
Daqui até a ionosfera, passou a ser exigência implícita o pouco ser muito.
E o muito?
Sumariamente abolido.
Iniciamos há uma semana com o fim do texto manuscrito e da leitura em papel.
E o papel de Caluda?
Qm trata dessa hipocrisia são os andares abaixo do nosso.
E Caluda?
E Caluda, e Caluda, e Caluda! Agora é só copiar e colar.
E a criação? Caluda...
Subjetividade criativa foi comprimida à competitividade desleal.
N desumaniza?
N vês a desumanização, mas o nascimento de outro gênero humano.
E como fica a certeza?
Ela foi elevada ao máximo grau de absoluta, né. Ficou proibido duvidar, né.
Ficou?
E o último pensamento crítico morreu por inanição.
E como sabe?
Saiu ontem numa notinha escondida no rodapé da Decida.
O q pudesse ser reduzido na escrita, era reduzido sem constrangimento, desleixo ou incapacidade aparente em diferenciar assessor de acesso. Primeiro na escrita, depois na fala.
Sem q se percebesse, sons com significados compartilhados começaram a ceder aos sons abstratos. Era como se o corpo humano sofresse mudanças q forçassem o trato vocal, perdendo o uso de vogais e consoantes na formação das palavras.
Diagnosticado de alogia severa. A comunicação, q era trivial em Caseína, reduziu-se às expressões faciais e com as mãos, como se a pressa obrigasse a comer as letras, as sílabas, palavras inteiras. Onomatopeias prevaleciam nessas comunicações. Nos diferentes lugares de morada, quer nas praças, nas ruas. No trabalho, as palavras se converteram em sons q representavam tão só a reação imediata.
Sr. Maicéuf fiscalizava o trabalho de Caluda. Ele só tinha olhos pra ela; foi assim q tirou dos seus dias as luvas, o balde e o esfregão, e lhe deu o teclado.
Alguém se recusasse a ser monossilábico, o grupo em sua volta rotulava de pedante. Sem q pudesse ser dividida, a comunicação se reduzia a uma única emissão de som.
Mas isso era quase imperceptível, disse Caluda, pq conhecia e dominava a habilidade da língua. O pai de Caluda, q era mecânico de máquinas pesadas, diagnosticava o mau funcionamento delas apenas pelo ruído.
Caluda possuía o domínio linguístico; e a mãe, segundo lhe falava o pai, pq ela n a conheceu, atribuía a um dom recebido pela filha ao ter nascido laçada. Ela mesma se surpreendia ao buscar uma palavra e n conseguia encontrá-la. No meio das frases, era vã a luta contra si mesma – fugiam as palavras; queria falar e n se lembrava delas e, ao tentar substitui-las por outras, também n encontrava nenhuma daqlas por mais q tentasse, e antes as usava com frequência.
Medeia encontrou-se com Caluda:
Quais as novidades, Calu?
Novidades? franziu a testa, como se se encontrasse ante do Sr. Maicéuf. A conjunção se desenhou no rosto dela, era subordinativa condicional, pelo visto; a conjunção e a partícula integrante do verbo pronominal.
“Como Calu era pedante!” – murmurou Medeia. E insistiu:
As mesmas de ontem, as futuras ou nenhuma novidade?
Chegou outra colega de trabalho. Era a prima Hera:
Q tempo nojento!
Ino aproximou-se. Em seguida, foi a vez de Fedra.
Soube q moravam juntas! disse Hera.
E dormíamos na mesma cama! respondeu-lhe em uníssono Ino e Fedra.
Caseína, àquela manhã de junho findo, respirava o ar de iminente colisão de blocos rochosos na crosta terrestre. As paredes de vidro e a estrutura de ferro fundida prometiam resistência.
Grandes mineradoras tranquilizavam os moradores, q mantiveram a rotina nos busões. Mas Caluda n tirava os olhos da luz azul; a devolvia ao bolso de trás de sua calça jeans e, movida por insegurança e contração involuntária de desejo incontinenti e infantil, voltava a trazê-la.
Caluda sentia-se à vontade ao rolar. N suportava parar por três segundos. Ela queria alcançar o q Jafar procurava trocando lâmpadas velhas por lâmpadas novas. Os dedos acelerados sobre a tela de compostos orgânicos com emissão da própria luz.
Já esquecemos o luto coletivo pelo ql a Terra, recentemente, passou?
N Hera.
N é pra esquecer! disse Ino.
Um argueiro provocava o estouro da boiada. Uma opinião bombástica era o estopim aceso pra explosão nas redes com proporções inimagináveis. Opinião costumava anelar mais círculos contínuos se comparado ao fato.
Opinião da vez era arroz de festa. A energia cinética da opinião no estouro da boiada criava ondas mecânicas em forma de círculos concêntricos. Perdia a força tão só ao encontrar mais arroz de festa.
Redes alimentavam-se de eventos pessoais q interpretassem a realidade. A inanição n poderia surpreendê-las. E seguia o movimento circular convertendo a energia cinética em energia mecânica.
Ondas circulares e ricochetes mantinham a tensão superficial nessa cama elástica na ql pulava Caluda com o espelhinho à mão. À procura de Prevento, mas ele era a pedra quicando; nada parecia penetrá-lo, disse Caluda.
Acreditava Caluda, só de vez em quando – na pressão hidrostática –, pois P = d . g . h lhe revelaria a pressão total entre opiniões instantâneas e o casual relacionamento com Prevento.
O espelho nunca lhe traiu. Gastaria toda a fortuna q lhe chegasse às mãos pra atrair Prevento. Era inveterada em jogos de azar. E daí se n desse em nada! disse, e deu de ombros. Qm se preocupava com placas tectônicas qdo Prevento n me deixava a cabeça em paz! Só n queria ver abaixo o prédio no fim da rua.
O boi de piranha da vez spre apagava o escândalo em voga nas redes.
Alguma coisa invadiu áreas do hemisfério esquerdo do cérebro de colegas de trabalho, disse Caluda. Comparações, ao folhear dicionários e enciclopédias, identificaram a perda gradual de usar as palavras.
A linguagem, q Caluda conhecia, tava sob ataque! Hera debochou.
Vou escrever, Hera, e já n consigo! atalhou Fedra. Sei o q quero, amiga, e n consigo dizer. A palavra n vem nem a pedradas. A palavra tá a...q...i na ponta e n sai.
Montar frases tá se tornando um tormento pra mim tb! disse Ino. Confesso.
Me vi começar a falar e falhar. Simplesmente os sons n saem. As palavras se perdem, criam asas, desaparecem.
Caluda, no ponto de ônibus, via todos os rostos iluminados pela luz azul. Perguntas, q eram respondidas com 94 caracteres sem espaço e 101 caracteres com espaço, recebiam a resposta com três caracteres sem espaço e quatro com espaço.
Aonde foram parar as falas das pessoas, no ponto de ônibus, floridas com informações coloridas e viçosas? O conteúdo empobreceu.
Passava a tripa de ônibus q levariam as pessoas aos bairros de Caseína. Os silêncios eram longos, dps q passavam os busões.
As ondas de calor oscilavam. Tudo parecia extremo.
O ponto de ônibus, antes comunicativo, olhava atento. Temia a presença do vampiro. Longos silêncios. Nenhuma iniciativa. Preferências monossilábicas preenchiam calçadas estreitas, sujas, esburacadas.
Aqle ali... é Teseu, é Frixo ou Hipólito? Desgraçou-se. Irreconhecível. Dps q a firma dispensou, ele comeu os móveis, comeu o carro, comeu a casa, perdeu a família, ganhou às ruas... Aqle ali... Espero q n me venha pedir dinheiro.
Bloqueio nas ruas escuras. Lentidão na mobilidade. Perguntas raras com respostas curtas. Expressões faciais repetitivas. Os substantivos de mãos dadas com os adjetivos.
Aprendi a ser ciumenta com elas, disse Caluda, q caminhava ao ponto de ônibus. Perdi a ambição, ganhei os truques da manipulação com Fedra. Hipólito, falsamente acusado, foi mandado embora da firma.
Os dicionários e as enciclopédias físicas rareavam, rareava a enciclopédia mental. Caluda com a luz azul abaixo do queixo. Serviço atrasado. E amanhã de manhã, n poderei esquecer, chegarei mais cedo ao trabalho.
A arte da manipulação n tinha me ajudado em nada.
Q conceito tem aqla palavra? N consigo entender o q eles conversam. O medo, apenas ele, me mantém em alerta. Aqle será meu busão? Atrasei. Passou antes de chegar ao ponto. Metrô foi spre promessa a perder-se de vista. Por fim, ouço palavras e n consigo repeti-las; o som se perde.
Hipólito acusou Medeia, inutilmente, de tê-lo envenenado. Hipólito era um funcionário da VucoVuco há quanto tempo! Medeia destruiu Hipólito.
Trânsito parado.
Já n sei como foi o dia de ontem. Foi bom? N sei. Foi ruim? N me lembro. Discurso tá morrendo, como morreu vô.
Percurso interrompido entre memória, fala e palavra.
Já n falo o q ouvi vô falar. A língua do vô, q tb é minha, morreu com ele.
Será q tinha família? Desconfiávamos. O Sr. Maicéuf comia beterraba nos intervalos de trabalho, e tinha os lábios da cor de sangue. Andava lento e atento com aqueles sapatos mocassins de couro de javali. Ele orgulhava-se de dizer ter chegado à VucoVuco com idade incerta, o que as legislações, em tempo algum, admitiriam ser possível. O cabelo dele bem engraçado – isto decerto divertia as funcionárias. Não sabíamos nada de certo sobre a vida dele fora da firma. Tudo era misterioso atrás daqueles óculos com armação de casco de tartaruga na ponta do nariz. Gravou na caneta, q n a tirava do bolso, “Funcionário exemplar.”
Como Ino poderia odiar tanto! Ela era capaz de destruir toda a agricultura da cidade. Como Ino subornava as próprias colegas.
O trânsito era desentalado aos poucos. O trânsito era uma frase longa. E troco os sons; n encontro a palavra certa. Q negócio é esse! reclamou. Q coisa é essa!
Importantes conexões sinápticas engolidas pelo trânsito, q se arrastava.
Vô n parava de falar. Levou a língua com ele.
Fui alfabetizada pela vizinha, amante de pai! disse Medeia à Caluda, antes de chegarem à salinha do café.
O passado spre embaçado.
E a memória cheia de vazios.
Carecemos preenchê-los com lembranças.
Falsas?
Preferivelmente! sorriu Medeia; e apontou o céu. Os olhos dela ganharam uma coloração diferente ao ver descer o feixe objeto. Mas n sabia dizer o q era; n por desconhecer o nome, pq tentava lembrar-se e n conseguia.
ALOGIA SEVERA
ContosMarcello Ricardo Almeida 28/06/2026 - 20h 57min
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