O final da tarde já se despedia quando retornava de viagem pelo interior de Alagoas. O sol, avermelhado, parecia repousar lentamente sobre as margens do Velho Chico, enquanto pequenas nuvens de poeira levantadas pelos veículos dançavam sobre a estrada.
Foi então que o painel do carro chamou minha atenção: um dos pneus perdia pressão rapidamente.
Reduzi a velocidade e, por feliz coincidência, encontrava-me passando por um pequeno povoado às margens do Rio São Francisco. Parei junto à praça principal, iluminada por um único poste que, heroicamente, tentava vencer a chegada da noite. Ao examinar o estrago, descobri o culpado: um prego havia provocado um rasgo considerável. O problema, porém, era ainda maior. O veículo não possuía estepe.
Como acontece em quase todas as cidades pequenas do interior, minha dificuldade rapidamente deixou de ser apenas minha. Em poucos minutos, alguns moradores se aproximaram para ajudar. Surgiram sugestões, opiniões e até diagnósticos improvisados: “borracharia por aqui não tem, não, doutor… Só na cidade grande, a uns vinte e cinco quilômetros daqui.
A notícia não era das mais animadoras. Informaram-me também que existia apenas um local para pernoite: alguns quartos simples no andar superior de uma casa cujo térreo abrigava a padaria, exatamente em frente à praça.
Enquanto resolvia a hospedagem, uma cena chamou minha atenção. Haviam vários indígenas da região reunidos no local. Estavam vestidos de forma tradicional: tangas, corpos pintados com cores vibrantes, cocares ornamentados, tacapes, lanças e flechas. À primeira vista, pareciam personagens saídos de um livro de história, prontos para uma batalha ancestral.
Mas havia um detalhe curioso. Sem exceção, todos seguravam um telefone celular. Aquela imagem singular parecia resumir perfeitamente o Brasil: a tradição caminhando de mãos dadas com a modernidade.
Preocupado com os compromissos que me aguardavam em Maceió, instalei-me no quarto disponível. O ambiente era simples, mas acolhedor. Uma rede estendida no canto trouxe de volta lembranças da infância em Caicó, dos tempos em que o calor era combatido com um bom balanço e longas conversas ao cair da noite.
A única janela do quarto dava para o Rio São Francisco. E foi naquele instante que o contratempo começou a transformar-se em privilégio.
A lua cheia surgia majestosa sobre as águas, espalhando reflexos prateados que pareciam desenhar caminhos luminosos sobre o rio. O silêncio era interrompido apenas pelo canto distante dos grilos, pelo coaxar dos sapos e pelo som preguiçoso das águas seguindo seu curso milenar.
A paisagem interiorana oferecia algo que muitas vezes falta nas grandes cidades: paz. Paz para contemplar. Paz para refletir. Paz para inspirar.
O proprietário da hospedagem revelou-se outro presente daquela inesperada parada. Gentil e hospitaleiro, apresentou-me orgulhosamente o cardápio do jantar e do café da manhã.
As opções representavam verdadeiro desfile da culinária sertaneja: ovos caipiras, queijo de coalho produzido na região, sarapatel, buchada, carne de sol, além de outras iguarias que merecem ser degustadas com entusiasmo, mas também com certa prudência.
Na manhã seguinte, surgiu a solução. Um motoqueiro, único meio de transporte disponível naquele momento, levou-me até a cidade vizinha, onde finalmente consegui adquirir o pneu necessário para prosseguir a viagem. Poucas horas depois, tudo estava resolvido.
Hoje, ao recordar aquele episódio, percebo como a vida gosta de nos surpreender. Um simples prego, perdido em alguma estrada do sertão, alterou meus planos e obrigou-me a uma parada inesperada.
Em compensação, presenteou-me com uma noite sob a luz da lua refletida no Velho Chico, com a hospitalidade de um povo generoso e com uma experiência que jamais teria vivido se tudo tivesse ocorrido exatamente como eu havia planejado.
Coisas da vida. Às vezes, um prego não fura apenas um pneu. Abre também uma janela para momentos que permanecerão para sempre na memória
UM PREGO, A LUA E O VELHO CHICO
CrônicasAlberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras 05/07/2026 - 20h 35min
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