Conte.
A vida da baronesa, no solar, era cruzar os pesados braços na sacada de balaústres. Ver em volta. O pôr do sol no cinturão de serras que se emendava a outros cinturões.
O céu com faixas intensas de laranja, amarelo e tons azulados, em tintas onduladas que davam movimento às nuvens. Em silhueta azul-escura, as serras recortadas contra a luz da sesmaria.
Tons acinzentados no olhar da baronesa. Casas espalhadas pelo relevo. Árvores. Vegetação escura.
Grudada ao solar, esta grande árvore tudo avista, tudo respira e tudo controla sob os tons acinzentados no olhar da baronesa. Ela mantém tudo sob o cabresto.
O impressionismo e o pós-impressionismo provocam-lhe o riso. Planeja a baronesa governar para além do que os olhos alcancem.
Tudo é calmo. Tudo é contemplativo.
Eîrara. Era tarde. Logo anoiteceria. Só. Ágil. Abrigava-se em troncos ocos. Com a última mudança que alterou a normalidade da natureza algo a fez ultrapassar de 1,17 e chegar a um tamanho incomum para aquele gênero. Rápida e atenta. Balançava a cauda, metia o focinho em tudo.
Os cangaceiros Xexelento e Dentedepeixe viram a papa-mel.
Qual é esse teu objetivo, Eîrara Papa-Mel?
É não ter objetivo.
Era um personagem sem rumo...! disse Símile, como quem iniciasse outra aula com uma fábula.
Nossos pensamentos, traumas e memórias não funcionam em linha reta; saltamos no tempo o tempo todo, disse serelepe Eîrara Papa-Mel com aparência simpática.
Dentedepeixe sorriu. E Xexelento cismou da visagem no caminho à Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha. Eram eles os batedores do grupo armado a mando da amada baronesa.
Um dos narradores não confiáveis surgiu no chapéu do morro com os olhos acesos de autoficção. Esses três cangaceiros planejavam separar-se do novo realismo e mergulhar nas fronteiras que pudessem explorar até à medula.
O que é a verdade, disse Eîrara, na verdade, que insistimos em construí-la?
Que peste é isso! saltou de banda Xexelento.
Eîrara engoliu “que peste é isso” do cangaceiro e o amargor metálico tomou conta de sua cara. Ela cerrou os cantos da boca, e os olhos buscaram um ponto de fuga. Lambeu os dentes com a língua, disse Símile, como fazia Dentedepeixe. E as sobrancelhas se contraíram. Eîrara Papa-Mel começou a mastigar o assunto lentamente. Ignorou os cangaceiros que, além dos desvios da norma, garantiam o testemunho da morte do fato.
Eîrara Papa-Mel fragmentou-se.
Vai, Papa-Mel, reúne os seus cacos e forma o quebra-cabeça necessário para compreender a terra pela qual os seus rastros são apagados pelo vento.
O foco narrativo da serelepe Eîrara Papa-Mel corria légua da sequência cronológica.
Adiante, o Foco Narrativo teve uma conversa séria com Eîrara Papa-Mel:
Ouça-me com atenção, sendo que, por mim, ficava fora da Arca.
Não demorou naquele ermo entre a Serra da Onça e a Serra Desvanecer, e os batedores do sexagésimo quarto grupo armado da baronesa surpreendeu Eîrara roubando o mel de abelhas olhos-de-fogo, que se expressavam com falas teatrais.
Siga a narrativa, Eîrara; seja tradicional.
Não sejo! recusou-se; presa ao ninho de hibridismos no favo de mel.
Vosmecê é prosa ou poesia ou teatro ou as três ou é apenas visualidade?
...Animalzinho territorialista.
Não! protestou Eîrara Papa-Mel. Eu apenas me encontro em fluxos.
Que fluxos? Não me diga que eles são universalistamente universais.
Não! garantiu-lhe. Isso eu não digo, nem sob algum castigo; e mesmo em perigo ou na corda bamba dos versos, caso eles alcancem perfeição matemática e fonética:
Eu rogo, ó Musa Menina,
Guerrear por pensamentos,
Baronesa tão divina.
Voa, Ligeireza. Tento.
Vila de São Gabriel
Só a vosmecê sou eu atento
Em tinta com letra fiel.
E doce só o quebra-queixo.
Escuta, ó rua, essa voz.
Ao cangaço a horda deixo.
Vai fonética veloz.
Impeça a fúria dessa horda;
Espalha mais fonética.
Cordel, se eu lhe peço, acorda;
Torna a vida mais poética.
Muito inteligente vosmecê, hein Dona Eîrara Papa-Mel, valente e cheia de dentes.
Eu falo qualquer língua.
Fale a minha.
A sua eu não falo, porque vosmecê tem a sua cara e eu tenho as minhas.
Qual é a tua força, bicho falante? Não diga que mora na toca do elefante.
Quanta contingência!
Quanta cultura miserável, que não alimenta nada...
Com que nome vosmecê foi batizado?
Mudei tanto de nome, que não sei mais qual foi o primeiro.
E o nome da família?
Não sei se foi Tésio, não sei se foi Tísio, já não sei...
Com a expressão derretida no fogo, Símile mantinha distância de barata; corria às léguas com o rosto contorcido e a boca torta. Acordava na madrugada dizendo que foi mordida por uma. Na manhã seguinte, a aula dela era assim, na metalinguagem radical e na desconstrução da realidade; acuada, defendia o seu experimentalismo de forma agressiva com pitadas de pós-modernidade:
O comportamento da Papa-Mel demonstrava uma única coisa, disse, ou o que disse e não disse, ou as ideias na vida das ideias ao ficar com fome delas, ou se o que funciona realmente funciona porque funciona ou só funciona quando funciona. E ainda. Ainda? Espere. É necessário priorizar a lógica da Papa-Mel, ou o sentido que dá sentido ao que ela sente. É uma questão. Olhasse o espelho analítico. Onde encontrá-lo? Diante do espelho pragmático. E não me traga desculpas de que só achou o espelho metafísico!
Apresentava-se a professora Símile, como a primeira sem segunda a tudo o que se tratasse na área científica do cangaceirismo. Ela figurava na Sociologia Contemporânea; convidada padra dar palestras locais, a simpósios estrangeiros, a festivais, a feiras; dezenas de entrevistas. Quem não a conhecia, desconhecia o que é o cangaceiro.
Em uma área reservada de casa, a professora armazenava chapéus com abas viradas. Jurava ter um daqueles viajado na cabeça do cangaceiro Oxítono.
Em guarda-roupa, as vestimentas de guerra confeccionadas em brim azul. No rodapé do quarto, perneiras, tornozeleiras das presepadas de Paroxítono.
Espalhadas luvas de couro de bode, jabiracas coloridas e enfeitadas com aliança de ouro, anéis de brilhante, que pertenceram a Proparoxítono. Alpercatas de rabicho espalhadas.
Bornais em ganchos de madeira, cartucheiras cruzadas, cantil e cabaça, frascos de perfumes franceses. Na coleção de Símile encontravam-se os longos punhais, que dividiam a mesa de jacarandá com mosquetões e rifles, pistolas e revólveres.
Delicadeza das moças, vaidade dos rapazes, Símile expunha quadros nas paredes do amplo e iluminado depósito cercado por janelões abertos ao sol. Saias-calças de brim cáqui, chapéu pequeno com enfeites no couro, bordados e rendas, sandálias, punhalzinhos com cabo de prata e pedrinhas verdes.
Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha no sem memória sovaco de um rosário de serras onde se destacava a Serra Desvanecer era uma narrativa de caráter regionalista e experimental, típica da República Velha. Misturava o cotidiano com elementos de ousadia preso a um realismo desmágico.
A educadora de temperamento forte, Símile, feito lâmina, foi marcada por crises de tosse trazidas da Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha onde fez a sua pesquisa. Posso contar-lhes as histórias da Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha? disse às alunas e, rapidamente, enterrou quatro dedos da mão na boca: roeu as unhas até elas sangrarem, e a fita de sangue no canto da boca lhe tatuou, correu e alcançou o pescoço, perdeu-se em alguma parte do colo. As alunas olharam de soslaio a palmatória, que descansava sobre a mesa de jacarandá na frente da professora Símile.
Oxítono, aquele cangaceiro nomeado pela baronesa, representava tão-só o impacto imediato, o tiro curto, a ação rápida do cangaço. Paroxítono, por sua vez, era o grosso do bando. Proparoxítono figurava, disse Símile, como líder do grupo.
Essa gradação de força criou o que os livros de História reconhecem como a Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha. O posicionamento do acento, Símile disse, dita o ritmo da passada, da fuga e do poder desses três personagens.
Pânico, optou Proparoxítono ser chamado. Por semear o pânico por onde passava. O cangaceiro Pânico apagou de sua história o nome Proparoxítono.
E para quem não sabe gramática, disse a professora, um termo complexo soa tão perigoso quanto um bacamarte carregado até à boca. Os cangaceiros se valeram dos nomes recebidos da baronesa, os aceitou por breve período graças a cadência ritmada e galopante em tropéis de frequentes fugas.
O horror do cangaço, como se dizia até ontem, não se intensificou com a Manhã da Degola nas margens do São Francisco, mas na junção de cangaceiros no que a história registrou, disse a professora, como a Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha.
A aluna Metáfora ergueu o braço.
Diga, Metáfora! pediu-lhe a professora.
O pavor da aluna representava a metáfora espacial e geográfica, vista na classe, da exploração, do trabalho estafante e da servidão humana no dia a dia na movimentada Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha.
Na...da, não, profes...sora.
Então! berrou. Abaixe o braço, e não atrapalhe a aula.
Bagatela riu do ato ridículo da colega. Metáfora, mais tarde, dividiria a sua dúvida com a mãe; se a terra era chamada de jumentos de cangalha porque eles carregavam a vida nas costas ou se aquele fardo no lombo dos cangaceiros era apenas outra marca de seus machucados misturados ao suor rítmico desse outro capítulo da longa narrativa dos cangaceiros.
O ser violento, disse Símile, como um respiro durante a aula, não adoeceu no dizer do povo antigo, mas tem um porém se olhar, no dizer de Zémambembe, na fresta do postigo. Símile, como se sabe, não é uma artesã da sensibilidade e nela não habita nenhuma mediação exceto realidades fragmentadas.
Qualquer criatura de violência latente, insistiu Símile, que por ventura for nascida, criada bem ou mal criada na velha Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha, é um ser longe do tipo caleidoscópico?
Silêncio.
A voz de Símile, como uma roda d’água. Na aula, quase ninguém entendia a mágica dela para manter a sala atenta à sua pedagogia.
A culpa foi do medo? Responda-me, Bagatela. Todo ente violento, repetiu, é o que lima os dentes da frente. Ou toda essa tal brutalidade, questionou, existe no indivíduo doente? Vi a cara de muitos ressentidos, quando eu visitei a Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha. Foi o desejo de poder? Responda-me, Metáfora.
A professora Símile tinha as duas pernas no coronelato. O seu nome era uma homenagem ao antigo chefe político do município de Tapas, Cel. Símile.
Bagatela e Metáfora intimidaram-se. Os sussurros foram silenciados. Até o farfalhar das folhas de cadernos morreu sob o olhar severo da professora.
Talvez foi a impotência. Quem sabe! Não, caríssimas, o que vi na Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha foi a externalização dos instintos.
Ordenei os vaqueiros a trazerem o gado desde o mês que se foi. Notícia nenhuma obtive. Havia três garras sangrentas no céu esbranquiçado dessa manhã de junho, disse a baronesa em língua além-mar de quem o singrou na esquadra do príncipe, o azul ralo, uma poeira. Vejam vosmecês, vejam. Levantem os cabras na pressa da chaleira e tragam todo o gado espalhado na Serra Desvanecer. Há um bando na Serra da Onça, outro nas Montanhas do Gelo. Quero que arrebanhe a rês desgarrada aos meus guardados. E o percurso? Vosmecês o façam pelo cinturão de serras e arrebanhem os cabras que julgarem convenientes ao nosso propósito.
Os cangaceiros partiram.
A nuvem de fogo paira sobre a Serra Desvanecer qual um sopro pesado. Cangaceiros de confiança da baronesa, que foram atrás de Paroxítono, Oxítono e Proparoxítono, eram os irmãos Arréda e Cascadaki, juntamente com os primos Totininu e Cadiquê. Entre as serras da Onça e Desvanecer, eles entraram em uma caverna, que era gelada, viram baús sepultados e as tampas abertas, disse Símile, que nem defuntos em covas rasas.
O calor extremo não alcançava a boca da caverna. Lá fora, o ar queimava a garganta, matou a vegetação. A quentura descobriu a riqueza.
Sobrecarregados de realidade, Paradoxo, Oxítono e Proparoxítono, perto dali, cansados de carregar o peso do mundo nas costas.
As conversas na sesmaria, e ninguém confirmava que fosse verdade, nem mesmo o Rei Ninguém, que o trio planejava criar uma cidadela nos cafundós das Serras dos Ossos. Libertaram-se, isto era o que corria à boca miúda entre os cangaceiros, do Círculo do Bacamarte criado pela baronesa.
Na nova Terra, Paradoxo, Oxítono e Proparoxítono não desconfiavam que o barão e a baronesa mandariam alguém atrás deles. A Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha, assim nominada, foi desde o princípio uma armadilha de isolamento.
O dinheiro perdeu o sentido porque não restou ninguém vivo para vender sequer um quilo de sal.
Ainda sonho recorrente, confirmou a baronesa ao barão, sendo a dona única desse sertão de domingo a domingo sem oferecer descanso a calango nenhum. Não ficará mandacaru, xique-xique ou macambira sem punhal nem mosquetão. Saíram Proparoxítono, Oxítono e Paroxítono, liderando outros cangaceiros cujo desenho que se formou na mata branca possuía três garras sangrentas no chão. No alto do solar, a baronesa cruzou os braços e esperou o sol; vinha ele rosado sob o manto das brancas cobertas com o cabelo sarapantado pelo vento a sacudi-lo em todas as direções. Desceu os degraus e de longe se ouvia o barulho dos tamancos da baronesa na madeira, o arrastar da cadeira, o prato em sua frente com bolo de milho, manteiga de garrafa, queijo coalho, leite de cabra; fumegava a xícara e o aroma do café ganhou a estrada. Ninguém nunca mais ouviu o sabiá-laranjeira.
Não é época, sinhá baronesa! veio a conhecida voz do Golfo do Benin lá da cozinha. No solar, outras vozes conversavam.
O barão passava o dia dormindo e a noite acordado. Quem fosse acordar o barão durante o dia, saísse de perto. Entre a Serra dos Ossos e o Subaco da Coruja nasceu a Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha! a carvão e giz, mostrou no quadro a professora Símile o produto final com garatujas de um mapa não reconhecido pela cartografia.
A sala atenta à aula. Imóvel. Silenciosa. As cortinas foram afastadas das janelas, mas o vento não ousava balançá-las.
Como, Símile disse, não voltaram os cangaceiros e os vaqueiros da Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha, a baronesa ordenou que tudo fosse destruído com fogo; não deixasse escapar qualquer tipo de vida. E assim foi feito, segundo o seu desejo (neste período composto por duas orações). Além de outras histórias de crueldade e tragédia pessoal que eu não irei lhes contar, caríssimas, porque não há tempo nem espaço.
Faça com eles, disse a baronesa, o que foi realizado durante o velho cerco a Samaria. Ponha fim à água e à comida! Aja segundo o que lhe parecer direito.
É pafazê tudisso mermo, Dona Baronesa?
Pode consumar, confiada em mim! sentenciou.
DONA BAGATELA: Joça, sente-se aí.
JOÇA: Pra quê, Dona Bagatela? Já sei! Lá vem chumbo grosso. E o que foi que eu fiz dessa vez? Já sei! Foi o café. Eu não fiz o café como a senhora queria que fizesse, né. Me perdoe, Dona Bagatela. Me perdoe em nome de São Gabriel.
DONA BAGATELA: Levante-se, sua linguaruda! Não foi nada disso.
JOÇA: Juro que não foi culpa minha, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Cala a boca, Joça. E não precisa ajoelhar-se aos meus pés cada vez que faz alguma coisa errada.
JOÇA: E o que foi que eu fiz de errado agora, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Ouça-me, Joça. Solta! Para de babar as minhas mãos.
JOÇA: Me perdoe, me perdoe, me perdoe, me perdoe, me perdoe... Não quero apanhar de novo.
DONA BAGATELA: E quem foi que falou em apanhar! Vou contar-lhe a história da pessoa mais cruel e vil na Vila de São Gabriel.
JOÇA: Dona Simplicidade?
DONA BAGATELA: Tia Simplicidade não chegava aos pés dela.
JOÇA: E quem foi?
DONA BAGATELA: Símile.
JOÇA: Por São Gabriel! Conte. Mas conte devagar pra que eu possa saborear essa Símile, como saboreei ontem aquele doce de jaca.
DONA BAGATELA: Ela tinha um depósito de coisas de cangaceiros; se enforcou com uma jabiraca.
JOÇA: Que diabo é isso!
DONA BAGATELA: Espera. Um capítulo por vez. Ontem, naquele pote de doce de jaca, por pouco você não morreu engasgada. Lembra-se? Não se pode assim ir com tanta fome às minhas narrativas. Essa Dona Símile foi uma das minhas primeiras professoras por muito tempo; e sempre começava a aula sem pés nem cabeça.
JOÇA: Enforcada, Dona Bagatela?!
DONA BAGATELA: Com uma jabiraca.
JOÇA: Conte.
TERRA-DOS-JUMENTOS-DE-CANGALHA
ContosMarcello Ricardo Almeida 07/06/2026 - 16h 35min
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