O QUE É O CANGACEIRO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Símile, como quem ama, explode numa crise de tosse.
Estávamos às vésperas de Corpus Christi, disse Símile em sua última aula de maio, como quem reverenciava a caminhada eucarística. Essa professora viu nos rostos das crianças a presença da adoração pública.
JOÇA: Como Dona Bagatela consegue dormir tanto...
DONA BAGATELA: Cuide da tua vida, sua enxerida!
JOÇA: Mesmo dormindo, eu falo baixinho, ainda assim ela reclama da gente.
Pio XI e Pio XII, continuava a professora Símile. Diferente de João XXIII.
A professora Símile, quando nervosa, tossia até afinar-se. Se aparecia à frente uma cesta de lixo, ela chutava. A sala fechada. Uma caixa de fósforos. As alunas atentas. O mausoléu com portas, janelas, cortinas fechadas.
Por iniciativa do pioneirismo de Símile, Abantesma e Simplicidade, a Vila de São Gabriel conheceu a primeira escola para moças no sertão.
Cedeu-se à abertura das cortinas, e avançou o sol sobre as carteiras. Os espirros e crises de tosse da professora Símile espalharam gotículas d’água, muco, eletrólitos, bactérias, vírus e células da mucosa. A voz aguda e falha.
As pregas vocais abriam e fechavam:
Cavalgava a baronesa a sesmaria do barão sob o brando fogo da planície ao deparar-se com os cangaceiros Proparoxítono, Oxítono e Paroxítono sob uma azul sombra de umbuzeiro. Que faz aí, Paroxítono? Patroa, disse ele de um pulo, a seu serviço, patroa. Os outros demonstraram posição de sentido e reverência ante a baronesa amazona em vestes de couro. Como está a minha mão de obra? quis saber a baronesa. Patroinha, mão de obra pronta e à vontade.
Proparoxítono visava o começo. Paroxítono apontava o meio. Oxítono só explodia no fim.
Cangaceiro Azeitona, chamado pela baronesa de Paroxítono, um faz-tudo na sesmaria era associado a lápis, a bicicleta, a utilizável. Já o cangaceiro Café, identificado pela senhora do barão por Oxítono, às vezes Você, Também, outras vezes, Papel. Quando se tratava do cangaceiro Lâmpada, a baronesa optou por Proparoxítono, mesmo o pequeno grupo chamando-o de Máquina ou Pássaro.
A Baronesa Kuaanddussiphoddenn chegou àquelas terras com as garras da autodefesa. Esta herança romana de justiça de mão própria grudada à pele da nossa baronesa, ensinava a professora Símile aos alunos nas escolas da Vila de São Gabriel, como talhos à faca e a facão em uma das nossas carrancas.
A sua vingança privada defendida com sangue nos olhos, faca nos dentes. Os argumentos do barão e da baronesa nunca foram inócuos. Se tudo começou com as esporas da Lei de Talião, só Marco Aurélio puxou as rédeas, a professora disse sobre os olhos arregalados de Bagatela ao lado da amiguinha Metáfora.
A baronesa e o barão almejavam ser regentes. Restou-lhes esta sesmaria resumida na Vila de São Gabriel.
O que em vão tentou impedir os avanços de autodefesa do casal, na Vila dos barões assinalados, foi o Estado de Direito com a didática de que ninguém, nem mesmo o Rei Ninguém, está acima da lei.
Não se pode fazer justiça com as próprias mãos.
A pretensão é legítima, barão! enfatizou a baronesa.
Nem para satisfazer pretensão, concluiu Bagatela a frase da professora, salvo quando a lei lhe permite.
Metáfora demonstrou não ter gostado da antecipação da colega de sala, e Símile sorriu, como uma melancia rasgada a faca. Voltou aos cangaceiros que obedeciam a ordens tão-somente da baronesa.
Vamos continuar o que iniciamos em aulas passadas e retornaremos nas vindouras, disse a esposa do velho Zeugma, irmão da professora Elipse. Não longe daqui da Vila de São Gabriel, caríssimas alunas, existiu um lugar que se popularizou nos artigos do jornalista Lítotes. O lugar era Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha.
A professora Símile prosseguiu com imagens da sesmaria, cangaceiros e o exercício arbitrário das próprias razões. As alunas atentas ao sorriso de Símile. O rosto delas confessava o sonho de ser a baronesa, jamais a professora cujas histórias embalavam o sono do boi até ele cochilar e ser perturbado por terríveis pesadelos.
Vovó Velha Gongórica era uma verdadeira figura de tons barrocos. Foi na República Velha, governada pelas mãos de ferro de longevos casarões na Rua dos Quebraqueixos, que surgiu a Vila de São Gabriel ao lado direito do rio oposto ao edílico e poético Olho D’Água dos Lírios. A Baronesa Kuaanddussiphoddenn romantizou o que jamais poderia ser romantizado, e para isto usou a colaboração armada dos cangaceiros Oxítono, Paroxítono e Proparoxítono.
O que é o cangaceiro, escreveu Símile na lousa, que gemeu, lutou contra a palavra escrita. E sublinhou forte, como se rasgasse o quadro com as unhas.
Passava nos olhos verdes de Símile, além de outros pormenores somente vistos pelas atentas alunas, o sutil e exato uso da vírgula. Os cílios brilhavam em Símile, como se refletissem o sol, e a tosse voltava com insistência.
E para isolar uma conjunção conclusiva, a professora Símile com os seus olhos que refletiam a vida no litoral alagoano, deslocava a vírgula no princípio da aula. Adiantou:
Portanto, o resultado superou as expectativas da baronesa. Todavia, quis continuar sobre o que é cangaceiro.
Aqueles olhos de canaviais estão sempre acordados. Símile, um bacurau que se admira com a força da lua, admira-se com os astros noites a fio.
Na aula, com o seu sorriso à moda Van Gogh, falou sobre a burla, falou sobre a charrete da baronesa naquelas ruas de grandes buracos, dejetos de manadas expulsas do litoral. Os casarões nasciam em lugares enlameados com as últimas chuvas de maio.
Cangaceiro, disse às alunas, não caracterizava o bandido tal qual o pirata que representava a presença do horror onde fosse. No século XV, pisaram aqui os ancestrais de Cabeleira. Símile agitava os braços, enfática, desenhou a linha histórica e amarrou as pontas com o século XVIII. Controlava os espirros. A voz saía por um fio. Aquele livro que eu li a semana passada, quando saiu, no final de 18, era uma versão dos anjos maus da baronesa. Igualmente é falseado, caríssimas, associar o cangaceiro a fugitivo da Justiça ou a justiceiro.
Mas, professora...
Pssssssiu...! fez e levou o indicador aos lábios; ato contínuo, Símile dilata as pupilas, arregalou os olhos, espremeu-os. E se revestiu de alta subjetividade.
As disputas de terra, professora? questionou-lhe Bagatela do alto de sua ingenuidade.
Pssssssiu...! repetiu o gesto; curvou o corpo, como se Símile carregasse nas costas uma casa. E passou o indicativo de uma orelha à outra, quão se fosse uma navalha: caiu morta.
Levantou-se. Partiu a cavalo para enfrentar ameaçadores gigantes. Símile interrompeu a sua investida por um espinho de faveleira. Retorceu-se. Frustrou-se ao tentar a custo escapar; prisioneira de galhos armados por longos espinhos ferozes e abusados.
Caiu Símile nos braços da macaúba. Foi abraçada pelo cansanção. Viu-se quase vazar os olhos com arrebenta-boi. E o seu corpo fugiu do chão da sala esfolado por unha-de-gato.
O cangaceiro o que é? insistiu Bagatela.
DONA BAGATELA: Traga-me o chá de hortelã, Joça.
JOÇA: Já vai, Dona Bagatela. Ó muié apressada, São Gabrié!
O cangaceiro o que é, disse Símile, caríssimas, se nós o zoomorfizarmos, vejam vocês (e atuou no estrado) uma aranha-armadeira. Protege-se na trama de brutos tecidos e couros enfeitados por riquezas furtadas em sítios e vilas. O cangaceiro é o ser violentado-violento, que viola a inibição de todos os instintos. Experimente, caríssimas, brincar com uma aranha-armadeira.
Afastado a ferro e fogo da crença ao respeito mútuo, disse Símile, tal qual a aranha-armadeira: ataca e mutila. Morde. Suga. Necrosa. Mata. Todavia, li em algum texto, na biblioteca, ao que me parece, um termo... Übermensch. Assinado pelo jornalista Lítotes. Portanto, caríssimas, deixo isso para o dever de casa.
DONA BAGATELA: O meu chá, Joça!
JOÇA: Já vai, dona!
DONA BAGATELA: Parece a voz da Vovó Velha Gongórica. Joça!
JOÇA: Que foi, Dona Bagatela?
DONA BAGATELA: Onde está, que não me responde!
JOÇA: Na cozinha, Dona Bagatela, no preparo do seu chá de hortelã.
DONA BAGATELA: Ufa!
JOÇA: Que foi, Dona Bagatela?
DONA BAGATELA: Senti as mãos geladas da Baronesa Kuaanddussiphoddenn tocarem o meu pescoço.
JOÇA: Cruz credo!
Vau era a parte rasa do rio entre a Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios. No fechar daquele maio, porém, derramou-se toda a água do céu, Símile lembrou à Simplicidade:
Sumiu o vau. Cavou-se o rio.
O trecho raso, firme e de pouca profundidade do rio cavado pelas águas. Veio o céu, que se aproximou da terra com todas as suas forças.
Choram as nuvens de passagem. Rios aéreos despejam em Olho D’Água dos Lírios. A Vila de São Gabriel sofreu por meses, com água na porta, das viajantes e imensas massas de ar pesadas de vapor desde o Rio Amazonas.
A saraivada desceu do céu em partículas de água, disse Símile, como se fosse o fim do mundo. Naquele ano, os moradores não dormiram por três meses.
Você, disse Simplicidade; reforçou a professora Símile à Bagatela, nunca teve e nem terá consciência fonológica. E deveria sentir vergonha disso, como uma folha verde preserva o medo do julgamento do tempo que a seca e a faz cair do galho para alimentar o solo e fortalecer a árvore.
Onde se encontra o seu silábico alfabético, Bagatela? berrou Símile.
Aonde vai o seu silábico qualitativo? atacou-lhe Simplicidade.
Ambas – tia Simplicidade e a sua comadre Símile – caíram sobre Bagatela como a água que acabou com o vau do rio entre a Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios.
– Você sequer conhece as vogais!
– Comadre, como cobrar dessa cobra as consoantes?
Você nem reconhece as vogais, como cobrar as consoantes! O temporal permaneceu. Roncou sobre os três anos de Bagatela, que encontrou refúgio ao abraçar a sua bonequinha de pano.
– Comadre, ela é porosa.
– Porosa, comadre?
– E-v-i-d-e-n-t-e.
ZÉMAMBEMBE: Eu estou em um corpo irreconhecível, Simplicidade. É por isso que você não pode me reconhecer. Mulher, mulher... Entenda isso de uma vez, criatura. Aliás, quem é você?
TIA SIMPLICIDADE: Sou aquela que teve a infelicidade em amarrar...
ZÉMAMBEMBE: Amarrar o quê, mulher? Não, não me venha mentir uma hora dessa. Aliás, você é casada?
TIA SIMPLICIDADE: Sou.
ZÉMAMBEMBE: Mentira.
TIA SIMPLICIDADE: Com você.
ZÉMAMBEMBE: Comigo?! Estás de brincadeira, mulher. Olha lá, criatura, se sou desses. Eu sou celibatário, minha cara. Celibatário. Compreendes? Aliás, vamos brincar de esconde-esconde?
TIA SIMPLICIDADE: Tu te referes à brincadeira de aparecer e de desaparecer, é?
ZÉMAMBEMBE: E você conhece outra?
TIA SIMPLICIDADE: Conheço.
ZÉMAMBEMBE: Qual? Por favor, diga-me.
TIA SIMPLICIDADE: Aquele princípio do crescei e multiplicai.
ZÉMAMBEMBE: Upa! Fui a Gênesis. Irei demandá-la diante da mandala. Ouviu?
TIA SIMPLICIDADE: Bagaaaaatelaaaa...!
ZÉMAMBEMBE: Por que tanto escândalo!
TIA SIMPLICIDADE: Ela não quer estudar!
ZÉMAMBEMBE: Não quer estudar? Se não quer estudar, Simplicidade, não será poeta.
TIA SIMPLICIDADE: Exatamente isso, Zémambembe, disse a comadre Símile, quão essa luz que nos alumeia.
ZÉMAMBEMBE: Creio.
TIA SIMPLICIDADE: E precisamos, Zémambembe, urgentemente fazer alguma coisa com esta nossa Bagatela.
ZÉMAMBEMBE: Porcaria!
TIA SIMPLICIDADE: Ela burla.
ZÉMAMBEMBE: Burla? Não sabia.
TIA SIMPLICIDADE: Não obedece ao tio, tampouco a tia.
ZÉMAMBEMBE: E quem é o tio?
TIA SIMPLICIDADE: Você.
ZÉMAMBEMBE: Eu?! Não sabia.
TIA SIMPLICIDADE: Agora soube.
ZÉMAMBEMBE: Eu tenho uma sobrinha?
TIA SIMPLICIDADE: Tem.
ZÉMAMBEMBE: E quem é?
TIA SIMPLICIDADE: Bagatela.
ZÉMAMBEMBE: Bagatela? Eu gostaria de conhecê-la.
BAGATELA: Tio! T...ia.
TRIBUNAL DO JÚRI: O Dr. Silábico Quantitativo magistrava. E o Dr. Pré-Silábico fazia gestos e acusações. No espaço sem espaço, o Dr. Autonomia orientava o tribunal do júri, que acompanhava com os olhos as atitudes de Bagatela.
CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA: Bagatela é culpada de todas as acusações por Símile à Dona Simplicidade.
ESCALAFOBÉTICO: Eu sou o pai de Bagatela.
TIA SIMPLICIDADE: O pai?! Quanta hipocrisia! Bagatela não tem pai.
ESCALAFOBÉTICO: Tem. Juro por São Gabriel. Eu sou o pai dela. Nunca quis abandoná-la.
TIA SIMPLICIDADE: Mentira.
ZÉMAMBEMBE: Não se exalte, mulher.
TIA SIMPLICIDADE: Me ajude, traste. É tua sobrinha, peste! Ele é o embusteiro, safado e mentiroso.
ESCALAFOBÉTICO: Então, então, então... Você está me falando que eu sou e não sou o pai dessa criancinha de três anos? Como pode! Diante do Dr. Silábico e do Dr. Pré-Silábico? Como pode! Faça alguma intervenção cirúrgica, por favor, Dr. Autonomia.
TIA SIMPLICIDADE: Cirúrgica? Cirúrgica é uma palavra proparoxítona, senhor, como barbárie. Não é, Símile?
SÍMILE: Eu professoro que sim. Como ruim é oxítona e pudica paroxítona.
ZÉMAMBEMBE: Tua defasagem, Bagatela, é do tamanho de minha curiosidade.
ESCALAFOBÉTICO: Eu sou o seu pai, Bagatela.
BAGATELA: O senhor é o meu pai?
ESCALAFORBÉTICO: Sou.
BAGATELA: Não sabia.
ESCALAFOBÉTICO: Mas agora sabe.
BAGATELA: E por onde andou?
ESCALAFOBÉTICO: No lado escuro da Lua, onde abri, há duas décadas, uma barraca de cachorro-quente.
BAGATELA: E por que me deixou sozinha quando mais eu precisei, senhor dos senhores?
TIA SIMPLICIDADE: Larga a menina!
ESCALAFOBÉTICO: Não se aproxime, senhora.
TIA SIMPLICIDADE: Como é a história, homem?
ESCALAFOBÉTICO: Eu vou lhe soltar os cachorros.
TIA SIMPLICIDADE: Senhoras e senhores do júri, o que esse senhor verbaliza?
ESCALAFOBÉTICO: Senhora, eu não a conheço.
TIA SIMPLICIDADE: Conheça, pois, senhor, porque fui eu quem o trouxe aqui.
ESCALAFOBÉTICO: Aqui, senhora? Por favor. Aqui... Onde?
ZÉMAMBEMBE: Não enxerga, senhor? Nas barras do tribunal. O senhor traiu as senhoras e os senhores da Vila de São Gabriel. Não o queremos mais na Vila.
ESCALAFOBÉTICO: E onde irei morar?
TIA SIMPLICIDADE: Em algum lugar.
BAGATELA: Já sei, meu pai.
ESCALAFOBÉTICO: Ó meu amor! Fale de uma vez, minha criancinha.
BAGATELA: Por enquanto, vá morar no Lugar-do-Não-Sei-Onde.
ESCALAFOBÉTICO: E onde fica o Lugar-do-Não-Sei-Onde?
BAGATELA: O senhor conhece Santana-Sem-Água-e-Sem-Luz?
ESCALAFOBÉTICO: Conheço. Trabalhei lá como vendedor de quebra-queixo.
BAGATELA: Ou então...
ESCALAFOBÉTICO: Ou então?
SÍMILE: Vá morar em Olho D’Água dos Lírios.
ESCALAFOBÉTICO: Olho D’Água dos Lírios aceita pessoa igual a mim?
TIA SIMPLICIDADE: Esse senhor me impacta, Símile, como “Pacto Sinistro.”
SÍMILE: A sua violência é a resposta à sua autoafirmação.
BAGATELA: T...i...a...!
TIA SIMPLICIDADE: Que foi agora, Bagatela?
BAGATELA: Estou com medo.
TIA SIMPLICIDADE: Você, insegura, não reconhece nem letras nem números.
BAGATELA: T...i...a...!
TIA SIMPLICIDADE: Vai chorar de novo? Chorona! Oralmente, Bagatela, você é uma tragédia. Nem Lady MacBeth!
BAGATELA: Eu já sei escrever. Olhe aqui. Micropachycephalosaurus...
TIA SIMPLICIDADE: Micro o quê!
BAGATELA: Micropachycephalosaurus hongtuyanensis.
SÍMILE: Criança sai com cada uma!
BAGATELA: É verdade.
TIA SIMPLICIDADE: Bagatela, como pode, diga de onde veio esse palavrão.
BAGATELA: É um dinossaurozinho assim, tia, desse tamainho.
TIA SIMPLICIDADE: Dinossaurozinho com esse nomezão? Não creio.
BAGATELA: Sim. Ele come folhas.
TIA SIMPLICIDADE: Não me venha com essa, Bagatela!
SÍMILE: Você não passa de uma copista diagramadorazinha sem importância no fundo da sala, que terceiriza a sua responsabilidade ao Deboche e ao Conflito; e, pior, se vitimiza. Coisa feia! Uma menina com quase quatro anos.
TIA SIMPLICIDADE: E onde se viu, Símile. É como se eu dissesse que o sol não seca roupa molhada. Nossa amiga Metáfora é a trave no olho de gente assim.
BAGATELA: Quem é Metáfora?
SÍMILE: Ela costuma se fazer de desentendida e brincalhona. Será que ela não sabe que Metáfora é uma amiga sua de sala de aula? E-v-i-d-e-n-t-e que sabe. Não se desgruda de Metáfora. Aliás, são três: Bagatela, Metáfora e Metonímia.
TIA SIMPLICIDADE: Eu sei de tudo isso. Ela é uma provocadora. Ou não é?
ZÉMAMBEMBE: A menina Bagatela vai ser agredida, Simplicidade, na frente de todo esse povo? Ela é só uma criança. Por que vocês não têm vergonha? Nunca foi criança, Simplicidade, Símile, como você com essa cara de lua, que reúne os desocupados para esse Sábado de Aleluia.
TIA SIMPLICIDADE: Ela é uma provocadora profissional, ó Zémambembe. Veja os dentes dela. E observe, Zémambembe, esse olhar de deboche na cara dessa menina. Nasceu para provocar. Ela inicia a provocação em qualquer cristão. Não respeita nem a procissão de Corpus Christi. Não pise no cepilho, sua burra! Não espalhe o caminho da procissão. Não chute os desenhos na Via Crucis.
BAGATELA: Isso também é Via Crucis, tia?
TIA SIMPLICIDADE: Não vê que é!
SÍMILE: Eu sou testemunha, Dr. Silábico Quantitativo.
DR. SILÁBICO QUALITATIVO: Ó, senhora, Dr. Silábico Quantitativo é um irmão meu. Eu sou o Dr. Silábico Qualitativo. Sou primo dos doutores Cicrano e Sicrano de Santana, cujo avô subscreveu a Constituição de 25 de março de 1824, apesar dos primos bacharéis Sicrano e Cicrano se referirem à Constituição de 1891.
SÍMILE: Ó, perdão! Perdão, perdão. Mil perdões, doutor. Com todas as vênias e o máximo respeito.
TIA SIMPLICIDADE: Bagatela bateu na mãe dela, e mordeu a minha mão.
BAGATELA: Quem é a minha mãe?
TIA SIMPLICIDADE: Debochada! Édipa, você não quer fazer o que fez Édipo ao seu pai biológico? A sua mãe morreu, menina. Você nunca teve mãe.
METONÍMIA: Mas você não tem pai.
BAGATELA: Mas você não tem mãe.
METONÍMIA: Eu tenho pai, sim, s-en-hora.
BAGATELA: Não tem.
METONÍMIA: Tenho.
BAGATELA: Mas ele não aparece.
METONÍMIA: Quem não aparece é a sua mãe.
BAGATELA: Mas eu tenho mãe. Juro que eu tenho. O tio Zémambembe conhece a minha mãe. Pergunta a ele quando o tio vier me buscar na escola.
ESCALAFOBÉTICO: O que vocês fazem com essa criança? Isso não se faz. É só uma criança. Vocês não têm esse direito. E Simplicidade e Símile não podem arquitetar o que arquitetaram, como arquitetou Comparação.
ZÉMAMBEMBE: Símile eu a não conheço, e nem faço questão de conhecê-la. Mas o senhor, Sr. Escalafobético, por favor e por favor, respeite a minha senhora Simplicidade. Esta é a mulher com quem eu me deito e me levanto; é com ela que eu tenho as minhas intimidades e diferenças; mas, senhor, é com essa que eu viverei até o fim.
TIA SIMPLICIDADE: Ó Bagatela, quando a gente chegar em casa, eu irei... Você sabe. Farei de você prisioneira da Biblioteca de Alexandria.
BAGATELA: Biblioteca de Alexandria não, tia Simplicidade. Não, não! Biblioteca de Alexandria não.
SÍMILE: Por que ela tem tanto medo da biblioteca?
TIA SIMPLICIDADE: Medo? Isso é uma fingida! Diz que vai morrer queimada. Ó se isso é possível! E quem vai querer queimar uma biblioteca? O tempo agora é outro.
SÍMILE: Menininha sem-vergonha. Sabe como é que eu a caracterizo, Bagatela, conforme conversei com as outras professoras? Silábica sem valor sonoro.
TIA SIMPLICIDADE: Pelo preço, Zémambembe, ninguém paga o valor. Por que você trouxe essa menina para a nossa casa? O nosso lar não merece isso.
BAGATGELA: Fa...la...!
SÍMILE: “Fa...la diva...gan...do à procura d...a...s pa...la...vras” essa sobrinha de vocês, Zémambembe e Simplicidade.
AFÁVEL: Ela não larga essa boneca. Como fede esse molambo! Vai, mãe; vai tranquila. O destino de todos nós é esse, para quem não morre cedo, mamãe. Às quartas-feiras e aos domingos, a gente vai lhe visitar, falar das novelas, dizer poemas uma à outra, pôr as fofocas em dia. Se precisar de alguma coisa, é só ligar. Fique à vontade. Tem o número. Seu quarto vai ter muitas flores. É a vida, mãe Bagatela, como dizem os franceses: “Est la vie. Nous crions”. Essa história não podia acabar diferente. Deixe-me te beijar de novo. Posso ficar com essa boneca? Não. Está bem. Como pode, né! Quantos anos essa sua bonequinha, mamãe? Esta boneca da mamãe é mais velha do que eu.
VITORIOSO: Eis uma verdade insofismável, Afável. Quando a gente namorava, já conhecia essa boneca toda estourada. Parece que veio da guerra. Pela cara, ela recebeu muitos remendos na vida. Vais ficar com ela, Afável?
AFÁVEL: Se a mamãe deixar.
VITORIOSO: Acho bom. Quem sabe, um dia nossa filha brinque com ela.
DONA BAGATELA: Hoje, não se fabricam mais bonecas como antigamente.
VITORIOSO: E se levar pra um colecionador?
AFÁVEL: Não tinha pensado nisso.
DONA BAGATELA: Ele deve querer pagar uma fortuna.
VITORIOSO: Vamos indo, minha sogra. O carro... O carro não espera.
DONA BAGATELA: Espera.
AFÁVEL: Vamos, mãe.
DONA BAGATELA: Seus traíras. Ficaram falando em prazeres inferiores.
VITORIOSO: Que prazeres inferiores?
AFÁVEL: De que ela está falando?
DONA BAGATELA: É assim mesmo. Só resta chorar, quando não se acredita mais na própria família, quando não se pode acreditar mais em pessoas que são a semelhança umas das outras. É cada um com a sua missão. Aperto bem essa boneca... Ai, me espetei! Que foi isso, gente?
VITORIOSO: Não vai chorar também, vai, Afável?
DONA BAGATELA: Vocês acham que fizeram o que tinha que ser feito.
AFÁVEL: Se apresse, Joça, com essas malas.
DONA BAGATELA: Até esta Joça, hoje, lava a alma.
VITORIOSO: Cuidado com essa sua boneca.
DONA BAGATELA: Fui mesmo uma boneca nesse jogo.
AFÁVEL: O táxi espera e não vou gastar mais dinheiro com a senhora, Dona Bagatela. No dia da visita, Dona Bagatela, a gente conversa melhor.
VITORIOSO: Eu deveria levá-la de ônibus.
JOÇA: Ônibus, que é transporte popular. A gente passa o dia inteiro esperando no ponto e ele não vem. Quando chega, chega lotado. Ônibus na Vila é o melhor negócio. Por que não vai de ônibus, Dona Bagatela?
DONA BAGATELA: Não puxe assim as minhas coisas, Joça.
VITORIOSO: Que maravilha! Finalmente, conseguimos realizar nossos planos.
AFÁVEL: Não precisa prender minha respiração com esse beijo, Vitorioso.
VITORIOSO: Finalmente, livre dos meus credores! Livre! Livre! Vou poder voltar a andar nas ruas da Vila. Estamos livres das dívidas, Afável. Poderemos contrair novas dívidas e continuar o ciclo vicioso, porque o mundo não pode parar. Nasci de novo. Sem pecado. Renasci. Agora, não tenho mais dívidas. Sou um homem novo, um novo homem.
AFÁVEL: Aperte minha mão para selar o nosso acordo.
VITORIOSO: O meu signo é a Balança: ora estou em cima...
DONA BAGATELA: Agora, por São Gabriel, os senhores conseguiram as provas que me fizeram apresentar para provar o crime desse canalha que queria me passar à perna. Anotem aí em seus papéis e digam ao delegado que jogue esse gigolô almofadinha na cadeia e faça ele engolir a chave.
AFÁVEL: Mãe Bagatela, por que você fez isso? Você é uma egoísta filha da puta. Você acabou com a minha vida, mamãe. Cê vai me pagar, mãe. E vai pagar bem caro!
VITORIOSO: Preso?! Não acredito. São Gabriel não irá permitir. O que foi que eu fiz? Como ficará a minha cara? Estou destruído. A senhora acabou com a minha vida. Os senhores precisam mesmo me algemar? Eu não vou reagir. Eu prometo. Eu não posso sair do longevo casarão algemado. O que a posteridade irá dizer de mim. A senhora, Dona Bagatela, não pode destruir a minha biografia assim de maneira tão leviana. Eu só queria o seu bem, Dona Bagatela. Éramos amigos, sogrinha. Quanta covardia fazer isso com o genro. É verdade, não é mentira. Essa minha vida sempre foi um quebra galho.
DONA BAGATELA: Vai, querido. Boa sorte.
VITORIOSO: Eu não guardo rancor.
AFÁVEL: Quem? Esse é o sujeito mais vingativo que eu tive a infelicidade de conhecer.
DONA BAGATELA: Ah, eu ia me esquecendo. Só um pouco. Vou buscar. Leve essa lembrancinha com você. Um baralho novo. Quem sabe, na cadeia, você refaz a sua dignidade. Recupere-se. Volte a ser meio homem. Estou perplexa, Afável; estarrecida com tudo isto que vocês me aprontaram. Ei, ei! Psssssssssiu! Seu Puliça, psiiiiiiiiiu! Espere um pouco aí com esse vagabundo, porque eu quero propor a esse vagabundo... Vagabundo, vagabundo, proponha um de seus jogos ao delegado e realize o seu sonho de ser rico novamente. Quem foi rei...
VITORIOSO: A vida continua; e se entregar é só um novo começo. Afável, não se esqueça de me levar cigarros.
AFÁVEL: Faça das nossas lembranças um lugar amoroso, amor. Com mamãe, eu me acerto depois. Mamãe tem bom coração. Ela vai se arrepender. Eu estou certa. Mamãe...
DONA BAGATELA: Lá vai a esposa do pudim.
JOÇA: Do pudim-de-cachaça.
DONA BAGATELA: Cala a boca, Joça!
JOÇA: A senhora é perversa, dona. Diz aqueles verso.
DONA BAGATELA: A mulher do bêbado, o Inveterado,
Sem aguentá-lo fétido e babão,
Convencera-o a morar no cemitério
Numa cova de sete palmos.
JOÇA: Esta é a Dona Bagatela que eu conheço.
DONA BAGATELA: Conhece, é?
JOÇA: Eu cheguei a desconfiar, minha dona, que essa história não teria fim.
DONA BAGATELA: Desconfiou, foi?
JOÇA: Não sou inteliju, não, Dona Coisa. Sou pisciana: meu mundo é uma festa.
DONA BAGATELA: Que está dizendo, Joça?
JOÇA: Nada, Dona Bagatela. Não digo nada pra não ir presa.
DONA BAGATELA: Desconfiei.
JOÇA: A senhora tramou tudo com o delegado no dia dos ladrões. Parabéns!
DONA BAGATELA: Dia dos ladrões? Que história é essa! Foi criado na folhinha o Dia dos Ladrões, foi? E já lhe adianto que dispenso os seus parabéns, como dispensei o chofer de praça que o golpista do meu genro contratou para me levar a Olho D’Água dos Lírios, onde ficou confinado até a sua dolorosa morte o tio Zémambembe. Sua falsa! Não preciso de parabéns. A História não tem pressa. Não me canso em repetir o que falava a tia Simplicidade. Aquela, sim, senhora, sabia viver. A vida se atravessa de passo a passo e não de pulo em pulo. Quem pula é sapo e aranha-armadeira. As almas do outro mundo que tapem os ouvidos da tia Simplicidade com quem ela andar. Tia, tia, você tinha mesmo razão. Essa gente tem saliva de dragão de komodo. Uma gente do tamanho do meu polegar, pequeno burguês, como dizia a professora Símile, gente pequeno-burguês que nunca cresceu. Acha que vou sair daqui? Nunca. Se eu saísse daqui, não ia nem olhar para trás. Medusa! Não vou ficar paralisada. Não. Por olhar para trás, Orfeu não pegou na perséfone da Perséfone. A mulher de Ló, só em querer olhar para trás, virou uma pedra de sal. E para de fazer o que você não é mandada fazer, Joça, senão vai morar também parar na cadeia! Para que caras e bocas? E essa vassoura? Cadeia, Joça. Joça, cadeia. Sou sã, e tenho coragem. Não à toa que nasci sob o signo do Escorpião: se facilitar, eu meto o ferro. Nesta boca tenho sempre um beijo e uma dentada guardados. Já nasci com o veneno no sangue. Há até uma fábula que o tio Zémambembe me contava. Você sabe, Joça. Um escorpião quis atravessar o rio. Aqui. Aqui mesmo. Ao lado de casa. Pediu a um macaco. Ou foi a um sagui? Já não me lembro. Cadê meu chá, Joça? Vá buscá-lo.
JOÇA: Tô inu, patroa.
DONA BAGATELA: E por que não foi ainda por quê? O porquê dessa gente, né, é desconhecer porque eu sou tolerante. E morreram 20 baleias do tipo cachalote e uma garrafa sem rumo...
BAGATELA: A tia ainda vai me mandar para a caixa-prego?
Bagatela no janelão avistava o tio que corria, pulava e dançava no jardim, que emoldurava o casarão. Cães o acompanhavam au, au...! auauau! rau... rau... raaaaaau...!
Se me encontro nos braços de Simplicidade, cantarolava Zémambembe, batia as mãos e respondia com a sola dos pés, cabe a mim saber que eu, diga-me se estou bêbado ou se me embriago mais um pouco dos seus beijos, diga-me, Sim, diga-me Si, diga-me, Simplicidade...
Mas, aquela tia, menina, que você ganhou em uma noite de Natal, só tem olhos para o poder, disse a professora Abantesma à menina Bagatela, durante uma aula com a professora Símile. E riu.
Dona Bagatela balbuciou à Joça:
Tia Simplicidade... Tia Simplicidade... Professoras Símile... Abantesma...
Dona Bagatela ressonava na cadeira de palhinha:
Joça... Joça... Joça... me traga o chá, Joça...! o som rouco escapava pela baba da velha, o som áspero escapava por assovios.
Vovó Velha... repetiu Dona Bagatela. Ouvia a professora Símile. Bagatela, como se sonhasse, Vovó Velha... disse que a Baronesa Kuaanddussiphoddenn foi precursora da forte intertextualidade entre tipos humanos que deram origem ao cangaceiro por meio das vozes defensoras do exercício arbitrário das próprias razões.
JOÇA: Nunca vi nem ouvi um ser e o nada falar tanto dormindo!
DONA BAGATELA: Quê!
JOÇA: Seu chá de hortelã, Dona Bagatela.
O sol da Bahia revelou os mosquetes de um grupo em torno de um casal de estrangeiro. Ele barão, ela baronesa.
Cobrasse do sol a revelação dos trabucos quase sem cano. Os ditos de pederneira bebedores de chumbo.
Assim contou Símile, como quem chora:
Com a chegada da família real à Bahia, aos 22 de janeiro de 1808, que fugia das guerras napoleônicas, a baronesa e o barão, na esquadra do príncipe, agradeciam por não estar no fundo do poço oceânico. Ela pisou em terra firme com a ajuda de tipos estranhos que logo se cobriram em couro. Jurou a baronesa não seguir viagem, reuniu cabras munidos de armas brancas e mosquetões.
O príncipe e a esquadra singraram às outras terras. Em lombo de mulas, o barão e a baronesa ganharam o caminho de sua sesmaria.
Emulava o barão, a baronesa cuspia pragas aos ataques dos mosquitos. Aqueles que os protegiam carregados de armas brancas e armas de fogo traziam a casa nas costas, disse Símile às alunas, feito cágados. 
Na sede da fazenda do baronato, o cangaceiro Contundente brigava de faca de ponta, camisa amarrada à camisa do cangaceiro Estarrecido. Quiproquó, que ganhou esse nome quando a baronesa propôs na feira uma coisa pela outra ao falar “Qui pro quo” ouviu “Ooooxente!” disse o cangaceiro Interjeição, e o seu nome perdeu o status de classe de palavra invariável, e passou a ser chamado de Quiproquó. Este tal tentou separar os cangaceiros Estarrecido e Contundente e virou peneira de palha de ouricuri, pois o propósito do conflito era uma cilada ao cangaceiro Quiproquó.
Nessa sesmaria, cangaceiro não vivia sem contenda. Vagabundo e Vadio, que assistiam ao embate de facas, detalharam à baronesa as agressões no terreiro. Nessa hora, patroa, rebanho era trazido, patroa, e o bode escolhido, patroa; amarrado em galho de umbuzeiro, sangrava, cabeça pendurada, o couro tirado à faca, carne retalhada, desossada, e partes repartidas. Vieram as moscas primeiro, patroa, o cachorro deu conta do sangue. A carne foi arrastada, no chão ficou o rastro, patroa. Assim é! disse a baronesa. Aí está. A baronesa olhou em volta, o cangaceiro Subserviente confirmou.
Na porta principal da residência da Baronesa Kuaanddussiphoddenn era a guirlanda velha, dia a dia, substituída por uma nova. Teatralizava a professora e a plateia, séria, se segurava na cadeira com toda a força que podia reunir.
Feliz, Símile passava a mão no cabelo, deslizava-a pela roupa que ia além dos joelhos. Prometia repetir com a classe o que foi feito na aula passada sobre o que é o cangaceiro. Este tema reacendia o interesse dentro do conteúdo.
O planejamento repleto de conceitos prévios antecipadamente ignorados. Símile representava à plateia o medo da palmatória e o severo castigo das notas baixas. Assegurou substituir roda de leitura por significados do barroco tardio.
Naquela aula, nenhuma boca questionou o que era “barroco tardio” citado por Símile. O seu pressuposto epistemológico era focado em provocar tristeza e tensão.
Múltiplas formas de engajamentos curriculares dos conteúdos. Na escola, a diretora Simplicidade ou qualquer pessoa da equipe diretiva não reclamava da sequência didática de Símile para torná-la repleta de pavor e arrepios. O seu conceito de aprendizagem mantinha distância segura de em um parque de diversão.
O conhecimento, caríssimas, é cumulativo? Não. É exausto. Observem o sistema e priorizem as atividades! sentenciou com a mão na palmatória.
Não era o vínculo afetivo com o discente que lhe interessava, mas o nexo docente com a decência ao pertencimento identitário na vida escolar. Escola do Medo, defendida por Símile, surtia o efeito desejável por sua pedagogia.
A congruência do cangaço e da prática corrente do exercício arbitrário das próprias razões, pôs um ponto e vírgula neste ponto a professora Símile, são de fato idênticas. Não falo de opinião, mas de fato. Harmonizam-se ambas em forma e tamanho. Não se pode falar em cangaceiro e ocultar em seu caráter genótipo o exercício arbitrário das próprias razões.
Nada é a priori, caríssimas, tudo interlocutivo! disse Símile soltando a sua palmatória sobre a mesa de jacarandá.
A Sociologia Contemporânea reconhece o conceito de cangaceiro porque conhece a história do exercício arbitrário das próprias razões. O cangaceiro é o sujeito que imita na prática a herança romana de justiça de autodefesa.
Sejamos teleológicas, caríssimas, nesta questão “o que é o cangaceiro.”
Na mesa de jacarandá, calada e impositiva, repousava a velha palmatória, que foi emprestada à Símile por Abantesma. E o cangaceiro, para concluir, disse Símile, sem perguntas da sala a observá-la sem ao menos respirar. É a práxis social do legado romano.
DONA BAGATELA: A pessoa vive em um lar por tanto tempo. Lar não. Casa. A pessoa vive...
JOÇA: Onde essa veia quer chegar com essa conversa mole?
DONA BAGATELA: ...em uma casa por tanto tempo sem saber que vive cercada por bichos peçonhentos.
JOÇA: Eu devia saber que Dona Bagatela terminava me chamando, como sempre, de preguiçosa, que eu não limpo, que eu não varro... Que eu não varro? Eu varro, eu espano... Que os bicho peçonhento vive na casa da gente. 
DONA BAGATELA: Li, não faz muito tempo, que não podia salvar as pessoas da caverna; e não acreditei. Quem sempre viveu na caverna, não vai entender nada quando for resgatada, e o pior, quer voltar, briga para voltar, mata, e até prefere morrer para não sair da caverna. Por que eu não entendi isso mais cedo?
Os anjos maus da baronesa lutavam para não ter o pescoço cortado e o corpo virar comida de urubus. Símile bateu com a palma da mão na própria testa, como se recuperasse uma lembrança:
Não erros na língua, caríssimas, o que de fato existiam eram tempestades e inadequação ditos com hálito e gosto de carne-seca. Posso lhes contar outras histórias da Terra-dos-Jumentos-de-Cangalha?
Portanto, as palavras da professora Símile, no distante mês de maio findo, ficaram na cabeça das alunas como tapetes decorativos. Os momentos litúrgicos em cada hino durante a procissão de Corpus Christi decoravam os rostos da plateia de Símile.

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