Entre palavras e silêncios, aplausos e reflexões, vivi dias recentes que ainda ecoam em mim. Ao lado da delegação da Academia Alagoana de Letras, participei de mais uma edição da FliPenedo, quatro dias que mais pareceram um sopro de encantamento.
Entre um evento e outro, seja no Teatro Sete de Setembro, ou no auditório do antigo cinema da cidade, permiti-me um desvio. Caminhei sem roteiro até a feira livre, pulsante, viva, humana. Ali, onde a literatura cede espaço ao cotidiano, encontrei uma narrativa ainda mais genuína: a do povo em sua essência.
Foi então que o céu decidiu intervir. Uma chuva intensa caiu, repentina, obrigando feirantes e visitantes a buscarem abrigo sob as barracas improvisadas. O burburinho diminuiu, passos se comprimiram, olhares se cruzaram em cumplicidade silenciosa, e, como que obedecendo a um roteiro invisível, surgiu no horizonte arco-íris, majestoso, desenhado exatamente sobre o leito do Rio São Francisco, que seguia seu curso indiferente ao alvoroço das margens.
Naquele instante, enquanto observava o vai e vem das pessoas, suas pressas, pausas, gestos de cuidado e sobrevivência, percebi algo que ultrapassava a simples contemplação estética. Havia ali uma profunda semelhança entre o arco-íris e o ser humano.
Assim como o arco-íris nasce do encontro entre luz e tempestade, também nós somos forjados nos contrastes da existência. Cada indivíduo ali presente carregava suas próprias cores, alegrias, dores, esperanças, lutas, compondo, coletivamente, um mosaico tão complexo quanto belo. Isoladas, essas tonalidades poderiam parecer dispersas; juntas, revelavam um espetáculo de humanidade.
O arco-íris não interrompe o curso do rio, assim como a beleza da vida não impede o fluxo do tempo. O São Francisco seguia, soberano, lembrando que tudo passa, inclusive a chuva, os instantes de abrigo, e nós mesmos. Ainda assim, naquele breve intervalo entre a tempestade e a calmaria, a beleza se fez presente, intensa e suficiente.
Percebi então que o ser humano, tal qual o arco-íris, não precisa ser permanente para ser significativo. Sua grandeza está justamente na capacidade de surgir, mesmo após as tempestades, carregando em si a síntese de tudo o que viveu.
E assim, naquela feira livre, entre barracas, chuvas e olhares, compreendi que talvez sejamos todos arco-íris em trânsito, passageiros, multicoloridos, nascidos das nossas próprias tempestades, encantando, ainda que por instantes, os olhos de quem cruza o nosso caminho.
ENTRE BARRACAS E HORIZONTES: A BELEZA QUE NASCE DA TEMPESTADE
CrônicasAlberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras 19/04/2026 - 20h 48min
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