E Vovó Velha pitava cachimbo nas horas calmas no longevo casarão, na Rua dos Quebraqueixos. Joça conversava com Dona Bagatela, com a impressão de haver ali uma pessoa a mais. Uma ao lado da outra. Ambas recém-almoçadas, Dona Bagatela e Joça tinham às mãos a xícara de chá de canela em rama.
A fumaça e o aroma ocupavam os cômodos do casarão triplamente divididos na parte social, convidados e familiares, além da capela, duas alcovas, pavões no jardim, árvores frutíferas etc. No lado da mesa no qual se encontrava Dona Bagatela havia belo saleiro, alto e gordo; ao lado de Joça, um saleirozinho mirradinho.
DONA BAGATELA: Você sempre foi insossa.
JOÇA: Eu, Dona Bagatela?
DONA BAGATELA: Não se faça de sonsa.
JOÇA: Essa é uma casa antiga, com porta e janela grande como porta e janela de igreja. Morar numa casa grande é sempre assustador. Tudo o que é grande, você perde o controle. As aranha se esconde nas greta das jinela; as formiga trabalha à noite inteira – não sei como aguenta – carregando folha; é uma luta dos inseto à noite toda nesse casarão antigo. É como se existissem fantasma. Mas, como eu não acredito nisso, nunca acreditei, nem nunca vou acreditar; mas que existe, existe, quando se acredita neles. Mesmo se hoje cair um temporal igual aquele da semana passada. Olhe aqui. A senhora, Dona Bagatela, que é a mulher do tempo, diga se vai chover.
DONA BAGATELA: Procure teu lugar, enxerida duma figa! Joça Bocadomundo, eu queria ter uma vida normal. Essa vida de estar aqui, de estar ali, é uma vida anormal. Eu queria ter uma vida como todo mundo. Acabo sendo feliz assim. E se sou feliz assim, você não vai me aborrecer.
JOÇA: Eu queria saber cantar, que nem canta Seu Zémambembe... no banheiro. Ele disse que o povo, aqui de Olho D’Água, fala por redondilha maior, quando ia à feira; quando ia à igreja, falava em redondilha menor. Verdade, Seu Zé? disse. Ele confirmou. Mediu a métrica. Exatamente, Dona Bagatela. Acompanhei. Fala mermo.
DONA BAGATELA: Ó Bocadomundo! Não posso ficar em pazr? Óóó tire essa vassoura das minhas ventas. Não posso ficar tranquila na cadeira da finada tia Simplicidade? Vou falar pra sua patroa que você tem um namorado novo e estava ontem assistindo televisão com ele na sala. Xô!
JOÇA: Mas... Dona Bagatela... preciso passar pano nos móvel, passar aspirador na casa. Antes... Dona Bagatela, tenho que varrer. Ah, Dona Bagatela! Eu tava sonhando com vossa parenta fornida, a Dona Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Ah, o casarão tem muitos quarto, muitas sala, muitos cômodo, muitos corredor; parece convento. Acho elegante a pintura da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. E amanhã, Dona Bagatela, amanhã Natal. Dia da Missa do Galo, lembra? Natal tem presente, Natal tem Papai Noel, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Toda véspera de Natal é um parto. Toda vez, aqui em casa, foi assim. É só chegar Natal que começa. Isso não acontece na Semana Santa, isso não acontece no Dia de Finados. Mas, é só chegar Natal... Para de varrer meus pés! Daqui, desse canto, não arredo pé.
JOÇA: Velhinha abusada!
DONA BAGATELA: É tua mãe!
JOÇA: Não respeita nem Natal.
AFÁVEL: Não acredito em quem acredita no tal de Noel, Nicolau ou Santo Klaus.
JOÇA: Ouça, Dona Bagatela. Ouviu? Sentiu o cheiro?
DONA BAGATELA: Que cheiro?
JOÇA: Dona Afável vem aí.
DONA BAGATELA: Quem foi que lhe disse que eu tenho medo da Afável?
AFÁVEL: Joça, o que é que está havendo com a mãe? Que barulheira é essa às vésperas do Natal? Que barulheira é essa de vocês duas? Mamãe, tá na hora do seu remédio. A senhora precisa tomar um banho. Amanhã será o esperado e festejado Natal. A senhora quase não comeu hoje. Ou come e toma remédio ou vai ficar de castigo. Não tem quem tire a mãe, daí, da cadeira da velha Simplicidade. E esse trapo de boneca em suas mãos? Não sei como essa boneca velha sobreviveu há tantos anos. Mãe fica remendando o passado. A memória é uma coisa séria. Não vou deixar a mãe ver novelas hoje. Ou toma banho ou não tem novela. E hoje é o último capítulo da Escrava Isaura.
DONA BAGATELA: Não me ameace, Afável.
AFÁVEL: Mamãe...
DONA BAGATELA: Afável, Afável!
AFÁVEL: O que vai acontecer no último capítulo da novela?
DONA BAGATELA: Acha que não sei? Conheço novela antes de você nascer.
AFÁVEL: Mãe, não seja criança. Deixe Joça trabalhar.
DONA BAGATELA: Que é que está fedendo nessa sala?
AFÁVEL: Tem alguém aqui que passa longe do banho.
DONA BAGATELA: É você Joça.
AFÁVEL: Empurre a cadeira de mamãe, Joça. Vamos, vamos. Daqui a pouco, o Vitorioso chega e nada tá pronto. Venha, mãe. Não seja teimosa. Vamos pra outra sala. Ou, então, vá tomar um pouco de sol.
DONA BAGATELA: Não perdi nada lá fora.
AFÁVEL: Não me faça perder mais tempo, mãe Bagatela.
JOÇA: Dona Afável, sua mãe hoje amanheceu em pé de guerra.
AFÁVEL: Ajude, Joça. Ela sai. Sai! Ajuda, Joça, a arrancá-la daqui.
DONA BAGATELA: Parece que pescoço tem que ser torcido, nessa casa, toda véspera de Natal. Pescoço tem que ser levado à forca.
AFÁVEL: Essa conversa entra por aqui, e sai por aqui.
DONA BAGATELA: Uma galinha tem que morrer. Vocês só vão descansar quando vir uma galinha na guilhotina? Daqui ninguém vai me fazer sair. Não vou me levantar de jeito nenhum.
AFÁVEL: Pronto. Começou o discurso.
DONA BAGATELA: Esse é o único lugar onde tenho paz nessa casa. Você sabe disso, Afável. Tenho religião. Olhe o tamanho do santo pendurado no pescoço. Exteriorizo a religiosidade, externo a fé, sua fedorenta. Minha fé pula de dentro pra fora. Mas, minha nossa, parece que meu pouco sossego está chegando ao fim. Não engulo sapo. E não me venha dizer que eu sou do tipo que não tenho inteligência emocional. Se for ter inteligência emocional pra engolir sapos, eu prefiro não a ter! Sapo o meu estômago refluxa. Ei, você! Vocês não acham que me tratam com violência? Me respeite... mais respeito!
AFÁVEL: Agora, ninguém mais lhe segura.
DONA BAGATELA: Não me empurre. Não me empurre! Essa casa é minha. Só o tempo sabe o quanto sofri pra chegar onde cheguei. Hoje, gente, estou bem... A Vila de São Gabriel me admira.
AFÁVEL: Quando começa a falar, não para mais.
DONA BAGATELA: Essa é a vila mais importante de Alagoas. Por pouco não se tornou cidade. Pela vontade dos versos do tio Zémambembe, a vila deveria ser um belo centro regional. Tia Simplicidade sonhava em ver a Vila de São Gabriel metrópole. Vocês duas não riam, não. Sonhava em ver a minha vila no topo da hierarquia, centro dos poderes econômico e intelectual. Vocês duas estão rindo de quê? Já querem construir um arranha-céu aqui ao lado. Ouço o bate-estaca que não para de enterrar trilhos de trem na fundação, aqui nos meus ouvidos. Isso vai ser um xópim daqueles e não desses. Vocês acham que não sei?
AFÁVEL: Só ouço, porque tenho dois ouvidos.
DONA BAGATELA: Chega de me tratarem assim.
AFÁVEL: E quem é que aguenta ouvir isso toda sexta-feira?
DONA BAGATELA: Não faz isso. Você está me machucando, Afável.
AFÁVEL: Ninguém, aqui em casa, trata mamãe com violência.
DONA BAGATELA: Não? Ninguém aqui em casa trata a mãe com violência. Até parece!
JOÇA: Nunca vi ninguém nessa casa tratar Dona Bagatela com violência.
DONA BAGATELA: Cala a boca, Joça!
AFÁVEL: Vai fazer alguma coisa, Joça.
DONA BAGATELA: Não escutasse a patroa?
AFÁVEL: Já discutimos sobre essa casa. Precisa de reformas.
DONA BAGATELA: Quem precisa de reforma são vocês de olho gordo.
AFÁVEL: Não vamos mais falar nisso. Cuidado com o seu coração.
DONA BAGATELA: Esse coração aqui suporta embalos.
AFÁVEL: Até o Natal?
DONA BAGATELA: Tão tramando contra mim. Vou ser peru de Natal?
AFÁVEL: Que calúnia!
DONA BAGATELA: Calúnia, é, minha filha? Eu sei. Uma mosca me falou.
AFÁVEL: E o seu coração, mamãe?
DONA BAGATELA: Quem deve cuidar do coração, aqui, é você.
AFÁVEL: Esse coração?
DONA BAGATELA: Com o teu marido fornicando com as tuas amigas.
AFÁVEL: Que injúria!
DONA BAGATELA: Injúria... É minha filha? E essa Joça fedorenta, aí, de olho.
AFÁVEL: Vitorioso é um homem direito. Íntegro. Probo. Respeitável.
DONA BAGATELA: Aquele galhudo?
AFÁVEL: Que difamação!
DONA BAGATELA: Difamação... É minha filha?
AFÁVEL: Não fique nervosa, mamãe. Olhe o seu coração, mamãe. Mamãe, olhe o seu rosto como tá vermelho.
DONA BAGATELA: Vermelho? É porque eu sou Flamengo.
AFÁVEL: Parece um camarão.
DONA BAGATELA: Flamengo até morrer!
AFÁVEL: Pare de se agitar, mulher. Parece uma pimenta. A cara da comadre.
DONA BAGATELA: Não sou comadre de ninguém aqui. Você, Afável, quer me tomar por comadre?
AFÁVEL: Pare de gritar, mãe. Vizinhos não precisam saber dessas conversas.
DONA BAGATELA: Estou ciente, Afável. Você quer me convencer que não sou violentada dentro da minha própria casa? Escuta aqui, Afável. Com que direito ou argumento, Afável, você me violenta? Não tem coragem de falar. Eu sei. Não vou me esconder. Sempre fui vítima da tortura de vocês. Acha que eu tenho medo de vocês? Não vou me esconder de vocês. Não vou viver me escondendo debaixo da mesa, nos cantos da sala, no banheiro. E nunca mais vou dormir no banheiro.
AFÁVEL: Pra que gritar tanto, mamãe?
DONA BAGATELA: Outro dia, quase me quebraram este braço; ainda sinto doer. Não posso nem fazer, assim, que dói. Ui! Não falei? Vocês me violentam 24 horas por dia. Querem me matar. Querem me matar?
AFÁVEL: Fale baixo, mamãe. Não sou surda, mamãe.
DONA BAGATELA: Violência não é só matar alguém com tiro ou faca, Afável, nem deixar morrer por excesso de trabalho ou lhe negar comida. Foi pra isso, Afável, que estimulei seus estudos? Você é uma professora universitária, Afável. Com pós-graduação no estrangeiro. É assim que me agradece por tudo o que faço? Você e o seu marido, aquele mo...le...q...!
AFÁVEL: Não fale mal do Vitorioso meu marido, mamãe.
DONA BAGATELA: Se essa vida explodir comigo, Afável, não vão sobrar nem ossos. A palavra chegou aqui ó, Afável. Não, não vou explodir. Não vou dar esse gostinho. Violência é também isso que fazem com essa pobre velha sem marido, essa idosa sem dono, que só espera a morte. Bato no peito. Respeitem a minha vida e a minha história.
JOÇA: Esse cabo de força todo santo dia, Dona Afável.
AFÁVEL: Calma, Joça.
DONA BAGATELA: Calma, Joça?
AFÁVEL: Calma, mamãe.
DONA BAGATELA: Calma, mamãe?
JOÇA: Essa velha passa o dia cochilando, Dona Afável. Passa o dia, aí, nessa cadeira de palhinha, só vuco... vuco... vuco... vuco...! A sua mãe, Dona Afável, sem ter o que fazer. Se não é vendo televisão, é ouvindo rádio. Quando não é fofocando com as amigas, pendurada no telefone. Isso, aí, Dona Afável, não faz outra coisa senão comer e dormir. Não passa um pano num prato, Dona Afável, não tira uma louça da mesa, Dona Afável, não passa uma vassoura no chão, Dona Afável. Uma. N-não passa uma. Isso é uma dorme e come. Dona Afável e Seu Vitorioso bem quê... Tem como dar um jeito nessa veia, Dona Afável? É um nojo. Eu querendo arrumar a casa pro Natal e a veia, aí, dura, parece uma mesa. Dizer que foi violentada, Dona Afável? Nunca ouvi falar. Isso? Duvido. Violentada por violentada sou eu, Dona Afável. Eu, sim. Ela, não. Essa sua Dona Bagatela come mais do que camelo, Dona Afável. Ou ela quer dizer que não foi ela quem acabou com todas as cocada e todas as tapioca?
DONA BAGATELA: Linguaruda! Como eu deixei essa faceira falar tanta asneira? E o que é que essa banguela murmura tanto? Olha só a cara dessa velhacouta!
AFÁVEL: Joça, procure o que fazer.
DONA BAGATELA: Vá lavar esses sovacos sujos!
AFÁVEL: A mãe quer descansar, Joça.
DONA BAGATELA: Acha que viver o dia aporrinhando a cabeça de...!
AFÁVEL: Chega, mãe! Chega. Por amor de São Gabriel, chega.
DONA BAGATELA: Cobra venenosa. Saliva de komodo.
AFÁVEL: Não preciso ficar ouvindo isso.
DONA BAGATELA: Volte aqui, Afável!
JOÇA: Bruxa! Queria que morresse.
DONA BAGATELA: Que foi que falou essa Joça?
JOÇA: Não falei nada. Banana pro teu enterro!
DONA BAGATELA: Eu enxergo de longe. Não sou como certos tipos de gentes que olham e não veem. Essa Joça acha que eu sou surda. Surda é a porta. Vai limpar os quartos, vai varrer a cozinha. Eu vou tomar sol. Quero olhar meu jardim. Vou cultivar minhas flores de maracujá. Nunca vi flores mais belas. Quero andar com os meus cães em volta de casa, conversar com eles; cachorro também é gente. Eles me entendem melhor do que vocês. Meu Deus, onde deixei os meus dentes! Uns dentes tão caros. E agora? Devem ter ficado rindo dentro de algum copo em cima da mesa da cozinha. Será que ficaram na cozinha? Alguém viu meus dentes? Se eles resolverem aparecer, fale. Onde ando com a cabeça? De que estávamos falando mesmo? Já esqueci. Que dia é hoje? Amanhã Natal. E como a vida tem pressa. Um dia, eu me lembro, era mocinha. Que recordação. A minha memória não falha. Aliás, nesta família ninguém sofre de amnésia. A tia Simplicidade então! Ah, tia Simplicidade...!
AFÁVEL: Dorminhoco. Acorde.
VITORIOSO: Como diria Platão: mulher, você acabou de acordar a minha parte insubmissa e autoritária.
AFÁVEL: Hein?
VITORIOSO: Se não fosse Afável, já estaria no terceiro sono.
AFÁVEL: Eu? Eu, não.
VITORIOSO: Você, sim. Que fica na frente desse espelho enchendo a cara.
AFÁVEL: Quem enche a cara é você.
VITORIOSO: Não de creme, de perfume, de laquê, de formol.
AFÁVEL: Nojento!
VITORIOSO: Isso fere até a camada de ozônio. Ei! Não puxe meu travesseiro. Não me descubra; eu poderia tá...! Não descubra outro continente.
AFÁVEL: Cê é todo enrolado. Por que não dorme? Chegue pra lá.
VITORIOSO: Afável.
AFÁVEL: Oi.
VITORIOSO: Tá dormindo?
AFÁVEL: Não.
VITORIOSO: Aquela cobra venenosa tem que sair daqui.
AFÁVEL: Não fala assim. Isso atrai o que não presta.
VITORIOSO: Se não sair, vão me levar pra cadeia.
AFÁVEL: Não tem outra saída?
VITORIOSO: Que saída? Que saída?
AFÁVEL: Mamãe não vai suportar essa notícia.
VITORIOSO: Mas a única maneira é essa.
AFÁVEL: Se a mãe escuta isso, Vitorioso, ela infarta.
VITORIOSO: Tua mãe já morreu faz tempo! Só se esqueceram de enterrar.
AFÁVEL: Não diz isso.
VITORIOSO: Esqueceram de entregá-la ao cemitério.
AFÁVEL: Não admito que fale assim.
VITORIOSO: Quem vai morrer sou eu. Só você não percebe.
AFÁVEL: Há de haver outro jeito.
VITORIOSO: Meus prazos acabaram.
AFÁVEL: Peça ao banco.
VITORIOSO: Não tenho mais crédito. Nem se eu quisesse. Não posso, não quero, não vou transformar essa vida em uma das tragédias cariocas de Nelson Rodrigues, em três atos.
AFÁVEL: E se?
VITORIOSO: Perdi meu gado. Vendi a fazenda. Você sabe de tudo. Só falto ser chifrado! Ser chifrado é a pior coisa. Hoje, não sou nem meio homem.
AFÁVEL: E as suas contabilidades?
VITORIOSO: Meus ativos comeram meus passivos ou vice-versa.
AFÁVEL: Você, Vitorioso, foi dono de escola.
VITORIOSO: Escola. Universidade. Perdi tudo.
AFÁVEL: O indivíduo é aquele que não pode ser dividido. Eu tô dividida.
VITORIOSO: Só resta sua mãe. Sua mãe sempre foi um fardo.
AFÁVEL: Fardo era a tua. Mamãe só quer andar por aí à procura do passado. Ela vive nesse casarão entre a memória e a amnésia. Viver entre a lembrança e o esquecimento lhe deve fazer muito mal.
VITORIOSO: Como se ela quisesse experimentar as tragédias de ser gente. As sequelas da infância nunca me interessaram. Eu pouco tô ligando pra isso, se quiser saber! Tua mãe, Afável, não sei por que demora tanto pra ir; da minha já me livrei faz tempo.
AFÁVEL: Não quero que levem minha mãe daqui. Daqui ela não sai. E quer saber? Eu ia dormir em uma das alcovas; mas, depois dessa, quem vai dormir na alcova à chave e a cadeado é você.
VITORIOSO: Eu? São Gabriel me livre dessa prisão!
AFÁVEL: Você.
VITORIOSO: Afável.
AFÁVEL: Vitorioso.
VITORIOSO: Não.
AFÁVEL: Saia. Saia já da cama.
VITORIOSO: Não puxe. Tá. Eu saio, eu saio, querida. Ó bem, benzinho, baby, vamos falar daquela viagem que você sonha em fazê-la desde a lua de mel.
AFÁVEL: Qual? Como? Quando? Não temos dinheiro, Vivi.
VITORIOSO: Ó Fafá, fique aqui.
AFÁVEL: Não sei, Vivi.
VITORIOSO: Imagine se tivéssemos a casa cheia de filhos. Tenho um plano.
AFÁVEL: Fala baixo.
VITORIOSO: Tua mãe sempre foi do partido dos que querem entrar no céu a pulso, à força, à faca, a facão.
AFÁVEL: Foi, foi. E daí?
VITORIOSO: Escuta. A casa.
AFÁVEL: A casa não. O longevo casarão. Esse é o lar da mamãe.
VITORIOSO: É dela, mas... porém...
AFÁVEL: Só será nossa com sua morte, Vitorioso.
VITORIOSO: E se a gente abreviasse a morte da Dona Bagatela?
AFÁVEL: Nem fale nisso, Vitorioso. Nem em sonho.
VITORIOSO: Afável, escuta.
AFÁVEL: Eu também estou preocupada com as suas finanças, Vitorioso. Mas não vou fazer como fez o criador de ovelhas, que contratou um lobo pra cuidar delas. Procure emprego. Dê um prego numa barra de sabão. Vá atrás dos seus parentes ricos; muitos deles na política. Casei com um homem rico. Como pode ter ficado mais pobre do que um rato? Sempre lhe aconselhei a cuidar. Vamos deixar, pelo menos, passar o Natal. Natal é Natal. Mamãe adora o Natal. Ela fica o ano todo esperando chegar o Natal. Depois a gente fala nisso, Vitorioso. Por que não pede dinheiro à sua tia?
VITORIOSO: Amanhã ligo pra ela.
AFÁVEL: Ligue, ligue.
VITORIOSO: Ligo.
AFÁVEL: Ótimo. Assim podemos voltar a dormir.
VITORIOSO: E cadê o sono?
AFÁVEL: Não tá, aí?
VITORIOSO: Não. Tá, aí?
AFÁVEL: Também não.
VITORIOSO: Quem me ama nessa casa é você, Afável.
AFÁVEL: Mentiroso.
VITORIOSO: Tá, eu espero.
AFÁVEL: Espera?
VITORIOSO: Espero até depois do Natal. Mas... só até depois do Natal. Essa tua mãe só nos traz aborrecimentos. Ainda bem que temos nossas profissões, e só falta, pra mim, crédito na praça. Meus contatos são o que tenho, no momento, de mais preciosos. Já fechei alguns negócios; só me faltam as confirmações. Não estudamos à toa. O mercado tá cheio de profissionais iguais a mim. O que seria de mim, Afável, se não fossem os juros da dívida pública! Mas, quando dermos um jeito na Dona Bagatela, faremos a viagem dos nossos sonhos. Quem suporta uma velha que tá sempre doente, vomitando?
AFÁVEL: Você sente prazer em maltratar a tua sogra, Vitorioso.
VITORIOSO: Me prometeram um empreguinho público de quinta.
AFÁVEL: Empreguinho público de quinta?
VITORIOSO: De quinta.
AFÁVEL: E quem ofereceu?
VITORIOSO: Não adivinha?
AFÁVEL: Terá sido o?
VITORIOSO: Eu tenho a minha importância.
AFÁVEL: Ninguém, aqui, disse que não tem.
VITORIOSO: Nas reuniões da vila nunca faltei. Qualquer um poderá ler as atas no arquivo histórico. Fui eu quem sugeriu a invisibilidade das favelas, criei a rua limpa 24 horas, tive a ideia de esconder os mendigos, os bêbados e os loucos; inventei a cidade-cultura da sociedade mutatis-mutandis, a cidade ecológica, a cidade dentro da cidade-imagem, a cidade-festa, a cidade-motel, a cidade sem violência nem drogas. Fui eu. De quem foi o projeto? Meu. De quem a utopia da cidade-escola, onde ninguém foge do olho da vila? Foi da minha equipe, que me traiu, que me vendeu. Traidores! Bastardos! Calabar não morreu. Quando eles disseram “estamos em busca de uma política”, a quem eles recorrem? Olhe aqui. Eu cunhei muitas expressões sobre as novas culturas urbanas. É minha a expressão cidade casinha de boneca. Fiz desta vila um achado pros casais em lua de mel. Amargo com isso? Eu... institui esse olhar atento sobre a Vila de São Gabriel. Não me importo nem um coco, Afável, se a tua mãe tem o velho sangue da Baronesa Kuaanddussiphoddenn.
AFÁVEL: Terminou?
VITORIOSO: Tua mãe, Afável, não presta. Nunca prestou. Bandida! Cangaceira! Uma hora, a gota d’água transborda o copo.
AFÁVEL: Quer um copo d’água com açúcar?
DONA BAGATELA: Quem quer água com açúcar sou eu!
VITORIOSO: Mas, que significa isso? E se a gente tivesse?
DONA BAGATELA: Entupa-se!
AFÁVEL: E se a gente tivesse?
DONA BAGATELA: Entupa-se você também, traidora do inferno!
VITORIOSO: Sogrinha... eu te amo.
DONA BAGATELA: O lugar dos dois é uma piscina com diarreia até à tampa.
AFÁVEL: Acordada essa hora, mamãe? Isso faz mal à sua saúde, mamãe.
DONA BAGATELA: Se fizer mar, eu crio peixes. Só estou você, Afável.
VITORIOSO: A sogrinha tá sem sono?
DONA BAGATELA: Vitorioso, você é um homem fraco de espírito, de cabeça, de tudo. A sua felicidade só estará completa quando se ver livre de mim. Não é isso, Vitorioso? Livre de mim com a conivência da minha única filha. É assim que se constrói um porto seguro, Afável? Vitorioso, é assim, passando a perna nos outros, nos juros da dívida, nas negociatas?
AFÁVEL: Mãe, por favor, mamãe. Mãe. Me perdoe. Juro nunca mais pecar. Juro, juro, juro, que vou me ajoelhar no milho, mãe... mamãe... Me perdoe, por amor a São Gabriel...
VITORIOSO: Dona Bagatela, a senhora tá aqui mesmo ou é um fantasma?
DONA BAGATELA: Tá me chamando de fantasma, seu imprestável?
AFÁVEL: Ninguém lhe chamou de fantasma, mamãe.
DONA BAGATELA: Não te mete, alcoviteira.
O que o tempo faz com a natureza? disse Zémambembe; riu. Vovó Velha, Vovó Velha... Já foi chamada de Tanajura. Como fazia sucesso Vovó Velha! Mas a crueldade do tempo foi inclemente até com Vovó Velha, repetiu Zémambembe enquanto lixava as unhas das mãos e dos pés nas pedras ásperas das paredes altas onde se encontrava em Olho D'água dos Lírios. Vovó Velha desconfiou desde o princípio da maciez na voz de Simplicidade e nos seus modos maleáveis quando um adjetivo biforme, como ela costumava falar com o uso frequente das suas locuções adverbiais...
Quem pensas que és, ó Zéééémambembe, disse Simplicidade a plenos pulmões, com essa tua arrogância que cheira a sede de poder, herança da tua baronesa.
Zémambembe respondeu-lhe:
O poeta que se preza,
Não vai na bagaceira.
Mergulha na correnteza,
Pega o verso na carreira.
Rei sultão e com beleza
D'água do mar na peneira.
Por que não te calas, Zémambembe? Por que não te calas, homem? Por que não te calas, coisa sem miolo?
Quem escuta o vazamento
Nas notícias da ideia
E não teme o azulejo
Nem os gritos da valeia,
Faz da língua um realejo,
Faz da boca uma candeia.
Simplicidade, batendo os pés no chão, puxava a argola dos brincos. Levou a palma das mãos aos ouvidos num gesto de se recusar em ouvir as sextilhas do marido, que não parava.
Compra logo uma viola.
Diz o verso qual bicudo.
Rima não pede esmola.
A sextilha não é adubo.
Ouça bem, minha senhora,
Nada faz o verso mudo.
Cala-te, nojento! Cala-te. Odeio poesia, odeio a ilusão dos poetas. Quem rima é mesmo ignorante.
Tua língua é puro fogo,
Que morde, rói toda a rua.
Não vou entrar nesse jogo.
Nunca comi carne crua.
Pedir que pare, não rogo.
Teus gritos só acentuam.
Se abrir, Zémambembe, novamente essa imunda boca suja... Entupa-se!
Assim canta o teu tesão?
Na lápide do sentimento,
Na ladeira o caminhão,
Na pedra do Monumento
Veio buscar o meu tostão.
Grite alto feito essa laia.
Mete a mão no meu colchão.
Mostra a coxa, puxa a saia
Em cima desse balcão.
Tomara que dele caia.
Foi quando Simplicidade discursou, porque sempre foi a última palavra na Vila de São Gabriel. Encolheu-se Zémambembe. Ele a olhou com olhos grandes. A minha memória, Zémambembe, não me trai e nunca me traiu. Fui educada em escola bilíngue, em Olho D'água dos Lírios. Mãe preferia Santana, papai Maceió. Very stranger... Você não pode, Zémambembe, tratar a força do amor assim... Very stranger... Fui tola, Zémambembe, me responda, fui, seu descarado? Toda essa cantilena não me assusta. E pensar... Very stranger... Acreditei que nesse seu casarão, visto de fora, tão imponente e tão respeitado, eu fosse feliz. Você, seu vagabundo desgraçado, me jurou fidelidade. Caiu aos meus pés e os beijou com ternura. Não vi que tudo era ruína de ratos, baratas, percevejos, pulgas, pernilongos... Very stranger, very, very stranger, very, very. Cada verso seu, seu sem senso, é very stranger, Zémambembe, igual aquela música antiga, que eu acostumava ouvir no subúrbio londrino.
Tu nunca sais da igreja.
Roga aos Sagrados Corações.
Cala já esse esgoto, Zémambembe, que não para de mugir. Nunca vi criatura pra balir mais do que tu. Me faz perder as estribeiras. Vais entrar no rabo do tatu. Se é por falta de rima, conheço esse mercado. Dobre os joelhos em terra, rogue perdão por seus pecados. Pulo por cima das rimas raras, esdrúxulas e preciosas, não vou tolerar um bêbado ingresiar comigo agora.
Paz na terra aos mentirosos.
Calúnias à vontade à toda hora.
Logo, logo eu te amordaço, Zémambembe, com parônimos e homônimos, como fiz no passado. Em nossa lua de mel, derramei suco no seu caldo. Usei homônimos perfeitos, quando disse banco quando quis dizer banco. Usei homônimos hétero gráficos, quando lhe disse que seu lugar é na cela e você entendeu sela. Usei homônimos heterofônicos, quando disse colher e você me trouxe colher, quando devia ter-me trazido flores. Me zanguei. Te disse parônimos de variação vocálica, quando falei absorver porque pedia perdão e ouvi da sua boca absorver porque seu entendimento foi aspirar, seu aspirador de pó, de sujeira, cocô de barata. Usei parônimos consonantais, quando disse ratificar, porque queria confirmar, e tu querias corrigir com um carimbo de retificar. Falei tráfego e tu entendeste tráfico, pois não compreende o parônimo de variação sufixal, seu babacal.
Você chegou ao meu portão
Me oferecendo seus quadros
Com sua simpatia nos lábios
E sem nada em seu coração.
Cheia de armadilhas e adros.
A boca escorria só mábios.
Mábios?! surpreendeu-se Simplicidade. Onde diabo achou esses mábios, seu beócio, quando eles foram extintos pré-dinoussauros? Nem vou falar dos adros, que são bisavós dos mábios. Em nome da Vovó Velha, que o tratava como se fosse um novo Deus, paaaara com isso, Zémambembe!
Vovó Velha não aceitava abuso de burrice.
Quê!
Vovó Velha aceitava burrice, que merecia ser coberta de glória.
Quê!
Mas abuso não.
Quando Simplicidade chegou aos portões do casarão pela primeira vez, Vovó Velha disse “Vote!” Eu não acreditei no vote da Vovó Velha; e deu no que deu. O que fiz pra merecer essa vida? Simplicidade chegou de mansinho. Vovó Velha disse “Abre o olho.” Não enxerguei. Vovó Velha disse que ela não entrava. E se entrasse, não ganhava; se ganhasse, não levava. Se levasse, não gozava. Se gozasse, o gozo amargaria. Ainda sinto o cheiro da Vovó Velha. Vejo o xale de pano nas costas dela, o torço colorido, os argolões de ouro, os anéis de pedras preciosas, os colares, a saia limpinha, alvejadas chinelinhas, os braceletes de prata cravejados de dois ou três gemas raras, balangandãs e cordões de ouro. Vovó, não basta ser, tem que sê-lo.
Lá. Para. Aqui, não. Cai fora, gavião!
Mas vovó...
Quê, mas que vovó. Lá, vem o senhor com a velha palavra corrupção. Lá, ainda é usada essa palavra? Seu prosélito do inferno!
Zémambembe beijou as mãos da avó em posição genuflexa.
Perdoe-me, Vovó Velha.
Acho bom, menino. Sabe, Zémambembe, meu filho, um dos meus sonhos de menina era pessuir uma ubá.
Uma ubá, Vovó Velha?
Papai fez com uma casca. Atravessava o rio em minha ubá. Pensava que eu nunca chegava na outra margem do rio. Eu morria de medo de Olho D’Águas dos Lírios, que ficava do outro lado, no pé dos Cinco Rimão.
Cinco Irmãos? Não existe mais esse serrote, Vovó Velha. Foi derrubado.
Foi? Não sabia. E foi derrubado pra quê?
Pra construir um elefante branco, Vovó Velha.
Vixe! E isso inzeste?
Olhe pela janela.
É mermo. O rio tá morto?
Secou.
Nele, eu, a minha ubá, o meu xerimbabo.
Eu alcancei o seu xerimbabo. Gostava daquele cãozinho.
Ele me salvou de morrer afogada.
Hoje, Vovó Velha atravessa a pé. Mas, a partir de amanhã, o rio chegará com tudo. Tá comendo o quê?
Meu bolo de carimã. Quer? Aprendi a fazer com a Cunhã.
Tenho saudade da Cunhã.
Ó meu menino... Meu menino amado. Por que a Cunhã não ficou no lugar daquela Simplicidade e as suas pinturas?
Fui iludido com as pinturas dela, Vovó Velha.
Por que você não rapa o bigode? Você não vive mais à custa de ninguém.
Zémambembe, na cozinha, saboreava o café de Simplicidade:
Uma praga de baratas começou a invadir o longevo casarão. As panelas na cozinha ébanas, tingidas pela lenha que cozinhava os alimentos.
Literatura é lacunas, disse Afável a Vitorioso, não narrativas. Haverá um dia, amore mio, em que as narrativas ocuparão o lugar da verdade. Por seu meio se alcançarão diferentes caminhos. Desde dístico à fábula do fabulista fabulador, cada criação se preenche por vazios.
Simplicidade, você está estramita.
Eu? Estrâmico está você.
Zémambembe olhou a janela aberta e viu uma barata do tamanho de uma anta entrar pela abertura. Os vidros eram foscos, quão os olhos da Vovó Velha.
AS SUAS PINTURAS
ContosMarcello Ricardo Almeida 19/04/2026 - 20h 46min
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