OS JOGADORES DE CARTAS

Contos

Marcello Ricardo Almeida

O aroma de café cedia lugar ao cheiro pesado das velas e flores colhidas às pressas no jardim do longevo casarão da Rua dos Quebraqueixos. E viemos, disse a tia Simplicidade, da Sexta-Feira da Paixão ao Domingo Pascoal.
Nas praças, que não eram poucas, da Vila de São Gabriel, os jogadores de cartas não faziam outra coisa senão jogá-las. As gargalhadas dominavam as ruas e os becos, os prédios públicos, os depósitos dos armazéns nas margens do rio, as igrejas, as capelas, os bancos de madeira, as casas de espetáculos, e chegavam às residências, aos quartos, às camas, aos travesseiros, às cobertas, rompiam o silêncio do mês de abril, o período mais iluminado do ano.
Começava por estalos seguidos dos risos que se contagiaram. Um grito ligava-se a outro. Mais gargalhadas. Elas reverberavam e balançavam as folhas nas árvores, as próprias árvores e o chão que as acolhia.
Eco de gargalhadas dos jogadores de cartas rachava paredes. Jogadores levavam as mãos à barriga sem controlar a crise de riso. Isto atraía transeuntes que, eventualmente, atravessavam as praças largas, longas, arborizadas, com bancos de madeira, mesas de cimento.
Ouvia-se de longe o triângulo. Pássaros, saguis, engraxates, vendedores de pipoca, algodão-doce. O vendedor de quebra-queixo passava.
Era uma sinfonia de travessuras e gargalhadas entre os jogadores que se prolongava por todo o dia. Os rostos se avermelhavam, outros se azulavam das gargalhadas que ocupavam as praças na Vila de São Gabriel.
As toldas da feira no sábado se espalhavam desde Santana. Tomava Vila de São Gabriel, tomava Olho D’Água dos Lírios, tomava Santana a feira cheia. O café, a pitomba, a castanha de caju, o coco ouricuri fazia cordas, terços. Mãos nos joelhos dos jogadores de cartas na tentativa de controlar as gargalhadas.
As xícaras de café, antes levadas à boca com calma, agora repousavam esquecidas nos pires. O azul do longevo casarão pareceu empalidecer diante do rubro rosto do tio, que batia com o chinelo no chão.
O que deu em Zémambembe! cuspiu a tia Simplicidade.
A menina Bagatela via nos olhos da tia Simplicidade as imagens dos livros que mostravam diferentes versões de Anhanguera. Ouviu a menina as vozes de um grupo de povos originários gritarem:
Anhanguera! soavam as vozes em pânico diante do prato com água, que era aguardente, queimar sob a ameaça de evaporar toda a água dos rios. Diabo velho! repetia o povo tupi.
A última vez que Simplicidade esteve em Paris, ela trouxe Les Joueurs de cartes. Embarcava no rio divisor da Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios e, financiada pelas joias da Baronesa Kuaanddussiphoddenn, ia à gastança.
É isso mesmo: nihil, se a vida for levada qual jogo de cartas! disse o sogro de Zémambembe, Sinonímio, aprovado com a cabeça pela sogra Antonímia.
Dona Bagatela disse à Joça:
O silêncio da paixão, menina, é selado por longos beijos e apertados abraços gestados na Dona Semiótica, Joça. Dona Semiótica é irmã da Dona Semântica, nossa amiga do peito.
Joça não se encontrava no campo de visão da Dona Bagatela. Sozinha à noite, Dona Bagatela ouvia o silêncio.
A vela do filtro de barro pingava plac! plec! plic! ploc! pluc! e se repetia até a Dona Bagatela perder a hora. Varava a madrugada rompendo o silêncio com os sons das vogais que cada pingo d’água trazia da vela à parte inferior do filtro.
Tudo o que havia, havia para capturar o instante, disse a si mesma.
A vida na Vila de São Gabriel descarece de rimas. Com a contagem, rimas anelavam círculos contínuos no depósito d’água na parte inferior do filtro de barro diante da Dona Bagatela.
Na primeira linha de plac! plec! plic! ploc! pluc! ela contava cinco sílabas, e na próxima contava sete, depois voltava à primeira contagem.
Olhava corredor adentro, via escuridão. Ajustava a escuridão até compor cinco-sete-cinco. Desenhava com olhos cansados as distâncias entre a infância e o tempo atual. Perdia-se. Como enxergar o passado se ele muda a cada hora? A vida poderia ser mais leve.
Quem suporta o peso do aluguel de casa? Dependência do supermercado é um suplício que só se equipara à Sexta-Feira Santa. E os lábios da Dona orava todas as orações conhecidas e desconhecidas, lembradas, inventava trechos de rezas ancestrais, perdia-se presa à vigília.
Sombra passageira cai sobre o velho telhado. Sombra do tempo.
O gato Kigo vinha esfregar-se nas pernas gordas da Dona Bagatela. E ela perdia-se, os olhos fixos nele.
Vai caçar um rato, seu desgraçado! o bicho emitia pavoroso miado, sumia. Era como se nunca tivesse existido. Nem Kigo nem as pernas gordas da Dona Bagatela.
No jardim do casarão, uma rasga-mortalha conversava com outra:
Minha hora chega já, minha hora chega já, minha hora chega já.
Dona Bagatela trabalhava a sonoridade na sua cabeça para não a perder:
Uma nuvem d’água e duas formigas na mesa. Chuva no sertão.
Dona Bagatela preferia distância dos bichos. E houve uma época em que não vivia sem eles. A vida é bem engraçada, disse. Kigo sabia quando ia chover, quando chegava o verão, se o inverno estava próximo; ele sentia o cheiro de folhas secas caírem das árvores.
Dona Bagatela apagou uma gorda lágrima que escapou do olho esquerdo. Saudades do Teikei, o seu cão cego e obediente. Ele viveu 17 anos.
Bagatela adolesceu e veio do tio Zémambembe um Kireji. Ela cavalgava o Kireji por toda a Vila de São Gabriel.
Com Kireji, Bagatela adolescente via a Vila de São Gabriel como o umbigo do mundo; sequer observava a passagem do tempo. E a sua percepção era feita de momentos, sem saber que o sol cedia à noite.
Bagatela propôs ao tio Zémambembe substituir o nome do cavalo. Como assim, menina! a repreendeu. Chamá-lo de Haiga, tio. E donde tirou isso, Baga? A imagem dele, tio, dá a impressão de...
Plac! plec! plic! ploc! pluc! Dona Bagatela via passar quatro sombras nas paredes da sala. Quando não era Kigo, aparecia o ritmo do Teikei, ora a pausa do Kireji, e, por fim, Haiga projetava as hélices do ventilador na parede em sua frente, que giravam devagar, de vagar, divagando.
Dona Bagatela segurava um mata-moscas à espera dalgum mosquito. Foi quando lhe surgiu de improviso:
Mosquito tonto bate as asas sem parar. Mata-moscas zás.
Lembrou-se do Kireji, que era a sua surpresa preferida. Mata-moscas zás e aqui jaz outro mosquito. O sangue no chão.
Dona Bagatela demonstrou dó do mosquito no chão. O corpo fininho. Fim. Teikei. Kigo, com o faro do tempo, aproximou-se do mosquito morto.
Joça apareceu à Dona Bagatela:
Acordada?
A idade não tem sono.
Vá dormir, Dona Bagatela.
Espero o sono.
Ele não vem?
Marcou encontro comigo.
Aqui?
Foi.
Por que não espera por ele na cama?
Cala a boca, sua atrevida!
Amanhã é o aniversário da Dona Semiótica, Dona Bagatela.
Dona Semiótica passou a construir narrativas, Joça.
Foi?
Por meio das imagens, Joça, no Seu Inconsciente, o marido dela, que não largava o celular nem no banheiro.
Seu Inconsciente é o marido dela, agora?
Deixe terminar, enxerida! Seu Inconsciente só enxerga a realidade pelas imagens.
Como assim!
Foi o que disse Dona Informação Duvidosa.
Não sabia.
Sabia, Joça, que a Dona Informação Duvidosa, quando tinha a metade da sua idade, teve um caso com o tio Zémambembe?
Foi? Como são as coisas, né, Dona Bagatela!
Naquele tempo, o tio Zémambembe era um famoso entomologista, e fazia palestras até em Paris. E depois, Joça, arrastaram o tio, ele foi ser entomologista forense.
Que diabo é isso!
Usava insetos pra estudar casos em decomposição.
Piorou, Dona Bagatela.
Vigie um copo d’água.
Dona Bagatela sai com cada uma!
Depressa, peste.
Não sei onde Dona Bagatela desenterra essas palavra.
Dona Bagatela mergulhou no copo d’água trazido por Joça. Ela enxergou, na transparência do copo, a tia Simplicidade. Os gritos da tia eram ouvidos pelas fachadas azuis, amarelas das casas na rua de espaços e jardins, no bairro Psiu. Desciam os gritos na Rua dos Quebraqueixos. Os gritos alcançaram residências de terracota. Os gritos descascavam um pouco, revelando camadas de histórias em cada calçada.
O som dos gritos era a mistura constante das risadas do tio Zémambembe à caça de insetos. O rádio trazia notícias das guerras, no outro lado do mundo.
As conversas do tio sobre os insetos atravessam paredes. E o silêncio súbito cortou a rua como uma lâmina. Sumiu a água na transparência do copo à mão da Dona Bagatela.
Bagatela menina ia à escola. No trajeto, brincava com borboletas. O azul vibrante do casarão vizinho pareceu empalidecer diante do rosto rubro do Seu Antenor, que batia com o chinelo no chão enquanto apontava o dedo trêmulo para o portão da Dona Matriarca.
Tia Simplicidade sentia prazer em fazer-me decorar blá-blá-blá... diga qual é o nome dessa. E apontava com a palmatória. Essa é a borboleta Monarca? É? É ou não é, Bagatela? Repita comigo. Borboleta Monarca ou Danaus Plexippus. Diga, menina. Diga, sujeita. Diga, infitete. Não procure seu tio com os olhos, pois ele não vai lhe ajudar. Repita comigo. Borboleta Coruja é chamada assim quando é na verdade Caligo Brasiliensis. E essa, Bagatela? Essa é a... Diga, cidadã. É borboleta... Borboleta Azul ou Capitão-do-Mato, mas o certo é Morpho Helenor. Agora essa. Essa? Diga. Borboleta 88, a Diaethria Clymena. Qual é, entre essas borboletas na sala, Bagatela? Essa, a senhorita vai, vai acertar sim. Vamos. Fale. Desembucha. Borboleta-Pavão-Escarlate ou... Ou...?
Ai!
Ou...?
Ei!
Ou...?
Ih!
Diga, Bagatela. Diga logo o nome da borboleta ou esta palmatória seguirá o canto na palma da sua mão. O nome da borboleta, Bagatela.
Oh!
Diga.
Ui!
Anartia Amathea.
Após o exíguo intervalo de tempo, iniciava-se outra sessão. Mal a menina Bagatela olhava a gigante diante dela. Desviava o olhar. E via, através do janelão rasgado na parede grossa feita de pedras brutas, o tio, distante, entre as árvores.
Ai!
Vai dizer-me, Bagatela, que não conheces o Dianthus Caryophyllus?
Ui!
Cravo, Bagatela. Cravo, menina. Sexta-feira passada, criatura, foi Sexta-Feira Santa. Cravo ou Dianthus Caryophyllus. E o antúrio?
Tio Zémambembe, no amplo jardim banhado de luz, cantava versos a pás de improvisos:
Pé-que-bra-do só es-cre-ve
Quem é mui-to pre-di-co-so,
Quem no tra-ba-lho se e-mule-ve
E no pen-sar é ca-si-nhoso,
Pois a rima não se e-leva
Num su-jei-to pre-di-co-so.
Distanciava-se o tio da tia Simplicidade à procura de sextilhas presas sob as velhas árvores, que se envergavam durante a passagem do tio.
Pé-que-bra-do só es-cre-ve
Quem é mui-to pre-di-co-so,
Que em ra-ras á-guas se a-tre-ve
E não é me-di-ta-bu-ndo;
No mar do ver-so se en-re-de
Na sua rima-do pe-no-so.
Tio Zémambembe divertia-se com as palavras com as quais compunha os versos. Tangiam o cateto oposto e o cateto adjacente com o padrão esquema rítmico:
Pé-que-bra-do só es-cre-ve
Quem é mui-to pre-di-co-so,
Pois a rima não se mo-ve
Num po-e-ta de-va-go-so,
Que em vez de dar o que de-ve,
Faz o ver-so fa-di-go-so.
Na escansão, seguia o tio Zémambembe a tanger as tangentes nas tigelas do repente sob as árvores centenárias do jardim, troncos gigantescos que davam acesso aos elementos mágicos, sobrenaturais e com um final feliz. Tudo o que o tio contava tinha um final feliz. Ele vivia de finais felizes. Não aceitava um final triste em quaisquer circunstâncias. As suas narrativas eram repletas de heróis e vilões, obstáculos e reviravoltas. Ele soprava o era uma vez diante dos desafios e o desfecho feliz. Sempre começava por um dístico, que substitui o esfarrapado era uma vez:
Pé / que / bra / do / só / es / cre (ve)
1      2       3       4      5     6      7
Quem / é / mui / to / pre / di / co (so)
1        2     3       4      5      6      7
Enquanto a tia Simplicidade esbravejava em um daqueles 65 quartos do longevo casarão, o tio caçava versos entre as árvores. As xícaras de café, antes levadas à boca com calma, agora repousavam esquecidas nos pires. Bagatela aprendiz de segredos recuou um passo, apertando a borda do avental, enquanto os sussurros nas calçadas vizinhas subiam de tom como um enxame de abelhas.
Dona Matriarca não se levantou; apenas pousou o biscoito mordido sobre a mesa de ferro, os olhos estreitos fixos no tempo que prometia chuva há meses, enquanto o som de um rádio de pilha, vindo do balcão da padaria, era a única coisa que ousava preencher as lembranças da Dona Bagatela, que olhava nas mãos uma fotografia de Joça quando jovem e tola. As venezianas de madeira da padaria recebiam o sol da manhã. As samambaias tingiam o dia.
No tempo da Baronesa Kuaanddussiphoddenn, disse os remanescentes, a Saudosa cantarolava nos amplos salões do longevo casarão:
Desdichado aquel que
No ama la vejez;
Maldice cada día.
Recuerda el pasado
Con gran tristeza.
E cantava a Saudosa na língua de Goethe e Schiller, de Heine e Hölderlin, de Rilke e Brecht:
Unglücklich ist, wer
Das Alter nicht liebt;
Jeden Tag flucht.
In tiefer Trauer an die Vergangenheit denkt.
Den Augenblick verabscheut
Und vergeudet lebt.
Die Freude verachtet
In törichten Klagen.
Bald verliert er sein Leben.
Passava a Voz à língua de Baudelaire e Hugo, de Rimbaud e Verlaine, de Mallarmé e Éluard:
Malheureux est celui qui
N'aime pas la vieillesse;
Maudit chaque jour.
Se souvient du passé
Avec une grande tristesse.
Dégoûte le moment présent,
Et vit sa vie en vain.
Méprise la joie
Dans des lamentations insensées.
Perd bientôt la vie.
A baronesa governava a família com estratégias e não com narrativas. Ela retornava à língua de La Vega e De Vega, de Quevedo e Santa Teresa de Jesús, de Bécquer e De Castro, de García Lorca e Antonio Machado:
Desdichado aquel que
No ama la vejez;
Maldice cada día.
Recuerda el pasado
Con gran tristeza.
Desprecia el presente,
Y vive la vida en vano.
Desprecia la alegría
Con necios lamentos.
pronto pierde la vida.
Dona Bagatela olhava as calçadas; via as cadeiras de ferro. Continuavam enfileiradas. O único som era o ranger do metal balançando ao vento, sem ninguém para ocupá-las.
A jovem Bagatela, que antes inclinava o corpo para ouvir segredos, agora permanecia estática no portão. Os olhos vermelhos fixos na xícara de porcelana vazia sobre a mesa de ferro.
Dona Bagatela era pálpebras cansadas. As janelas das casas, na Vila de São Gabriel, antes escancaradas para a fofoca, agora se fechavam uma a uma à medida que as lembranças da velha Bagatela lhe pesavam sobre os ombros.
O único som era o arrastar dos sapatos e o choro contido da Vovó Velha.
Na frente do longevo casarão, Dona Bagatela avistou o passado. Eram os amigos do tio Zémambembe, que seguiam de cabeça baixa, o chapéu amassado nas mãos, enquanto o sol poente projetava sombras longas e distorcidas.
E, no descuidado jardim do longevo casarão, Dona Bagatela via as flores que se jogavam às paredes. Via as fachadas vibrantes em tons de azul-turquesa e rosa-choque, que brilhavam sob o sol.
Joça corria atrás de uma galinha, seguida pela sombra, entre o verde das samambaias, que transbordavam dos vasos.
Dona Bagatela conteve a voz. Quis gritar com Joça.
Nas calçadas, o som de cadeiras de ferro arrastadas no cimento.
Menina Bagatela via do portão os braços cruzados sobre os muros baixos e ouvia risadas que ecoam de um quintal ao outro enquanto o aroma de café fresco invadia a rua.
Sempre com essa maldita boneca de pano, Bagatela! gritava ao ouvido a tia Simplicidade. Bagatela dava um pulo de aflição.
No outro lado da rua, Dona Matriarca mantinha os olhos atentos a cada movimento, alternando a atenção entre o patriarca da vila e uma adolescente que inclinava o corpo para não perder uma palavra sobre as ervas do jardim. Na frente da padaria, duas senhoras mergulhavam biscoitos na xícara de porcelana, deixando o farelo cair sobre o colo.
O silêncio cortou a rua. Dona Bagatela lia exames médicos e não conteve as lágrimas.
Bagatela, aprendiz de segredos, apontava o dedo trêmulo para o portão da Dona Matriarca.
Que tem essa menina! cuspiu a tia Simplicidade.
Bagatela apertou a borda do avental.
As vozes, disse Dona Bagatela à Joça, que cozinhava, subiam o tom qual enxame de abelhas em sua cabeça.
Cruzes, dona! preocupou-se Joça. E o corte da peixeira, recém-amolada, tirou um bife do dedo. Ui! meteu o dedo sangrando na boca.
Tenha mais higiene! berrou Dona Bagatela.
Perdão, Dona Bagatela, disse às lágrimas. Isso não vai mais ocorrer.
Espero. Desmiolada.
Dona Bagatela viu Dona Matriarca levar os pacotes de biscoitos ao colo.
Aquela era Dona Matriarca?
Quê! fazia Joça um curativo. Quem foi, Dona Bagatela?
Dona Matriarca, na calçada da padaria, servida de biscoitos e café.
Essa hora?
Cale-se!
Dona Matriarca morreu há 27 anos, Dona Bagatela.
Morreu?! surpresa. Não sabia. E por que não fui avisada?
Como!
Como?
A senhora esteve no velório, na missa de sétimo dia...
Cale-se!
Dona Bagatela viu a menina Bagatela correr no jardim do longevo casarão e estibungar na piscina. Ergue-se. Esguia. Saiu. Não era a menina, era o tio.
Que faz Zémambembe nessa hora ali? disse a tia Simplicidade.
E a tia Simplicidade? perguntou Dona Bagatela à Joça, que temperava a salada.
A Dona Simplicidade faleceu há mais de duas décadas.
Quê!
Talvez há três décadas.
Não creio.
Não?
Sim. Hoje, pois, a ouvi cantar assim: “Malheureux est celui qui/N'aime pas la vieillesse;/Maudit chaque jour./Se souvient du passé/Avec une grande...”
O som de um rádio de pilha, vindo de algum quarto, era a única coisa que preenchia a boca e impedia os frequentes gritos da tia Simplicidade.
Lá fora, uma leve brisa com cheiro de chuva sacudia os panos molhados estendidos no varal. As cores dos panos recém-lavados coloriam a vida da menina, que brincava entre eles como se fosse um buquê nas mãos do vento.
Nas calçadas do longevo casarão na Rua dos Quebraqueixos, as cadeiras de ferro enfileiradas. O último som era o ranger do metal balançando ao vento, sem ninguém.
O pote de biscoitos amanteigados parecia um monumento silencioso.
Os jogadores de cartas interromperam as gargalhadas. As paredes eram apenas molduras do silêncio cuja rua jamais conheceu.
O velório na sala de estar. Dona Bagatela sentada na cadeira de palhinha do tio Zémambembe. Os vizinhos passavam em passos lentos, trocando apenas olhares marejados e apertos de mão mudos. As moscas ocupavam a cara da morte e o pote de biscoitos amanteigados ao lado do morto.
Dona Bagatela diante do cemitério vazio.
Eu sou o próprio terreno santo.
O caixão de madeira clara avançava lentamente.
Os jogadores de cartas carregavam o féretro da tia Simplicidade. Atrás do cortejo, Bagatela caminhava com um pote de biscoitos vazio apertado ao peito. Não era a tia Simplicidade no caixão, mas o tio Zémambembe.
Braços firmes, que tantas vezes seguraram xícaras de café nas calçadas, bocas, que gargalharam nas praças da Vila de São Gabriel, mãos dos jogadores de cartas soltaram as cordas no jazigo eterno do tio Zémambembe.
Onde antes fervilhava o som das gargalhadas, restava apenas o estalo da madeira, dos metais e o lamento de um cachorro ao longe.
Um balanço, na praça, sem os jogadores de cartas, esquecido, oscilava ao vento. Rangia. O ritmo contava o tempo que restava à Dona Bagatela.
Joça observava as sombras das samambaias se alongarem pelo chão.
O almoço na Sexta-feira Santa foi robalo. Joça segurava a peixeira que a feriu em sua mão pequena e de dedos longos cujas unhas estavam pintadas de cores diferentes. No braço, uma tulipa tatuada.
Essa figura no seu braço, disse Dona Bagatela, que coisa horrível!
Horrível?
Horrorífica. Parecia o portão da oficina de Sinonímio, em Olho D’Água dos Lírios. O pai da tia Simplicidade mantinha essa imagem nas entradas de casa. E desconfiei que fosse alguma magia poderosa.
A senhora acha?
Não sei.
Me disseram, dona, que essa coisa livra a gente do mal.
Sei...
Paredes de pedras, na marcenaria de Sinonímio, derrubadas, erguidas. caíram e outra vez foram levantadas.
Nessas paredes, mulher, disse o velho Sinonímio, nessas paredes cegas, rasgaríamos janelas, portas, passagens. Por um sem fim se mexiam com canoas de pescadores velhos e contornavam as pedras que flutuavam no rio. Por que essas canoas não afundavam?
Eles moravam nas margens do rio.
E sob um telheiro antigo coberto por eiras e beiras a espiarem uma nesga d’água, acomodava-se a residência da artista Simplicidade que chegou às portas do longevo casarão oferecendo aulas de pinturas ao tio Zémambembe. Trazia a artista Simplicidade fotografias dos seus quadros, das suas exposições em São Paulo, em Paris. O alpendre dos pais adornado por balaústres e nos corrimões vasos com roseiras plantadas por Antonímia, mãe da tia Simplicidade.
Jornais desfolhavam-se no chão da varanda de Sinonímio. Eram jornais inúteis, vazios. A tia Simplicidade mostrava a coleção de reportagens ao pai com exposições em Londres, Amsterdã e Moscou. Mas naquela casa ninguém dava atenção a um amontoado de palavras inúteis, vazias.
Sinonímio e Antonímia, sentados na varanda, palestraram:
Você é doido demais, ela censurava-lhe.
Vamos falar miolos de pote.
Propunha Sinonímio fundar reinos. Ele, dos sentidos assemelhados, e ela, a senhora dos opostos.
E povoá-los de quê?
Alface, repolho e couve-flor.
Só não me traga as samambaias.
Você diz?
Digo.
Vamos.
Vamos?
Vamos fazer leis. Abrir ruas. Derrubar paredes. Construir casas.
Não.
Não?
Não tenho vontade. Minha vontade é olhar o rio.
Sabe o que me realiza?
Sim.
Sabe?
Não.
E por que disse que sabe?
Eu disse?
Disse.
Não sei.
O que me realizava...! hesitou.
É. O que te realiza?
Rasgar portas em paredes cegas.
Ah! gozou. Isso também me realiza.
Realiza, é?
Realiza. Rasgar portas em paredes mortas. E um café forte após o almoço na Sexta-Feira Santa. Um biscoito amanteigado...
Esse dia, no morrer da tarde, não é abafado. Não na beira do rio.
O rio sempre mata o mormaço.
Entendeu, né?
Nada. Mesmo a quem nada, não entendi nada. Diga alguma coisa.
Eu não posso dizer o que não sei. Eu só posso dizer o que sei. Duma coisa sei: nada sei. E você sabe, né?
Não.
Se eu sei? Se eu soubesse não teria tido só uma filha. E pior: metida com arte, pincéis, tintas, quadros e Body art. Ela foi fazer o que em New York?
Você sabe.
Depende.
Depende de quê?
Depende se “você” sabe.
Eu já disse que só sei o que sei.
Então, você não sabe.
Não sabe o quê?
E eu sei!
Você é um tipo que esconde a manha por trás das orelhas.
E você a manhã.
Eu?
Essa é a sua política.
Não gosto de detectar vaidades.
Avareza é sempre tão avara e cobiçosa.
Cara de sabão, a ira tem sido preguiçosa e o tamanho da sua gula devora até mesmo a inveja, disso você não sabe, nem os espelhos. Tudo em nome da soberba, da avareza e da luxúria, você quer dizer; diga, eu suporto. Eles vieram do estrangeiro por que estavam com fome? Não; eles vieram matar os nativos e tomarem as suas terras, as suas filhas e escravizarem à vontade. Vieram pilhar e mandar.
De novo com essa conversa? Isso é velho. Mude o disco. Não? Olhe esta paisagem. Veja. Quem tem as suas classes e condições não sai nunca da sua terra pra aventurar-se em terras alheias.
Aventurar-se em quê?
Ah!
Sabe.
Não sei nada.
Você larga o que larga e suspira pelo monturo.
Não me ofenda.
Larga.
Não insista.
Larga ou não larga?
A solução de quem não quer sofrer é morrer antes.
O invejoso não se conforma com as coisas, eu sei; e isso é a sua cara de cão de caça.
Eles não querem pisar no chão, querem pisar no espaço.
Aqui mora o corpo, mas o espírito vive no estrangeiro.
Tá rindo de quê?
Se eu reclamo da vida, tenho o que reclamar.
Não me esqueço.
De quê?
Daquela vez?
Que vez?
Da vez em que nos separamos dentro de casa.
Ah!
Não quer ouvir?
Não quero ouvir.
Você e eu, um sem saber o que fazia o outro.
Não quero ouvir. Mas foi bem isso mesmo: você atrás duma tora de pau pra acender fogo.
Todo dia, todo dia, todos dias... a gente brigava.
O doido é doido porque é teimoso ou o teimoso é teimoso por que é doido?
Doido? Não tenho resposta.
Tire a mão daí, tarad...!
Essa chama se apaga um pouco a cada dia.
O mundo acaba hoje.
Velhice só fala em doença, morte e cemitério.
Senti uma fisgada bem aqui.
Deixe ver.
Não vai ver nada.
Deixe.
Sai daí!
O mundo se acaba e deixa de existir o livro sagrado e o fogo come de vez todas as peças de teatro. O que sobra? Nesse dia, a palavra silenciada, apagada da boca do povo em Olho D’Água dos Lírios.
Olho D’Água dos Lírios é o centro do mundo.
Centro de quê!
Eu tenho métier para lhe falar isso.
Eu sei o que é que você tem.
E o vento que sopra do rio afugenta o calor da tarde do Domingo Pascoal.
Hoje, eu acordei mais tristes do que os discursos de Cícero, no Capitólio.
Um chá?
Pra quê?
Eu faço.
Não faça.
Não, faça.
Faço; não me custa.
Vida não tem sentido pra um marceneiro e a mulher nessa terra defronte ao rio. Melhor foi a vida que tivemos diante do mar de Maceió.
Tem tomado os remédios?
Por que a pergunta?
A pergunta por quê?
Porque nós somos datados.
Dotados, não datados.
Dotados?
De estruturas de propriedades particulares.
Seu chá.
Ó! sorriu.
Trouxe todos os chás da casa velha.
Quer plantá-los na casa nova?
Nada acontece senão a morte e o nascer do sol.
E o que temos?
O que sou depende de mim.
Pelo voo desse gavião, a semana é de chuva e vento.
Igual a esse gavião, estou preso em minha individualidade.
Todo gavião tem ciência; ela é parecida com a nossa conduta em relação a nós mesmos, aos outros e ao mundo.
Por que falar essas coisas?
Não posso?
Em plena Quaresma?
Hoje ainda?
Fiquei cinco horas de joelhos diante do Senhor morto.
Por que não falar em madeira, em tábuas de caixarias, por que não falar em florestas, em casas, em barcos, em peixes e em riquezas? Por que falar essa linguagem, que é a linguagem que não entendemos?
Observo que o gavião é um ser inteligente que se desenvolve numa sociedade de imbecis; e as asas desse gavião são diferentes das asas daqueles passarinhos. E observando esse gavião, a solidão merece todos os elogios do mundo. As asas dos passarinhos são arredondadas...
Há certas visões que não passam de agonias.
Que deseja esse beija-flor?
Talvez um haicai.
Quem sabe, uma libélula procura uma poça d’água.
Ela plana e não para de combater o ar.
Quem?
O gavião. Quem poderia ser?
Você é capaz de estabelecer a equivalência entre o justo, o belo e o inútil?
Foi mesmo Moisés autor do Pentateuco?
Só há início se houver gênese.
Tudo é uma questão de bem e mal, verdadeiro e falso?
Duvido. Isso é falso. Duvido. Um dia, escreva, a verdade será superada pela pós-verdade.
Acredito no que intensifique, engrandeça e embeleze.
A verdade o que é?
O incerto, até mesmo o falso.
Tu dizes?
Por que só atribuem valor à sinceridade?
E você queria que atribuísse valor à mentira.
Esse gavião sobre a nossa casa é bem egoísta.
Moralismo essa hora da tarde?
Qual a boa intenção dessa ave, qual a moral?
Há uma hierarquia no universo, uma hierarquia em cada um. Esse gavião obedece à hierarquia da sua natureza.
Pra você, o que vale é a moral do sacrifício e da renúncia.
O que vale é a moral, o não-sacrifício e não-renúncia.
Ainda se refere ao gavião?
Não; mas gosto de jogos de azar. Às vezes, eu sonho que sou o criador dos jogos de cartas.
O gavião, aposto, não se submete a métodos pedagógicos de princípios abstratos.
Isso depende do pragmatismo das suas asas.
Se eu tenho uma alma?
Asas.
Se você tem alma?
Esse bicho tem alma?
A alma é o próprio gavião em seu voo.
Isso é intuição ou inatismo?
Se o gavião tem alma, nem tudo é ético ou estético.
O que está aqui, agora não está.
Moral não oprime pessoas como o ar não oprime o voo do gavião.
Dona Bagatela, questionou Joça, era assim que eles viviam?
O tempo todo, minha menina, o tempo todinho assim.
E o que mais?
Um gavião se vai, e logo outro ocupará o seu lugar.
Contasse mais, Dona Bagatela.
Não lhe contava mais por ausência de tempo.
Por favor...
Precisava rezar, minha filha, pra Nossa Senhora do Bom Parto.
A chuva miúda desceu sobre o jardim do longevo casarão. Nele restou a sombra do tio e da tia. A mesa de ferro mostrava a mancha circular de café seco, que se apagava com a chuva depois de anos. Joça rogava à Dona Bagatela que lhe falasse mais quem foi o seu pai, porque desconfiava ser filha do marceneiro Sinonímio.
Ele foi apenas o genitor.
Não fosse cruel, Dona Bagatela.
Minha menina... Quanta ingenuidade em carnes tão flácidas!
Eu?
Não. Eu.
Pensei que fosse eu.
Uma única formiga explorava o farelo solitário de um biscoito amanteigado que ninguém recolheu sobre a mesa de ferro construída pelo tio Zémambembe. As vozes do marceneiro Sinonímio e da sua mulher rondavam o longevo casarão na Ruas dos Quebraqueixos.

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