ANÁLISE DO VERSO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

É isso mesmo: nihil?
Entendi, lendo, que a vida é a linguagem. É? Há a festa do circo, as luzes e as brincadeiras. E, quando as luzes se apagam, o que resta é nihil?
Escrevo a Você pra comentar, não só sobre a linguagem; sobre narrativas e a verve do Zémambembe, que nos obriga a crer na força do nihil. Eu já escrevi tanto, que perdi a conta, e Você nunca me respondeu; mas irei continuar.
Acompanho as narrativas do Zémambembe desde a criação.
Pra dizer de maneira prolixa, talvez prolífica:
A roupagem do Zémambembe é o estereótipo dessa geração saturada de informações? Me parece. Não parece a Você?
A memória do Zémambembe, impregnada de semiótica por todos os lados – Você há de convir – e verborragia, que parece coisa própria das redes repletas ao seu grau máximo, se iguala – Você não acha? – a memória dessa geração responsável por uma próxima geração saturada.
Aposto com Você de que a próxima geração virá saturada e, portanto, não reconhecerá Seu Lé, nem sua mãe, Dona Cré, filha da Escuridão e do Amoníaco. Todos hipocondríacos, dependentes dos operários das ruínas vagando na terra.
Zémambembe, até onde sei, embrenha-se nos termos abstratos: quando não é semiótica, é estereótipo, senão verborragia. Como se cercado por memes o tempo todo, Você sabe, os dedos não param no loop de scroll sem fim.
Já observou o olhar do Zémambembe? Vai de uma paisagem à outra, como se visse propagandas de três segundos, e já enjoasse de todas elas.
E escrevi pra falar sobre poesia do tempo e o tempo da poesia presentes no próprio enredo do Zémambembe no qual ele mesmo se enredou com a tal da Simplicidade. Não sei ainda se pra salvar a sobrinha Bagatela.
Sei que o Zémambembe nunca foi direto e objetivo. Afinal, não era próprio dele priorizar a função referencial da linguagem, embora afeito às enciclopédias. Pra continuar nessa toada jakobsoniana.
O Zémambembe, pelo que já percebi, não tinha compromisso denotativo, mas tinha uma queda à função emotiva. As suas opiniões, segundo avaliações da Vovó Velha, eram carregadas de emoções.
Vovó Velha inclusive, como se sabe, sempre foi presa à função conotativa. Dava ordens, no longevo casarão, a torto e a direito. Apelativa, a vovó só falava com verbos no imperativo.
Li essa última publicação. O Zémambembe atropelou a função fática. Não disse um olá – seja quem quer que seja. Mas, por outro lado, ele abusou da função metalinguística pra falar de si mesmo.
Não vou dizer a Você que o Zémambembe não usou a função poética. Ele sabe como construir a mensagem, disto jamais discordarei. Aliás, este é o motivo de ter-lhe escrito o que intitulei de Análise do Verso pra comentar sobre o lírico, excetuando o épico, mesmo reconhecendo o valor da narrativa do Zémambembe no “Carro de boi” durante a jornada entre a Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios, e o dramático aristotélico.
Zémambembe, a despeito de – vou dizê-lo com essa locução prepositiva – ser o que é, ele não é apenas o marido de Simplicidade, tio de Bagatela e neto da Vovó Velha. O foco dele é no eu lírico, que observa a decadência existencial.
O que me faz escrever a Você é a arquitetura temporal e rítmica. A poesia do Zémambembe cria uma cadência mecânica.
A métrica não serve à leveza, mas à opressão.
Como Zémambembe surge no “Carro de boi” qual relógio poético? Porque ele é a brevidade de cada verso mimetizado no tique-taque do tempo. Faz isso com cortes abruptos. Mostra nos versos que o tempo escorre e ele não se perde em lamúrias.
O vocabulário é marcado por prefixos e conceitos de subtração: "Desgoza o instante": É o ponto central por ressignificar o ato de desgozar como o avesso do carpe diem. Não é apenas não aproveitar; é a ação ativa de retirar o prazer do presente.
Zémambembe repete a raiz da palavra com funções diferentes: "Viver vive à toa." Com a figura do poliptoto, ele enfatiza a redundância nesse verso. A vida torna-se um sistema fechado que não produz significado, apenas existência biológica.
Estar vivo vs. Perder a vida. O poema é construído sobre contradições fundamentais.
O Zémambembe busca no passado uma forma de existir. Mas essa busca resulta em frustrações, o que o impede de habitar o único espaço real: este hoje, este advérbio temporal, embora Dona Sintaxe prefira advérbio de tempo.
Anula sua vitalidade com Passado vs. Presente. E gasta sua energia vital sem praguejamentos e com lembranças.
A vida pra Zémambembe, no longevo casarão, é uma fábula moderna sem final feliz. O tom é sentencioso e moralista.
A jornada do Zémambebe, entre a Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios, amarrado à mesa do carro de boi, representa o diagnóstico da amargura humana.
No carro de boi está a forma clássica pra diagnosticar um mal moderno: a incapacidade do afeto consciente. Pra Zémambembe, que perde a vida antes mesmo da morte chegar, o amor não é um luxo, mas o único elemento capaz de quebrar o paradoxo da vida que se consome a si mesma.
Os versos do Zémambembe espelham a brevidade da vida:

Infeliz de quem 
Não ama a idade;
Pragueja todos dias.
Lembra o passado 
Em grande tristeza. 
Desgoza o instante,
E o viver vive à toa.
Despreza a alegria 
Em lamúrias tolas.
Logo perde a vida.

O ritmo rápido faz com que se sinta a pressa do tempo que "Logo perde a vida." Cria-se uma urgência que contrasta com a aparente inércia do carro de boi.

In-fe-liz-de-quem (5)
Não-a-ma-a-i-da-(de) [elisão: ma+a+i] (5)
Pra-gue-ja-a-ca-da-di-(a) [elisão: ja+a] (5)
E-lem-bra-o-pas-sa-(do) [elisão: bra+o] (5)
Em-gran-de-tris-te-za (5)
E-des-go-za-o-ins-tan-(te) [elisão: za+o+ins] (5)
E-o-vi-ver-vi-ve-à-to-(a) [elisões: e+o / ve+à] (5)
Des-pre-za-a-le-gri-(a) [elisão: za+a] (5)
Em-la-mú-rias-to-(las) (5)
Lo-go-per-de-a-vi-(da) [elisão: de+a] (5)

O poema apresenta um esquema de rimas intercaladas e emparelhadas. Alguns funcionam como versos brancos por não apresentarem rima aparente.
O ritmo dele é predominantemente iâmbico ou anapéstico, com tônicas frequentemente nas posições 2 e 5 ou 3 e 5, garantindo a fluidez da vida. Hiato vs. Elisão: Zémambembe realiza as elisões em "Não ama a idade", onde o som de "a" se funde quase totalmente.
O poema é rico em figuras que reforçam o tom melancólico e a passagem destrutiva do tempo. Sugere que o envelhecimento é um processo hostil pra quem não ama.
A repetição fonética do /v/ (viver, vive, vida) e das vogais abertas criam a sonoridade do cansaço, da monotonia do ciclo vital. E o passado metonímico do Zémambembe representa o que poderia ter sido e não foi vivido. A jornada, preso à mesa do carro de boi, não tá no tempo em si, e sim na forma como a mente o demonstra.
O lírico pessimista apresenta uma contagem que castiga quem não cultiva o amor ou a alegria. A desumanização causada pela ausência do amor.
O Zémambembe é a corrosão do ser pelo tempo. Ele foca a ideia de que a vida, sem o afeto consciente, torna-se um fardo mecânico e vazio.
O eu lírico é um indivíduo que vive em retrospectiva.
O passado sugere terrível arrependimento. O Zémambembe não consegue separar o que é do que já foi. Isto lhe gera o desgozo do presente. Ele está preso ao que perdeu.
O redundante ciclo do viver o viver. A falta de amor e de abertura à alegria transforma a trajetória do Zémambembe nessa jornada de amargura.
Infeliz de quem não ama. O Zémambembe fala do amor, não um sentimento romântico, porém uma percepção do viver.
“Nhééé-crac, nhééé-crac!” é o bruto peso do tempo que o leva ao divisor de águas entre a Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios. Sem o amor, ele perde a capacidade de filtrar a realidade.
O Zémambembe transforma a jornada em insipidez. Porque "desgozar" é a ação ativa de anular o prazer.
Os versos do Zémambembe exploram o que há de maior nas contradições humanas: estar vivo e, simultaneamente, estar perdendo a vida. 
Incapaz de encontrar valor no presente. A vida é nihil, ou seja, nada, como nos ensinaram a pensar?

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