NEM TODA PROXIMIDADE É AMOR

Pe. José Neto de França

O mal raramente entra pela força. Quase sempre ele encontra uma porta entreaberta. E essa porta, muitas vezes, é construída por nossas escolhas, expectativas ou ilusões. Sofremos não apenas pelo que os outros nos fazem, mas também porque insistimos em esperar de determinadas pessoas aquilo que elas nunca prometeram — ou nunca foram capazes de oferecer. Quem ama sem discernimento acaba entregando as chaves do próprio coração a quem sequer sabe cuidar dele.

Também acontece de confundirmos presença com afinidade. Há pessoas que permanecem ao nosso lado apenas porque as circunstâncias as mantêm ali: interesses, conveniências, necessidades ou simples coincidências da vida. E nós, ingenuamente, interpretamos essa proximidade como amizade, lealdade ou amor. Quando as circunstâncias mudam, a presença desaparece, e a dor nos visita. Não porque o amor acabou, mas porque, na verdade, ele nunca existiu da forma como imaginávamos.

Curiosamente, a vida costuma nos ensinar outra lição, tão bela quanto inesperada. Nem sempre aqueles por quem temos maior afeição são os que mais zelam por nós. Muitas vezes, são justamente aqueles com quem temos menos afinidade, ou até pouca convivência, que demonstram uma preocupação sincera, uma proteção silenciosa e um cuidado desinteressado. Talvez porque o verdadeiro amor não dependa de intensidade emocional, mas da capacidade de desejar, sinceramente, o bem do outro. E quem aprende a reconhecer isso passa a abrir menos portas para as ilusões e muito mais espaço para a verdade.

Há uma frase de Santo Agostinho que sempre me vem à mente: “Ama e faze o que quiseres.” Mas, para amar verdadeiramente, é preciso antes discernir. O Evangelho nunca nos pede ingenuidade. Jesus amava a todos, mas não entregava a intimidade do seu coração a todos. O próprio evangelista observa: “Jesus conhecia o coração do homem” (Jo 2,24-25).

Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor

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