O SÃO JOÃO ESTÁ MORRENDO

Antonio Machado


"Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo. Olha para aquele balão multicor, que lá no céu vai subindo." Foi numa noite de São João, igual a esta, que lhe dei meu coração. Cantou e encantou para sempre o Gonzagão, exaltando a figura enigmática de São João.

O período junino foi trazido de Portugal para o Brasil pelos jesuítas, que começaram a semear as primeiras sementes do Evangelho. A essa atitude juntava-se a defesa dos escravos das fazendas de café e de gado, enriquecendo os fazendeiros que, em seus feudos, obrigavam centenas de escravos a trabalharem de graça, a ferro e fogo. Como o ouro, para ficar mais brilhante, talvez seja uma metáfora, mas o homem se conhece pelo trabalho honesto.

Mas a ação dos jesuítas no Brasil não agradou ao Marquês de Pombal, que era o "todo-poderoso" do rei de Portugal, Dom João III. Dominava Portugal, o Brasil e as terras pertencentes a Portugal, denominadas de Algarves, mas parecia ser subserviente ao seu vassalo. Sutilmente, perceba-se, nas entrelinhas da história, que o rei admirava o trabalho de seu feitor. Tanto foi assim que Dom João, tomando conhecimento do trabalho frutuoso dos jesuítas em favor dos índios e, posteriormente, dos escravos, que lhes ensinavam a ler, ministravam aulas de catequese e lhes mostravam o caminho da liberdade, desagradou aos fazendeiros do café. Houve grande debandada de escravos e índios, protegidos pelos religiosos, aumentando ainda mais a raiva dos fazendeiros, que ganhavam muito dinheiro porque a mão de obra era gratuita.

Mesmo diante desses impasses, o Imperador autorizou que, onde houvesse uma capela, fosse construída uma escola em anexo, porque a afluência de índios e escravos era grande. Isso levou o Marquês de Pombal a expulsar os jesuítas, atendendo aos reclamos dos "rigobelos" do café. Posteriormente, os franciscanos foram colocados no lugar dos jesuítas; talvez o trabalho deles fosse mais conivente com o Marquês.

Mas é inegável que foram os jesuítas que introduziram no Brasil as festas juninas, com cantos, quadrilhas, danças, balões e outros brinquedos populares. Gradativamente, iam introduzindo o homem na sociedade, cujo ideal encontrou, no Nordeste brasileiro, um terreno fértil e próspero, percorrendo todo recanto nordestino para animar os festejos juninos. Criaram-se os fogos de artifício, que enfeitavam os sertões adentro, mas somente no São João, sem esquecer as famosas fogueiras, que pareciam iluminar as noites sertanejas, as novenas, as vaquejadas e tantas outras festas. Enfim, festas sem fogos tornam-se sem graça.

E, neste ano de 2026, as autoridades maiores, por meio de uma lei com "l" minúsculo, instituíram a extinção dos fogos estrondosos e dos shows pirotécnicos. As pessoas portadoras de doenças graves e até os cachorros foram beneficiados. Na minha cidade, Olho d'Água das Flores, a noite de São João assemelhou-se ao velório de uma autoridade; nem os carros buzinaram.

Finalmente, as leis invioláveis, a exemplo da Lei nº 9.146/2024, do deputado estadual Léo Loureiro, que parece ter sido o protótipo dessa lei, sancionada pelo "todo-poderoso" alagoano Paulo Dantas e, posteriormente, acatada pelo "todo-poderoso" brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, fizeram do silêncio a tônica maior. Mesmo sendo o Brasil um país laico, todos respeitaram a extensão da lei.

Vozes de ouro, a exemplo de Gonzagão, Trio Nordestino, Marinês, Ari Lobo, Zé do Rojão, Afrodízio, Roselino (Roso), Zé Calixto, Antônio de Mané Chico, Edmilson do Acordeon, Cremilda e tantos outros, calaram suas famosas sanfonas em respeito às leis do país.

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