Li recentemente em alguns perfis das redes sociais uma afirmação atribuída a um líder religioso que me causou profunda inquietação: “a oferta obriga Deus a abençoar”. Confesso que, ao ler essa frase, não consegui evitar uma pergunta incômoda: desde quando o Criador do universo passou a ser subordinado às decisões de suas criaturas? Se uma oferta tem o poder de obrigar Deus a agir, então já não estamos falando de um Deus soberano, mas de uma divindade domesticada, manipulável e condicionada à vontade humana. Nesse caso, a oração deixa de ser diálogo e a fé deixa de ser confiança para se transformar em uma simples transação comercial.
A questão é ainda mais grave quando observamos as consequências teológicas dessa ideia. Se alguém pode “obrigar” Deus a fazer algo, então onde ficam sua onipotência, sua onisciência e sua absoluta liberdade? Um Deus que pode ser constrangido por dinheiro, promessas ou barganhas não é mais Deus; é apenas uma projeção dos desejos humanos. A Escritura está repleta de exemplos de pessoas que ofereceram sacrifícios, fizeram votos e derramaram lágrimas sem jamais tentar colocar Deus contra a parede. O verdadeiro ato de fé não consiste em pressionar Deus a fazer a nossa vontade, mas em confiar que a vontade d’Ele é maior do que a nossa.
Talvez seja justamente aqui que esteja o centro do debate. Há uma enorme diferença entre acreditar que Deus recompensa a generosidade e afirmar que Ele é obrigado a recompensá-la. A primeira visão preserva a soberania divina; a segunda a destrói. Deus não é funcionário de ninguém. Não recebe ordens. Não assina contratos. Não pode ser comprado. A oferta autêntica nasce da gratidão, não da tentativa de controlar o céu. Porque, no dia em que alguém conseguir obrigar Deus a agir, não teremos mais um Deus acima dos homens; teremos homens acima de Deus. E essa talvez seja uma das formas mais sofisticadas de idolatria já inventadas
Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor
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