Existe uma forma de espiritualidade que, em vez de curar, adoece; em vez de libertar, aprisiona. Ela nasce quando o sagrado é usado como disfarce e não como caminho de verdade. Reza-se muito, fala-se de Deus com facilidade, cumpre-se ritos com exatidão, mas evita-se o encontro honesto com as próprias feridas. A fé, que deveria iluminar, passa a servir como cortina; e aquilo que não é enfrentado por dentro começa a se manifestar em rigidez, intolerância e julgamentos.
Quando as feridas não curadas são escondidas atrás de discursos espirituais, cria-se uma ilusão perigosa: a de que proximidade com Deus dispensa autoconhecimento e conversão interior. O resultado é uma espiritualidade defensiva, que se protege com normas, aparências e respostas prontas. Tudo o que ameaça revelar fragilidade é rejeitado. Assim, em vez de permitir que Deus toque a dor, constrói-se uma fé que foge dela — e o coração permanece fechado, mesmo frequentando o sagrado.
A verdadeira espiritualidade não nega a ferida, mas a apresenta; não se sustenta na perfeição, mas na verdade. Deus não se escandaliza com nossas dores, mas com nossa recusa em deixá-las tocar. Quando o sagrado deixa de ser esconderijo e volta a ser encontro, a fé deixa de adoecer e começa a curar. Onde há verdade, humildade e abertura, Deus não apenas permanece — Ele restaura.
Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor
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