FERNANDO PESSOA E SEUS HETERÔNIMOS

Djalma Carvalho

A escritora Jane Tutikian, gaúcha e doutora em Literatura Comparada, organizadora e apresentadora do livro Fernando Pessoa – Poemas de Alberto Caieiro (L&PM Editores, Porto Alegre, 2006), disse ela: “Pessoa é vários poetas num só.”
De início, devo dizer que sou admirador desse genial poeta português. Por diversas vezes, transcrevi ditos e versos dele em meus escritos, em meus livros.
Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu na cidade de Lisboa em 13 de junho de 1888, filho de Joaquim Seabra Pessoa e de Maria Madalena Pinheiro Nogueira.
Na verdade, o genial poeta português, para publicar seus poemas, criou o vocábulo heterônimo, nome verdadeiro de outra pessoa, diferentemente de pseudônimo, que diversos escritores do mundo jornalístico e literário usavam para esconder seu próprio nome, sua identidade.
Os heterônimos eram personagens fictícios criados por Fernando Pessoa para assinarem suas obras, seus poemas, dando-lhes nome, cada um com sua história, com sua idade, com sua vida.
No livro citado, há um relato do próprio Fernando Pessoa, datado de março de 1914, que o poeta chamou de “dia triunfal”. Prossegue ele: “Acerquei-me de uma cômoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever de pé, como escrevo sempre que posso. Escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase.”
Por aí nasceram os heterônimos Alberto Caieiro (“aparecera em mim o meu mestre.”), Ricardo Reis e Álvaro Campos, todos assinando por Fernando Pessoa suas obras, seus poemas. Eram, como disse a autora, “personagens literárias, poetas fictícios”.
Alberto Caieiro nasceu em Lisboa em 1889 e morreu em 1915, também em Lisboa. Viveu quase toda sua vida no campo, numa quinta de Ribatejo. Escreveu O guardador de rebanhos, O pastor amoroso e Os poemas inconjuntos. De pouca instrução, ele escrevia mal o português. A instrução primária era seu limite cultural.
Ricardo Reis nasceu em 1887 na cidade do Porto. Educado em colégio de jesuítas, era médico. Viveu no Brasil desde 1919. Era latinista “por educação alheia”, e um semi-helenista “por educação própria”.
Álvaro Campos, por sua vez, nasceu em 1890 em Tavira, Portugal. Era engenheiro naval. Teve uma “educação vulgar de liceu”. Um padre, seu tio, ensinou-lhe latim.
“Escrevo com o nome dos três”, dizia Fernando Pessoa.
Caieiro era homem ligado ao campo, à natureza. Só acreditava no que via, no que ouvia>
“O essencial é saber ver, / Saber ver sem estar a pensar, /
Saber ver quando se vê, / E nem pensar quando se vê, / Nem ver quando se pensa.”
Ricardo Reis fazia poesia clássica, no melhor estilo dos poetas da Antiguidade. “Nada se sabe, tudo se imagina. / Circun- da-te de rosas, ama, bebe/ E cala. O mais é nada.”
Álvaro Campos era diferente de Reis, segundo a autora do livro. Era poeta da modernidade, da euforia e do desencanto. Da irreverência a tudo e a todos. Disse ele: ”Não me tragam estéticas! /Não me falem em moral! / Tirem-me daqui a metafísica!”
Em 1920, Fernando Pessoa conhece a secretária Ophélia, sua namorada. Com o falecimento de sua mãe Madalena, o estado psicológico inquieta o poeta. Assim, escreve a um amigo com o desejo de ser hospitalizado. “Há em mim fenômenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registro dos seus sintomas.” Em 1929, volta a se relacionar com Ophélia, mas o namoro não prospera.
Em 1931, Pessoa publica o poema “Autopsicografia”, o “poema mais conhecido do autor:
“O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.”
“E assim nas calhas da roda/ Gira, a entreter a razão, / Esse comboio de corda/ Que se chama o coração.”
Em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, faleceu Fernando Pessoa, o maior poeta português do século XX. Deixou uma obra de mais de 27 mil escritos dentro de uma arca, comprada pelo Estado português em 1979, que se encontra na Biblioteca Nacional Portuguesa. São ensaios e mais de mil poemas, três heterônimos e dois sem-heterônimos.
Em Lisboa, Portugal, no final da ladeira do Chiado, em frente ao Café Brasileiro, acha-se a estátua de bronze de Fernando Pessoa, sentado e de chapéu, rodeada de curiosos turistas, cada um desejando fotografá-la.
Maceió, 03 de dezembro de 2025.

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