Sempre que posso, retomo o Projeto Fábula no Atacama (PFA), que virá a ser o diálogo entre um urubu faminto e um preá agonizante, por meio do qual pretendo formular lógico preceito moral, um aconselhamento capaz de orientar o relacionamento do ser humano com a sua própria natureza animal — a síntese do procedimento a ser adotado quando alguém for submetido a uma prova de resistência psicobiológica, estando imbuído dos princípios inatos da consciência, ou de generalizações da observação empírica a lhe instigar: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Para tanto, eu poderia usar um tubarão assassino e uma sardinha suicida; ou um gavião habilidoso e uma rolinha obesa; ou um político corrupto e bajulador e uma verba incauta; ou uma bunda flácida e uma cueca apertada; ou a cena de um jantar de novela e um telespectador sem café da manhã, almoço e jantar; enfim, muitas são as opções de personagens que podem ser usados em fabulosas narrativas. Mas preferi um urubu faminto e um preá agonizante como protagonistas da nossa fábula no Atacama.
Rendi-me ao currículo do urubu em vista da sua vastíssima experiência no ramo. Na indústria cinematográfica nacional, sempre fez, de forma competente, o papel que o abutre e o corvo ianques possam ter desempenhado nas produções hollywoodianas.
Quanto ao preá, apesar de não ter o know-how do urubu, não pode ser considerado propriamente um amador. Enquanto o urubu dedicou sua vida basicamente às funções de agente do Departamento de Defesa Sanitária e protagonista de fábula, o preá roeu muito por essas matas adentro e atuou como coadjuvante em algumas peças literárias. Também levei em consideração suas esporádicas participações no âmbito das ciências biológicas, como cobaia de laboratório, cobrindo as folgas de hamsters e camundongos, os titulares da área.
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Projeto Fábula no Atacama (II)
LiteraturaPor Fernando Soares Campos 12/07/2020 - 23h 04min Arquivo do autor
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