Blogs: Na festa de São Pedro

Literatura

João Neto Félix Mendes - www.apensocomgrifo.com

Padre Cirilo defronte à Igreja nos anos 1950 Foto: Vilma Rodrigues

Era o mês de junho. Fazia frio após um dia de chuva. A festa de São Pedro agitava o bairro. De casa eu ouvia o serviço de alto-falante do parque de diversões Ipanema a tocar a canção “Menina da Ladeira”,(Ouça) sucesso do cantor João Só (1943-1992). O crepúsculo vespertino vergava-se a imperiosa iminência da noite invernosa. A roda gigante girava suavemente com suas cadeiras oscilantes e vazias. Meninos de olhos arregalados e sem dinheiro queriam ocupar os bancos e girar sem parar, se pudessem. Atormentar o controlador até que cedesse era a única opção de diversão, antes da chegada dos endinheirados.

De acordo com o historiador Clerisvaldo B. Chagas a igreja em honra ao primeiro papa São Pedro foi a sexta igreja construída na cidade, cujo início se deu em 1915. A obra foi interrompida e somente foi concluída em 1937 com a ajuda do comerciante Tertuliano Vieira Nepomuceno(1869-1932) na rua, bairro e praça São Pedro. A rua São Pedro é importante logradouro de ligação entre os bairros Maniçoba, Bebedouro e o centro da cidade, cuja urbanização se expandiu na década de 1950.

Terraplanagem onde seria construída a praça São Pedro, anos 1950.
Acervo Digital Darras Noya/João Neto F. Mendes


Os sinos dobravam por céticos e crentes. O padre Cirilo já estava a caminho. Seu Gaia(Narciso), Carrito, Manoel Melo e Antônio Dantas; líderes e entusiastas da festa conferiam com esmero os detalhes da noite. Durante o novenário às 6 horas, ao meio-dia e às 18 horas espocavam foguetes artesanais feitos e lançados aos céus por Zuza Fogueteiro, exaltando o Santo Padroeiro. Por ironia do destino, outrora a missão foi de Dionísio Fogueteiro, marido de Vicência, morador do bairro que foi uma das 7 vítimas da explosão da sua residência onde produzia os fogos de artifício em 1974, no lado baixo da praça.

A cerração quase não deixava ver a miúda estátua do Cristo de braços abertos no serrote mesmo com a fraca iluminação que o destacava. O tênue facho cintilante no serrote era como um farol, sinal de alerta e proteção dos perigos reinantes do mundo dos viventes. O brilho distante da luz difusa irradiava raios coloridos que eu não sabia de onde vinha. Pareciam ser os contrastes da luz com as gotículas d’água da neblina da quadra chuvosa.

Quando eu cheguei à praça a novena estava se encerrando. Ainda no terraço da capela encontrei o Padre Cirilo que me cobrou presença na novena nos dias seguintes. Encontrei Seu Carrito (Carlos Gabriel da Silva,1923-2011) e dona Quininha (Maria Joaquina de Lima e Silva,1927-2018) que já iam pra casa, do outro lado da praça, acenaram-me e me convidaram para visitá-los em seguida.


A barraca da quermesse estava cheia e agitada. Como estava sendo um ano de bom inverno com fartura de milho verde, muitas iguarias do vegetal estavam à venda para ajudar nas despesas na festa: milho cozinhado, bolos de milho, pamonha, canjica, mucunzá e outros acepipes.

Meninos e meninas aperreavam querendo um pouco de tudo. Sob o olhar carinhoso dos pais a meninada se divertia na roda gigante e nos barcos de balanço.

Eu me dirigi ao pavilhão da apavorante mulher-gorila: a monga. Claro que se sabia que era um truque de ilusionismo, com luzes e espelhos produzindo efeito visual de metamorfose, conferindo aparência translúcida e horripilante. Eram instantes assustadores. E no auge do espetáculo quando a mutação estava finalizada, os urros e pisoteados sinistros se aceleravam agravados pelo tablado barulhento. A iminência da soltura da criatura medonha anunciava o perigo e o pânico nos dominava. Em seguida, quando as grades que a prendiam eram abertas, simulando ataque da besta-fera ao público com rugidos assustadores, era um alvoroço e correria em direção à porta de saída. Não ficava uma só pessoa na barraca. A encenação terminava com os espectadores amedrontados no meio da rua. Agonia e algazarra se misturavam.

- Ufa, ainda bem que foi só um susto. Diziam todos, aliviados.

Praça São Pedro em 1969. Acervo de José Elgídio da Silva


Fui à casa de seu Carrito conversar um pouco com os amigos que lá se encontravam e tagarelavam exaltados: Dotinha, Elgídio, Anízio, Marcelo, Luiz e Manoel Euclides, Ângela, Aparecida, Gilvânia e Valter. Entre uma conversa e outra o bazar anunciou que faria desafio “qual é a música?”, valendo cartelas para os prêmios da noite. Fiquei entusiasmado querendo participar. O bazar fazia parte do tradicional parque de diversões do empresário santanense Moacir Aquino que levava diversão às festividades religiosas.

Convidei-os para me acompanharem ao bazar pois eu arriscaria alguns palpites na tentativa de ganhar algumas cartelas. Acertei a maioria dos desafios.

Por fim, veio o momento principal da noite. Se acertasse aquela todos que estavam comigo ganhariam uma cartela para a rodada de encerramento. Então alardei: toca! Propositalmente ele buscou a canção mais difícil e menos tocada para embaraçar o desafiante.

Embora já soubesse o nome da canção, deixei-a tocar o tempo máximo permitido, dando a entender que não sabia seu título e fazer suspense. Após alguns instantes de brincadeira com o animador disse-lhe que iria responder.

- Ele ficou me provocando: Você não sabe!

Entre um diálogo e outro ele aumentava o volume da melodia instrumental. O nível realmente era difícil.

- Disse que sabia e respondi: “O homem do braço de ouro”

- Boquiaberto e entusiasmado ele respondeu: Resposta certa!!

Foi uma gritaria e gestos de vitória. Ganhamos as cartelas para o bingo. No fim das contas ninguém conseguiu completar a cartela do prêmio principal.

“O Homem do Braço de Ouro” (Ouça) é um filme estadunidense de 1955. O filme é famoso por possuir uma das trilhas sonoras mais famosas da história do cinema, composta por Elmer Bernstein no estilo jazz, que acompanha os letreiros de abertura do lendário designer Saul Bass. O filme conta a história do "homem do braço de ouro", chamado assim por ser um grande baterista e crupiê, manuseando com maestria o baralho.

A banda brasileira “Os incríveis” lançou uma coletânea dos seus maiores sucessos. Em 1978 o disco fazia muito sucesso e tinha uma faixa da melodia. Por coincidência, na residência do casal Hamilton e Terezinha Amaral, perto da minha casa, esse elepê era muito tocado e eu já tinha ouvido algumas vezes.

Procissão de encerramento dos Festejos a São Pedro na década de 1970.
Vemos o padre Cirilo ao lado do andor. Acervo José Elgídio da Silva


A noite esfriava ainda mais. Receoso que o sereno provocasse um resfriado, decidi ir embora. No caminho, voltei meu olhar para o ponto culminante da serra das micro-ondas. Eu gostava de admirar aquela elevação em dias de chuva. Parte de mim estava aqui, outra parte estava lá. Como somos um, comecei a contemplar a paisagem noturna da cidade a adormecer, adornada por uma nuvem de pirilampos errantes, faiscando e desaparecendo no breu. Era como um manto encantado que acalentava os sonhos do povo que adormecia. Um facho de esperança iluminou minha noite. Somente saindo de mim posso ver a mim mesmo e a cidade na escuridão da noite

No interior da Igrejinha as charolas para a procissão de encerramento: Santo Antônio, São Pedro e São João. Acervo José Elgídio da Silva



Praça e Capela São Pedro em 2018. Foto divulgada pelo município nas Redes Sociais.

Comentários