Eu estava tomando um bom café expresso no shopping, em Arapiraca, quando um colega, hoje médico, que nos anos oitenta, fizemos movimento estudantil juntos, me reconheceu. Perguntei sobre sua vida e os locais onde trabalhava. Ele, por sua vez, devolveu a mesma pergunta. Após nos inteirarmos sobre os acontecimentos de nossas vidas, pedi mais um café e prosseguimos a conversa. Era meados de setembro do ano passado, e o que estava em evidência eram as eleições. Ele tomou a iniciativa e perguntou se eu iria votar em Aécio Neves. Respondi que não. Ele voltou a perguntar em quem eu votaria. Eu respondi que meu voto seria para Luciana Genro. Devolvi a pergunta, não querendo acreditar que ele fosse votar em Aécio Neves. Contudo, sua resposta foi rápida e objetiva. Meu voto é de Aécio. Evitei continuar o diálogo sobre política, já que eu sabia dos reais motivos da rejeição deles (médicos) à Dilma Rousseff. Percebendo que eu calei, ele voltou a mergulhar fundo sobre o Partido dos Trabalhadores. Aliás, usou tudo que pode para dissecar a presidenta. Mas, eu que estava ali quieto, sem desejar brigas, fiquei esperando que ele mesmo desistisse de tal assunto. Ele não desistiu e logo me alfinetou, perguntando o que eu achava do “Programa Bolsa Família”. De cara, já fui falando que eu era a favor do programa, com ressalvas. Ele, por sua vez, se colocou contra. Eu, então, perguntei o porquê desse posicionamento. Ele respondeu que era um programa que onerava os cofres públicos e não transformava, além de viciar a população a não fazer nada. Voltei a indagar o que ele faria diante de tanta miséria e desigualdade social. Ele respondeu que a verdadeira transformação se faz na base, com as crianças, educando-as. Percebi que ele não havia esquecido os velhos e bons conceitos da nossa época de estudante. E continuei a perguntar: - E até fazermos as transformações que levarão, no mínimo, vinte anos, eles continuarão passando fome? Ele ficou calado, pois sabia que eu estava certo. Claro! Eu também sabia que o programa, por si, não transformava as raízes do problema. E, em alguns casos isolados, chegava até a viciar o cidadão a viver só daquilo. Contudo, expliquei para ele que a essência do programa deveria ser outra. Ele perguntou: - Qual? Eu usei um exemplo de um paciente enfermo para melhor ser entendido. E fui relatando o caso clínico para ele: “Se um paciente procura você, pois está com febre, de imediato, você deseja saber o que está causando a febre para combatê-la, não é mesmo?” Ele respondeu que sim. Voltei a questioná-lo: - Como ficará o paciente, até você descobrir a real causa da febre? Vai deixá-lo com febre? Ou vai combatê-la? Ele respondeu que iria combatê-la, usando um antitérmico para diminuir a temperatura corporal do paciente. “Mas, é preciso saber o que está causando a febre no paciente para tratarmos o problema no seu foco”. Ele me olhou com jeito de não ter entendido nada, e perguntou o que o caso clínico tinha a ver com o Programa Bolsa Família. Eu respondi: - Tudo! Ele novamente indagou-me: - Como? Eu, calmamente, fui explicando: - Você lembra que falei que eu era, parcialmente, a favor do Programa Bolsa Família? Ele falou que sim. Eu, então, disse para ele que correlacionei o antitérmico ao Programa Bolsa Família para mostrar que ambos não resolvem o problema. E, assim como a medicação é usada para diminuir os sintomas da febre, o Programa Bolsa Família também diminui os sintomas da extrema pobreza. Porém, não combate as causas. Já que estas estão intrínsecas em uma sociedade que aflora seus problemas, principalmente, como reflexo da desigualdade social. Eu, que o conhecia de um passado onde travávamos discussões semelhantes, sabia que ele era consciente de tudo, o que era correto e o incorreto, constatei que defendia hoje, um ponto de vista diferente da época de estudante, talvez até, por estar fazendo parte de uma classe social mais elevada.
Coincidentemente, voltei a encontrá-lo no mesmo shopping, uma semana antes da Páscoa. Ele se lembrou da nossa última conversa e fez previsões lógicas a respeito do Congresso Nacional. Ele acha que, por ser o Congresso mais conservador desde a ditadura militar, irão reverter avanços conquistados pelos trabalhadores e apertar bastante o governo de Dilma Rousseff. Concordei com suas previsões e lhe externei que eu estava muito preocupado, já que grandes conquistas poderiam ir de água abaixo. Fizemos algumas previsões, e a cada resposta dele eu ficava mais decepcionado. Foi quando chegamos à PEC da Maioridade Penal. Confesso que jamais imaginei que alguém com nível superior e que fizera parte do movimento estudantil, fosse defender a diminuição da Maioridade Penal. Fiquei arrasado! Perguntei o motivo de seu ponto de vista. Ele respondeu que hoje em dia esses adolescentes cometem mais delitos que os próprios adultos. Perguntei se essa mudança na lei resolveria os problemas da criminalidade. Ele disse que acabar, não acabava, porém, dava “um limpa geral”. Eu comecei a querer esquentar a cabeça, entretanto, fui firme e me acalmei. Justifiquei que mais presídios só aumentam as despesas do estado, já que cada preso custa, em média, três salários mínimos aos cofres públicos, e que não é a solução. Mostrei para ele que nos últimos anos o sistema carcerário no Brasil cresceu 300%, o que faz do nosso país a terceira maior população carcerária do mundo. E se cadeia resolvesse problema de segurança pública, viveríamos em um dos melhores lugares do mundo. O que não é verdade, já que as taxas de homicídios cresceram mais de 20% nos últimos anos. Ele riu, olhou para mim e me chamou de sonhador. Depois falou de forma bem séria: - Imagine se não houvesse cadeia para tanto bandido, imagine-os soltos por aí! Eu fiquei arrasado, decepcionado com tamanha insensibilidade de um ser humano. Daí não aguentei! Falei que ele estava sendo incoerente, já que antes das eleições, ele justificou que era contra o Programa Bolsa Família, por achar que a melhor forma de se resolver a questão da fome era através das transformações sociais, educando nossas crianças para um futuro melhor. E agora estava revelando postura inversa, já que ambos os problemas têm as causas no mesmo tronco: “A Desigualdade Social”. Ele se justificou dizendo que não havia outra forma de tratar delinquentes, a não ser na cadeia, pois não era justo deixá-los por aí. Eu, então, ri de forma irônica e disse para ele: - Enquanto você deseja colocar nossos adolescentes no banco dos réus, eu vou sempre lutar para colocá-los no banco escolar.
A INCOERÊNCIA DE GERSON
CrônicasPor José Bento de Melo Filho 20/04/2015 - 00h 35min
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