JOGA PEDRA NA GENI!

Crônicas

Por Luiz Antônio de Farias, capiá

Para reviver os áureos tempos da Música Popular Brasileira, desenterrei do meu arquivo fonográfico algumas obras antológicas de Chico Buarque de Holanda, entre as quais “Geni e o Zepelim”. Esse clássico foi transformado em peça teatral, com grande repercussão, à qual tive a oportunidade de assistir no monumental Teatro Santa Izabel, tempos atrás. Este assunto veio à tona por conta de um trágico acontecimento ocorrido em Olivença, que colocou “em cheque” a eficiência da polícia na época.
Em tempos idos tive a oportunidade de conhecer um moço dando assistência a um parente de minha esposa, que se encontrava com limitações de mobilidade, motivadas por um acidente automobilístico. Exercia a função de cuidador, a contento, com dedicação integral, mesmo não tendo conhecimento profissional para o serviço a ele incumbido. Concluída a tarefa, pela recuperação do traumatizado, ele tomou seu destino, afastando-se do convívio da família do enfermo.
Após alguns anos voltei a encontrar a pessoa referida, na cidade de Olivença, na época em que adquiri uma propriedade rural naquele município. Desta feita o focalizado apresentava um comportamento totalmente diferente do demonstrado anteriormente. Havia deixado aflorar suas tendências homossexuais, inclusive adotando o cognome de Soraya e vestindo-se a caráter, em ocasiões festivas. Quando se embriagava era um pouco inconveniente e, às vezes, inoportuno. Sempre pedindo um “trocado” para “tomar uma”. Entretanto no estado sóbrio tornava-se uma pessoa inofensiva e subserviente, incapaz de fazer mal a quem quer que seja. Quando alguém precisava de seus préstimos ele sempre estava pronto para dar o melhor de si, inclusive quando chamado para exercer seus dotes culinários. Torna-se desnecessário dizer todo tipo de preconceito que lhe era dispensado em sua terra natal.
Infelizmente essa inditosa figura teve um final trágico. Foi brutalmente assassinado e, pelo que se tem conhecimento, até hoje não se sabe quem foi o autor. Por quê? Porque ele não passava de um pária da sociedade (para alguns preconceituosos, claro). Mas vale dizer que esse “pária” era um ser humano, tinha família, e merecia ser respeitado como tal. Em clima de revolta e comoção ele foi sepultado no cemitério do povoado Pedrão. Num gesto de solidariedade compareci ao sepultamento.
Hoje ele tornou-se apenas um ente esquecido pelos conterrâneos, exceto por seus familiares, claro, que vão chorar pela perda por toda vida. Fazer o que?
- Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni!

Praia de Maragogi, janeiro/2015

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