Sábado que passou, mais uma vez acompanhei o ciscar do bloco carnavalesco Pinto da Madrugada. Este ano, fiz questão de permanecer sentado na marquise de um dos prédios que delimitam o corredor da folia para, com serenidade, apreciar a movimentação dos milhares de personagens ali dançando, pulando e se divertindo – entre eles, Ana Lúcia minha esposa, filhas e genros.
Em determinado momento, tendo o azul da enseada da Pajuçara como enfeite daquele quadro que parecia pintado por Deus, lembrei uma história aprendida há muito tempo: “a terra era um jardim maravilhoso. Diariamente os anjos regavam o solo com água tirada das nuvens e por esta razão as flores brotavam em abundância. Eram todas lindas, embora também extremamente vaidosas. E ficavam sempre a perguntar, umas para as outras, se não era a mais bela dentre todas. Como não obtinham a resposta ansiada, permaneciam lindas, embora infelizes”...
Os foliões do Pinto, que vi, vestidos de índios, super-heróis, piratas, marinheiros, políticos do petróleo, Dilma, Lula e outros bandidos da moda além dos que, como eu, não usavam vestes especiais, somente deixando resplandecer em suas faces o brilho, se não da felicidade, mas da alegria. Naquele instante recordei um ensinamento recebido na época do colégio: “ser alegre – muito melhor que ser feliz – é gostar de viver mesmo quando a vida nos apresenta dificuldades”.
Duzentas mil pessoas na avenida, umas sóbrias, outras se protegendo do calor, muitas claramente bebericadas, inúmeras empurrando e sendo empurradas, uns poucos até deixando transparecer o comportamento libidinoso do ladrão que ali se encontrava para realizar pequenos golpes, retirando carteiras, óculos e relógios de vitimas menos prevenidas, apesar do policiamento ostensivo em seu encalço. Todos, contudo, sem exceção sorriam, emprestando ao ambiente uma aura de alegria total, nesta época em que o Brasil ferve, menos pelo período momesco e mais pelos desmandos econômicos ora praticados, cujos desfechos nem de longe se imagina quais serão. Um momento em que o povo brasileiro cultivando a mínima noção de coerência sabe que, em sentido macro, inexistem motivos para ser feliz face os atos espúrios praticados por vários dirigentes da nação.
Naquela tarde o Rei Sol, sempre ativo e brincalhão, impregnado de tamanha festança, esquentou cada vez mais, fazendo fritar o cérebro dos foliões que ali gingavam, cada um a seu modo, deixando claro não serem todos integralmente felizes, por razões e motivos variados, mas, com certeza, alegres. As pessoas riam tão gostosamente parecendo estarem a sentir cócegas no coração.
E eu, como espectador, convenci-me de que enquanto existirem momentos como aqueles, o perfume bom dos homens sempre pairará no ar, ratificando a certeza de que se a lembrança do passado esconde um encanto que justifica a vida, assim também, no próximo ano o Pinto da Madrugada voltará a ser um arco-íris, embelezando a tarde do sábado que antecede o carnaval de Maceió.
ALEGRIA DO PINTO DA MADRUGADA...
CrônicasPor Alberto Rostand Lanverly 10/02/2015 - 10h 21min
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