O CINTURÃO

Crônicas

José Peixoto Noya

Meu tio Nestor Albuquerque Noya, de saudosa memória, era artista e profissional na confecção de peças fabricadas com couro, imbatível em nossa região; de longe, era o melhor. Selas, gibões, cartucheiras, bainhas para facas, cinturões, enfim, o que você quisesse em couro era confeccionado para homem nenhum botar defeito!

Quando rapaz, ajudei-o muita vezes, costurando parte das selas. Ele iniciava e eu terminava. Um coração enorme. Para os irmãos e os sobrinhos, então, era algo sem limites.

Apesar da sua pequena condição financeira, era solidário com todos os amigos que dele precisassem. Gostava de tomar umas branquinhas e, quando isto ocorria, ficava teimoso e "brabo". Essa brabeza, se vivo fosse, poderia fazia inveja ao próprio Lampião.

Mas era só da boca pra fora. Não tinha coragem de matar nem uma mosca.

Preocupava-se e até chamava a atenção quando encontrava um sobrinho em um bar ou em algum estabelecimento duvidoso.

- Seu pai sabe que você anda por aqui? – Era, invariavelmente, a sua pergunta. Porém, se houvesse ingerido algumas branquinhas, sentava-se e participava da farra sem nem olhar em volta.

Desligado, não tinha pressa para nada. O tempo, para ele, não contava.

Tinha os seus motivos, era solteirão e sem filhos (já que para, conseguir esse produto, mesmo natural, não é preciso casar). Natural de Pão de Açúcar, como todos os seus irmãos, demorava muito a ir à sua terra natal, pois ficaram poucos parentes.

Uma vez cismou de ir fazer umas visitas aos poucos familiares que ali ainda residiam. Saiu para passar "apenas" um fim de semana, mesmo com as dificuldades de transportes naquela época – carros de boi. Passou simplesmente dez anos, numa boa!

Meu pai, Darras Noya, nomeado telegrafista do antigo Departamento dos Correios e Telégrafos em 1948, para se deslocar à capital, precisava de uma mala com certa urgência. Fez a encomenda ao irmão e este, de pronto, se comprometeu a atender ao pedido, iniciando imediatamente a confecção da encomenda do seu irmão mais novo.

Em dois dias havia feito uma mala com o melhor couro encontrado. Caprichou na confecção, pois, além de ser para o seu irmão, iria servir como propaganda na capital. Se bem que ele não se importava muito com isso. Não tinha, mas dinheiro não era "prioridade" para ele.

Para terminar a obra, precisava de quase nada: fechadura e duas dobradiças. Apenas pequenos detalhes, não acham? Ledo engano.

Meu pai viajou com a roupa dentro de um saco, pois não podia perder um emprego federal. Foi para Maceió e lá trabalhou um bom tempo. Voltou para assumir a chefia da Agência dos Correios de Santana. Aposentou-se, faleceu e a mala não foi terminada! O meu tio nunca achou uma fechadura à altura do produto que havia feito. Era para ser caprichado, não era? Por isso jamais terminou a bendita mala...

Uma coisa interessante é que, mesmo com o início da fabricação, em 1948, quando eu tinha apenas 5 anos, já rapaz, ainda consegui ver essa "obra" inacabada, que quase ganhou das obras intermináveis dos nossos governantes ao longo dos anos!

Eu disse, anteriormente, que quando ele ingeria algumas branquinhas e encontrava algum sobrinho, não se fazia de rogado: sentava-se e aderia à brincadeira. Pois bem: estava eu e alguns amigos, que não me lembro os nomes deles, naquela oportunidade, no bar da Gerusa (irmã do escritor santanense Oscar Silva).

Era um estabelecimento pequeno, atrás da mercearia do Sr. José Santana, na Rua Rotary. Era tão pequeno que não tinha mais do que uma mesa, imagine sanitário. Então chegou o tio Nestor e já foi se sentando, cumprimentando todos. Era amigo da proprietária; estava em casa.

E tome cerveja! Apareceu um violão. Ele só "arranhava", e muito pouco, mas sempre pegava duas tampinhas de refrigerante ou cerveja e acompanhava as "modinhas", batucando na mesa, no balcão ou em outro local qualquer, contanto que gerasse "som". Era bom nisso.

Já umas horas da noite, eis que a bexiga do tocador de tampas encheu. Já era tarde. Não haveria nenhum problema em fazer xixi na rua, mesmo porque estava bastante escura.

Encostou-se num "pé-de-parede", deu de garra do "instrumento" e mandou ver. Terminado o aliviamento, deu a chacoalhada de praxe e devolveu a peça ao seu lugar de origem.

Quando regressou ao bar, estava com a perna esquerda toda molhada, de cima a baixo. Ele não havia notado. Alguém perguntou apontando para o local do acidente:

- Que é isto, Nestor?

Ele abaixou a cabeça e balançou-a negativamente, fazendo um gesto de surpresa e decepção. Não sabia ao certo o que ocorrera. Deu meia volta e se mandou para casa. Mas alguém lá fora, que ia passando e o conhecia, viu tudo: Em vez de "sacar" o instrumento certo, ele havia tirado a ponta do cinto das reatas, segurando-a e fazendo xixi nas calças.

No final balançou (como manda o figurino) e devolveu ao seu devido lugar, certo do dever cumprido! Não percebeu que *ERA O CINTURÃO!*

Comentários