LÀ COMO CÁ...

Contos

Sebastião Florentino Malta

O primeiro contato com Dr. Adelson Isaac de Miranda não foi lá muito agradável. No ambiente reservado do seu consultório dentário, sem o auxílio de pomadinhas, o zumbido da maquina de obturação e a aparente indiferença traduzida pelo constante assobio...
Tudo isso, porém, foi logo esquecido quando passamos a conviver mais diretamente com aquele ser humano maravilhoso, aproximação essa em decorrência da sua amizade com o meu pai, o velho Zé Malta e o meu irmão Dinho pois durante várias brincadeiras realizadas lá no seu imóvel rural, onde apareci “maiando” juntamente com outros colegas, e mesmo assim éramos recebidos como se convidados fossemos.
Recordo-o participando de campanhas promovidas pelos clubes de serviço a que pertenceu, a famosa campanha das garrafas, as famosas campanhas do ovo além de outras para a criação da Casa da Amizade. Durante um evento promovido pelo Rotary Club, quando se realizava um baile abrilhantado por um conjunto denominado Família Cavalcante, cuja renda seria direcionada para a construção de uma escola, platéia selecionada, festa animadíssima, de repente fomos surpreendidos pela voz do Dr. Adelson no som destinado a orquestra, naquele tom de brincadeira séria, se é que existe, solicitando ao Dr. Juiz de Direito que vestisse o paletó, pois uma das condições para acesso ao baile era o traje passeio completo e o mesmo, como maior autoridade presente (residia na cidade juntamente com familiares), serviria de exemplo. Prontamente atendido. Segue a festa.
Em seguida, passamos a conviver na Agência do Banco do Brasil onde o mesmo comparecia quase que diariamente para tratar de negócios, provar o delicioso cafezinho e “serrar” um cigarro, oportunidade em que se atualizavam conversas. E foi durante essas conversas que começamos a estreitar os laços de amizade e perceber a preocupação do Dr. Adelson com os problemas que angustiava a comunidade de uma maneira geral, com ênfase sobre as questões que afetavam os menos favorecidos, como por exemplo:
1) - Busca de soluções para a constante falta de água potável fornecida pela CASAL, com a realização de reuniões e movimentos diversos;
2) - A criação de um banco de sangue para o hospital Dr. Arsênio Moreira, que não foi realizada por não dispor de equipamentos adequados para armazenagem, mas transformou-se em um Cadastro de Doadores iniciado lá na Agência do Banco do Brasil, com vários funcionários cadastrados e também de outras repartições, que acredito serviu para salvar várias vidas tendo como campeões de doação no BB: os funcionário Reginaldo José Raymundo (Nadinho) e Paulo Roberto Falcão (Paulo de Eugênio) e o vigilante Cícero Correia da Silva (Ciço Uráca), sempre dispostos a colaborar;
3) - A solicitação à Agência local do Banco do Brasil de uma central telefônica substituída, para utilização no prédio do Hospital Dr. Arsênio Moreira, a fim de melhorar a comunicação entre os servidores de seus diversos setores;
4) - Participação ativa na campanha para construção de uma repetidora de sinal de TV para a nossa cidade;
5) - Participação ativa na campanha de recuperação da Igreja Matriz de Senhora Santana, quando do desabamento do telhado, dentre tantas outras.
Tive a honra de participar ativamente e ajudá-lo na busca de soluções dos três primeiros itens acima.
De repente, tivemos a grata satisfação de tê-lo, juntamente com sua família, residindo na Rua Marinita Peixoto Noya (atual Manoel de Aquino Melo). No dizer do nosso matuto foi um “arriliqui”. A convivência diária já tinha transformado o contato em admiração. Mas o fato de sermos vizinhos, inevitavelmente transformou a admiração em amizade. O tratamento passou a ser mais íntimo, deixando as formalidades de “Doutor” passando a ser de “Derço”, que ouvi do seu genitor Sr. Apolônio durante alguns contatos que mantivemos e por fim “Moreno”. As conversas passaram a ser mais freqüente, sempre continuando a ter como objetivo principal às necessidades da comunidade.
Durante o período de inverno, que era bom de chuva como o de agora, a ruazinha ficava um buraco só. Dificuldade de transitar a pé ou em carros. E mais uma vez, em conversas, Dr. Adelson ouvindo as reclamações dos moradores, informou que em contato com o Prefeito de Santana do Ipanema, na época Dr. Isnaldo Bulhões, o mesmo se comprometeu a comparecer para uma conversa com os moradores, já com dia e hora definidos. No dia previsto, início da noite, praticamente todos os moradores estavam reunidos com o Prefeito na residência do Dr. Adelson e Wilma, recebendo a todos com atenção e alegria. Iniciada a reunião, o “Moreno” discorre sobre sofrimento dos moradores pela falta de calçamento daquela viela. Sensível ao problema, o Prefeito, para nossa alegria, promete que o calçamento será realizado e que fará tudo para que o material utilizado seja blocos sextavados (formato hexagonal) que serão fabricados pela mesma firma que virá para construir o novo prédio da Prefeitura, sendo que a fabrica dos referidos blocos seria instalada lá mesmo na rua, em um terreno baldio, entre a casa do Galego Malta e do Major Darci “e que qualquer problema é só procurar Dr. Adelson”, finalizou. Cumprimentos, agradecimentos antecipados e o Prefeito se despede deixando esperança e euforia nunca vistas entre os moradores da Rua Marinita Peixoto Noya.
Não se sabe por que cargas d’água a instalação da fábrica demorou mais que o esperado. Sem a fábrica instalada, calçamento não iniciado. Até que um belo dia recebo um recado do “Moreno” através de sua filha Vaninha:
- Painho quer falar com você, urgente!
E lá vou eu atender o chamado. Quando me aproximei, observei sua fisionomia carregada e pensei que era alguma notícia sobre o calçamento e fiz a tradicional saudação que conseguia fazê-lo sorrir em momentos como esses:
- “Moreno”, você é feio porque tá com raiva ou ta com raiva porque é feio?
Começou a sorrir e pedindo para que eu sentasse, e foi direto ao assunto:
- Moreno, só você pode me salvar. Estou que não agüento mais.
Surpreso, respondi:
- Diga aí “Moreno”. Que é que está acontecendo? Seja o que for, vamos procurar resolver e já.
O problema era que Dr. Adelson já não agüentava mais de cobranças pelo calçamento não iniciado. Morando em frente, toda vez que saia ou chegava a casa, estava o Benhur na porta, marcação cerrada, mãos em forma do bloco sextavado, fazendo a tradicional pergunta e em seguida soltando uma bela de uma risada:
- Dr. Adelson, Dr. Adelson... cadê????????? Ka,ka,ka,ka,ka,ka,ka,ka,ka,,ka,ka...
Consegui convencer o amigo Benhur que deixou o “Moreno” sossegado e para alegria de todos os moradores, na semana seguinte, foi iniciado o calçamento com as pedras tradicionais cortadas na Lagoa do Junco. Promessa cumprida.
E assim tivemos o imenso prazer da convivência durante algum tempo na qualidade de vizinhos, participando do dia-a-dia, sempre a ouvindo música clássica, conversando sobre os mais diversos assuntos, acompanhando fatos pitorescos ocorridos, tais como a chegada do fujão Conde, cão da raça dálmata até o moderníssimo videocassete, top de linha, que ganhou de presente do Airles, nos consumindo muitas horas buscando fazê-lo funcionar, embora sem sucesso. No final descobrimos juntamente com o Airles, que o equipamento tinha tecnologia totalmente japonesa e incompatível com a utilizada no Brasil, e para funcionar necessitava de uma “tal” decodificação. Motivo para muitas gargalhadas.
E assim passaram-se alguns anos...
Marcava o calendário meado do mês de Maio/2008. Em casa recebo um convite para participar da solenidade de lançamento do livro que trata das memórias do “Moreno” intitulado “Minha História de Amor e Saudades”. Emoção contida a muito custo. Dia seguinte recebo outro convite, desta vez da Prefeita de Santana do Ipanema (AL), Dra. Renilde Bulhões para inauguração da reforma e a parabenizo pela feliz idéia de denominá-la Praça Dr. Adelson Isaac de Miranda. Emoção repetida. Como não poderia deixar de ser diferente, veio à tona as lembranças do passado. Espera ansiosa, até que no dia 31 do mesmo mês, depois da solenidade de inauguração da belíssima praça, já no salão do Tênis Club Santanense aguardávamos o início da solenidade de lançamento do livro. Sentados em redor de uma mesa colocada em local oposto ao palco, estávamos minha esposa, eu e o Desembargador Dr. José Carlos Malta, depois de cumprimentos e reencontro com muitos amigos e amigas, inclusive familiares do homenageado. Organização nota dez para o evento, a cargo do competente Antônio Noya. De repente, como num estalo, eu me sintonizo durante minutos, segundos, não sei precisar, com outra dimensão. E com os olhos da alma consigo enxergar um salão bem maior que aquele em que eu me encontro fisicamente, somente que composto de uma outra platéia. O imenso auditório estava lotado por alegres personagens bastante conhecidas de todos nós, parentes, compadres e amigos de Dr. Adelson, outrora habitantes da Santana dos Meus Amores, que em meados do mês tinham também sido convidados pelo Cheops Rêgo de Miranda para aquele encontro, onde assistiriam as homenagens prestadas ao amigo. Foi então que entendi a grandiosidade do convite recebido que inicia com os dizeres “WILMA RÊGO DE MIRANDA E FAMÍLIA...” e também o cumprimento por parte de todos os filhos do casal, do IV Mandamento que relembramos “Honrai a vosso pai e a vossa mãe”.
Conversa bastante animada recheada de cumprimentos e abraços, enquanto aguardavam o início dentro de instantes, do evento que se realizaria no Tênis Club.
E enxergo lá na primeira fila Dr. Adelson Isaac de Miranda e seu filho Cheops Rêgo de Miranda ladeados por seus familiares, ainda a receberem cumprimentos de parte da imensa platéia.
Contendo a muito custo a emoção, retorno ao Salão de Festas do Tênis Club Santanense ao ouvir a voz do responsável pelo manuseio dos equipamentos de som e vídeo bem mais sofisticados que os nossos, lembrando que em instantes continuariam a receber LÁ imagens da segunda e justíssima homenagem que estava sendo prestada CÁ.

Santana do Ipanema (AL), Julho/2008

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