(in "Uma teoria do paradoxo", pp119-20, SC, 1999)
Do poeta santanense MARCELLO RICARDO ALMEIDA
Uma cidade pobre
Reflete
Sobre as fortunas
Da cidade poderosa.
Quer conhecer
Os motivos da força política
De sua vizinha,
Enquanto ela mesma,
Mesquinha, medrosa,
Reduz-se a meia dúzia de mei'águas
Tristes de tudo.
Definha à beira da morte econômica.
E os habitantes,
Desiludidos,
Sós,
Só bebem e fumam,
Fumam o futuro, bebem o passado.
Falta-lhes trabalho. E as fábricas?
Empregam computadores.
A cidade pobre nem ousa saber
De seu parentesco co'a cidade rica.
E a cidade rica,
De olhar fixo à cidade pobre,
Quer lhe aconselhar
Demoradamente.
Desiste, todavia,
Por um motivo simples.
A cidade pobre caída, cabisbaixa,
Sempre carregará um coração mole.
E os moles dedicam-se só, apenas
A fortalecer ainda mais a quem já é forte:
Os guerreiros, os curandeiros,
Os mercadores.
Revolta-se quem não dispõe de espírito,
Espírito guerreiro ou religioso
Ou para o comércio.
Ainda senão, eis mais uma
Pobre serva cheia de inveja
E que não se revolta
Com a tríade (o clã do mercado,
Da cura e da guerra
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