O MENINO DE GRÃO-PARÁ

Poemas

Remi Bastos

Mato ralo, caatinga esparsa.
À distância tudo treme ao calor do sol.
O céu despido de nuvens nimbos
Não oferece nenhum sinal de chuvas,
Apenas o juazeiro e o aveloz
Conseguem manter firme o seu verde.
Manhãs de setembro, o dia mais uma vez
Desperta o cenário fazendo adormecer a terra.
Na estrada que conduz a Olivença
Um ávido menino alforjado, exibindo sua espingarda
De quase um metro e oitenta da coronha a mira,
Toma a estrada secundária rumo ao Grão-Pará.
Em sua trajetória zinguezagueando o caminho,
Segue feliz esbanjando sua pontaria certeira
Nas rolinhas, anuns e bem-te-vis, livres,
Nos galhos das catingueiras e baraúnas dispersas,
Às margens da estada empoeirada.
Às proximidades da propriedade
Uma mercearia o recepciona
Com uma coca cola tomada ao balcão.
Uma cancela, e algumas passadas mais,
Lá estaria o menino adentrando a propriedade
Do seu velho e incansável pai, no Grão-pará.
O tempo passou, o menino cresceu, estudou e se formou.
Foi político, prefeito e deputado,
Mas o seu sonho de criança não terminou aí,
Sempre que viaja pelo sertão ao contemplar
As catingueiras e as baraúnas ao longo da estrada,
Observa os pássaros em festa sobre suas copas
E lembra com saudade o seu velho pai,
A sua espingarda, os tiros certeiros nas rolinhas
E a estrada empoeirada que o conduzia ao Grão-pará.

Aracaju, 06/08/2008

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