Inúmeros têm sido a quantidade daqueles que se debruçam sobre o tema, o cangaço, como também têm sido as definições da palavra em apreço, sendo, contudo, Câmara Cascudo, o mais consultado nesse campo, situo-me em Ecaurepaire, que em 1.889, registrou: “sendo o cangaço o conjunto de armas que costumam conduzir as volantes”. E este semanário, hoje recipiendário da cultura sertaneja, ao longo deste mês de julho, em que se comemoram os setenta anos da extinção do cangaço no Nordeste (1.938-2.008), vem mostrando relevantes reportagens, mostrando sem retoques e emblemática vida do cangaço, nas duas décadas que pontificou nas terras sertanejas nordestinas, espalhando o medo e o terror as famílias.
As desavenças de famílias e visinhos, criaram o banditismo no Nordeste, junto à prepotência dos rancorosos fazendeiros, pois ser bandido ou ostentar esse nome, parecia ser bonito para a época, quando muitos jovens atraídos pelas atrocidades de Lampião e seu bando, deixavam suas famílias e ingressavam no bando do bandoleiro Lampião, inspirando poetas e cantadores a escreverem histórias das mais hilariantes e temíveis. Dada sua pertinácia de pesquisador arguto, Câmara Cascudo, resgatou esta estrofe: “há quatro coisas no mundo/ que alegra um cabra macho/ dinheiro e moça bonita/ cavalo estradeiro e baixo/ cravinote e cartucheira/ pra quem anda no cangaço”. Vê-se ai, prezado leitor, o retrato vivo de uma época. Quando Lampião rasgava os sertões de ponta a ponta, parecia fascinar a determinados elementos, que deixavam tudo para seguir o facínora. Muitas famílias foram dizimadas pelas crueldades de Lampião, Curisco e seu bando.
No começo deste ano, fiz uma visita ao Dr. Sílvio Bulhões, hoje aposentado, ele filho de Curisco, vi naquele homem austero e amigo, uma pessoa de bem, sem sequer ter nada da índole de seu pai, e esta história ele vai mostrar a sociedade num livro que está concluindo, revelando a verdade dos fatos, não cabendo a mim, revelar coisa alguma, ele o fará em tempo hábil, por ser êmulo e testemunha viva dessa saga.
Muitos que desconhecem a verdadeira história do cangaço criam fatos até miraculosos, entretanto, existem verdadeiros biógrafos que são corretos em seus escritos, como Bezerra e Silva, Valdemar de Lima, Aglae Lima de Oliveira, Capitão João Bezerra, Zezito Guedes, mesmo com muito florilégio, ainda considero o Pe. Frederico Bezerra Maciel, no campo histórico, o mais completo, exagerando nas peripécias de Lampião e Maria Bonita. Mesmo que a história reestude a saga do cangaço, nunca poderá fugir da realidade dos fatos, omitindo-se, como muitos sociólogos, hoje querem fazer, dando uma nova dimensão a essa história, não se pode negar a frieza, a astúcia, à perversidade, a falta de amor ao próximo, a insensibilidade de Lampião e seus asseclas, isto está patente em todas suas ações, não é uma pequena obra de caridade, que porventura ele tenha feito, e, certamente o fez, que vai modificar toda uma história de perversidade em cima de seu semelhante, suas atrocidades praticadas com as famílias continuam vivas, as feridas do corpo, cicatrizam-se, porém as da alma levam-se ao túmulo, e mais, chegarão aos pés de Deus.
A história está a registrar setenta anos do extermínio do cangaço, sabe-se que, hoje também se mata, se seqüestra, mas existe ainda o respeito à pessoa humana. Dizem até que Pe. Cícero deu patente de capitão a Lampião, como quererem enxovalhar e macular a alma de um justo, nessa famigerada patente, ostentada por Lampião, não consta assinatura do padre santo, o padre, sim, pediu a Lampião que deixasse o cangaço, e fosse viver dignamente noutro Estado, o que ele prometeu, mas não o fez, porque estava arraigado até a medula no cangaço, pois padre Cícero, em ser contemporâneo de Lampião, jamais o acobertou em seus desmandos e crimes hediondos, aconselhava-o sim a abandonar a má vida, nas poucas vezes que se encontrou com o bandoleiro. Não sou pesquisador do cangaço, e nem pretendo sê-lo, para se sentir nas entrelinhas da história a verdade dos fatos.
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