O nome “Demônio” (daimon) é de origem grega e significa "gênio sobrenatural" ou "espírito", bom ou mau. Segundo consta, sobre ele não há nenhuma citação nos livros do Antigo Testamento, e sim no Novo Testamento, onde é confundido com o Satã pelos evangelistas. Depois os romanos o chamaram de Diabo, “espírito da mentira ou caluniador”. Ainda hoje existem vários nomes com os mesmos ou outros significados, como “Lúcifer, Satã, Satanás”. Tudo coisa do inferno.
Sou católico, apostólico, romano. Portanto, por tradição familiar acredito em Deus, Pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra, e tenho todo o respeito pelos que seguem outras religiões, crenças ou cultos. Não vou discorrer sobre o assunto, pois dele não tenho conhecimento profundo nem autoridade para fazê-lo.
Vejamos o título acima e o analisemos bem! Não existe na história algo que confirme o poder que alguns dizem ter o Demônio. O Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa define-o, também, como pessoa que tem grande habilidade em alguma atividade e merece, por isso, atenções especiais (esqueçam o satã).
É por aqui que vamos iniciar nossa história. Como dissemos em outras matérias, estudamos na escola de Dona Helena Chagas, em Santana do Ipanema, juntamente com Arquimedes, Demóstenes, João Neto Chagas e outros colegas. Demóstenes era o nosso “Demônio” – o próprio nome “Demo” induziu a turma a assim chamá-lo – e estava enquadrado na definição do dicionário pela grande habilidade em brincadeiras e na prática de traquinagens. Menino danado. Naquela época, Arquimedes (Lobão), outro danado – e que dupla! – contratou-o por tempo indeterminado, com pagamento semanal, para que Demóstenes pudesse, cidade afora, dar vazão a esse seu impulsivo instinto de destruição, em termos de molecagem. A área de jurisdição ou o pólo de suas peraltices circunscrevia-se, principalmente, à ponte da Camoxinga, próximo de onde morava, à escola de Dona Helena Oliveira, indo até à igreja matriz, estendendo-se depois ao Ginásio Santana. Durante a vigência do tal “contrato de trabalho”, Demóstenes pintou o diabo. Tocou fogo em lixeiras, derramou a água dos tonéis das construções, fez o Padre Cirilo interromper, várias vezes, a celebração de missas, levou cobras para a escola, levou reguadas da professora, botou mosquito (palito de fósforos queimado) em casais de matutos que cochilavam nas festas da padroeira, “maiou” (entrou de graça) em circos, cinemas e bailes. Não vamos mais citar tantas proezas por absoluta falta de espaço. Recebia religiosamente seu “salário” em dia e era fiel ao seu “patrão”. Hoje, adulto como os demais, certamente deve recordar as brincadeiras do tempo de menino, notadamente as de reconhecido mau gosto que praticou. Confesso que nunca mais o vi. Segundo informações, é ele funcionário da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cidade onde atualmente reside.
Como recordação daquela época, gravei um fato que então me deixou estupefato e indignado, tendo em conta o local onde foi praticada a grave e audaciosa peraltice. Encontrávamos pela manhã assistindo à missa dominical na igreja matriz. O Padre Cirilo permitia que os meninos ficassem sentados nos degraus do antigo altar-mor, formando quase um “U”, a fim de que sobrassem espaços para os adultos nas bancas e cadeiras da igreja, desde que ficássemos todos em silêncio, ordem a que os meninos quase sempre não obedeciam.
Por trás do altar principal havia um pequeno corredor que dava acesso à outra dependência ou ao quintal da igreja, área que só seria vista por quem estivesse do lado direito do altar e sentado naqueles degraus. Foi ali que aconteceu a audaciosa molecagem. No momento em que o celebrante levantava o cálice, Demóstenes estava por trás do altar, descendo e subindo as calças e pulando para que fosse visto pela indócil meninada. Ninguém agüentou, e todos começamos a rir para desepero do bondoso padre, que foi obrigado a parar a celebração da santa missa e expulsar-nos todos dali por descumprimento do que fora acordado. Em razão do fato, o padre também chamou a atenção dos pais dos garotos ou seus responsáveis, em diplomático esbregue.
Padre Cirilo nunca soube o verdadeiro motivo daquele barulho todo, daquela incontida explosão de gargalhada. Tampouco os pais da turma também, nem mesmo meu tio José Constantino (para minha felicidade), souberam o motivo do gargalhar da irrequieta garotada naquela manhã de domingo.
O “Demo” era bem pago para tudo isso.
Maceió, julho/2007.
Comentários