Vinha eu numa caminhada rotineira pela periferia de nossa cidade e me deparei com um grupo de adolescentes de ambos os sexos, cada um levava consigo um vasilhame aparentemente vazio e mantinham a boca do vasilhame sempre enfiado em seu nariz. Por algum momento não perceberam minha presença ou se o fizeram não deram trela, ainda me demorei um pouco vendo aquela cena melancólica quando fui alertado por um dos púberes.
- E aí tio, o que quê ta pegando? Se liga véi.
Nesse momento percebi que tava sendo inconveniente e continuei minha andança. Mais na frente observei duas garotas que aparentavam 13 e 15 anos. Do lado, num possante carro, um político conhecido conversava animadamente com as garotas que talvez pelo forte calor do sertão se vestiam com minúsculas peças, estilo Carla Perez, Xuxa e outras figuras maléficas, criadas para manter zumbis anestesiados. Num piscar de olhos as meninas entraram no veículo e saíram com destino ignorado.
Mais cinco minutos de caminhada, achando normal me atolar nos lameiros das ruas sem pavimentação, de repente ouvi os gritos de uma mulher que logo identifiquei sendo uma gestante, aos prantos pedia socorro, ao se calar dava para ouvir o som que vinha do interior de sua residência, era uma melosa musica brega na voz de Tayrone Cigano. E tome mais berros, a jovem mulher não parava de gritar. Sentindo fortes dores devido a sua gravidez, sem o mínimo acompanhamento medico e talvez já ultrapassando os nove meses. Pouco tempo passado algumas vizinhas chegam para prestar solidariedade, tentaram o orelhão e nada de funcionar, apelaram para os celulares dos vizinhos, mas todos sem créditos. De repente um socorro surge, um vizinho com uma carroça de burro a conduz ao hospital – fiquei sabendo dias depois que a infeliz mulher não foi atendida no hospital local devido a sua “negligência” com o pré-natal e a caminho "da capital" veio a falecer.
Num barzinho ali ao lado a farra corria solta, o som tava tão alto que nenhum dos fregueses perceberam a agonia da vizinha grávida. No momento em que se assistiam ao DVD de Calypso, dois amigos que bebiam na mesma mesa começaram a se agredir, é copo pra lá, garrafa pra cá e tome mão no pé do ouvido.Esgotada a paciência o dono do bar resolve tomar uma atitude e coloca os dois pra fora. Na rua a “festa” continua, cheguei a me imaginar no programa do Ratinho.
Afastando-me mais um pouco ouvi uma sirene, acreditei ser a ambulância que tinha vindo em socorro à gestante, triste engano, era o camburão da policia em disparada. Os policias logo desceram e mandaram ver.
- Todo mundo na parede, mãos para cima, seu bando de desocupados.
Armas em punho.
Pensei, estarei numa rua de Bagdá?
- Cadê os meliantes conhecidos como Catenga e Ratazana, onde eles moram?.
Um rapaz que já conhecia a forma “delicada” dos policiais de conseguirem suas informações foi logo indicando.
- É ali seu poliça que um deles mora.
Sem muito esforço, com apenas uma pequena botinada, um policial magrinho derruba a “fortaleza” de um dos “perigosos” delinqüentes. No cantinho da parede uma velhinha toda encolhida, de olhos esbugalhados e tremendo mais do que vara verde se apresenta.
- Pois não seu dotô o que vosmicê quer?
- Cadê o bandido sem-vergonha, vai logo vó precisamos pegar esse vagabundo, a sociedade ta no meu pé, cobrando uma atitude!
- Eu num sei dele não seu dotô, esse menino não tem jeito, tanto conselho que eu dei, nunca quis estudar.
Sempre aos gritos o comandante da “operação catita” revista tudo – esse tudo, não passava de um camiseiro e duas camas. Não demorou muito para que se encontrasse em baixo de uma das camas um dos procurados.
- Olha o safado ai. Onde ta o celular da garota, seu filho de uma vaca? Toma isso, e mais isso, tu não aprende nunca, já fizeram de tudo pra você se recuperar seu ordinário, até pro CRM já te mandaram, tu é um irrecuperável!
- Moço faz nada com esse coitado não - dizia em voz baixa a vovó.
- Isso é um imprestável, não serve pra porra nenhuma. Ô meninos metem bala nesse porqueira que amanhã a gente vai receber um monte de elogios do povo.
Pá, pá, pá, só se ouvia os estampidos.
- Pronto! O inferno hoje ta em festa, acaba de receber mais um dos seus e a sociedade local se livrou de mais um problema. Vamo rapaziada joga esse trapo pra levar pro IML, lá eles vão ver que foi legitima defesa.
A policia indiferente aos gritos da mãe do garoto que tinha acabado de chegar, joga em cima da caminhonete o corpo inerte daquele adolescente que já não oferece mais perigo aquela comunidade.
Saí dali um pouco angustiado, mas logo recuperei a normalidade ao ouvir duas vizinhas que conversavam animadas sobre o episódio.
Enquanto uma dizia;
-Bem empregado esse traste era muito perigoso, perturbava todo mundo aqui, tava até cobrando pedágio!
A outra completava;
- Que queime no fogo do inferno, ladrão só merece bala. Um pouco distante deu pra ouvir elas se despedirem dizendo;
- Mulé eu vou entrar, pois preciso me trocar, daqui a pouco vou à igreja.
A outra por sua vez já estava, segundo ela, perdendo o inicio da novela.
Continuei a caminhar, desta feita com um pouco de pressa, não aquentava mais tantos problemas numa mesmo local, necessitava respirar ares mais tranqüilos. Não demorou pra avistar o lugar do meu destino, a Praça dos Barbeiros, um dos locais mais movimentados da minha cidade e não foi diferente naquele dia. Estudantes indo e vindo de um lado para o outro, alguns carros disputando seus sons ligados a toda altura, belas garotas com seus celulares de ultima geração. Do outro lado carros de marcas famosas, tais como: Pajero, Hiluxe, entre outros, o mais simples em exposição naquele dia era um Corola com placa de táxi. Ali estava a nata da sociedade local a discutirem assuntos “altamente proveitosos” como, por exemplo: quem deixou de pagar a quem, ou, com quem a mulher de fulano vai sair hoje. No outro lado da Praça alguns policias garantem a segurança do local, afinal ali está concentrada mais de noventa por cento da economia da cidade.
Num espaço de um dos bancos me sentei e pus a meditar em todas aquelas cenas dos últimos momentos de minha vida. Tava com um amontoado de duvidas: não sabia se me aproximava do grupo de “intelectuais” e defensores da boa conduta, para contar tudo que tinha visto ou fazia de conta que nada tinha acontecido e ai apreciar as belas garotas. É claro que caso resolvesse relatar o que tinha visto iria acrescentar alguns detalhes, frutos da minha imaginação fértil, porém me senti um pouco constrangido ao ver aquele monte de carros caros, pois por mais que lutasse na vida jamais conseguiria o êxito daqueles bem-aventurados soberanos e minha renda se comparada com aqueles “sortudos” senhores é infinitamente ínfima. Mas precisava contar que tinha visto um monte de garotos irresponsáveis, dai senti inveja da descontração daquela garotada.
Ia falar que tinha flagrado um político influente levando umas garotinhas - provavelmente para um motel - mas ai senti inveja daquele ancião garanhão que conseguiu levar duas mulheres e ainda mais, bem novinhas, no seu possante carro.
Contaria que tinha visto a policia exterminar um meliante, e ai também senti inveja daqueles corajosos homens da lei que enfrentaram sem medo um perigoso assaltante.
Enfim iria criticar a administração pública pelo descaso com a periferia e logo vi que aquilo não passava de um impulso insano visto que o governo municipal alcançou altos índices de aprovação segundo pesquisa divulgada sem que ninguém contestasse.
Levantei-me e decidi chamar um mototáxi e ir para casa convencido que não passo de um FUXIQUEIRO INVEJOSO.
Novembro/2006
Matéria publicada em 27/11/2006
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